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FILOSOFIA E PRÁXIS CIENTÍFICA

Ladrière (FPC) – A filosofia e o fundamento da ciência segundo Descartes

quinta-feira 28 de outubro de 2021

Ladrière, Jean. FILOSOFIA E PRÁXIS CIENTÍFICA. Org. Olinto Pegoraro. Tr. Maria José J. G. de Almeida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978


O presente estudo sobre filosofia e ciência é o texto de uma conferência pronunciada diante do Philosophy Club da Universidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, a 19 de abril de 1958. O texto foi originalmente escrito em francês e depois traduzido para o inglês. Foi o texto inglês que serviu de base à tradução em português que aqui se publica.

A possibilidade? de refletir sobre a relação entre? a filosofia? e a ciência é relativamente recente enquanto problema?. Ela remonta? tão-somente à Renascença, à separação que nessa época ocorreu entre filosofia e ciência e que parece ter? encontrado sua forma? acabada na filosofia de Descartes  . A filosofia cartesiana?, de fato?, não é apenas uma filosofia que se distingue estritamente da ciência. Ela é ao mesmo? tempo? uma filosofia que desenvolve de maneira sistemática e decisiva as categorias? nas quais é pensada a oposição filosofia-ciência: as categorias de pensamento? e espaço. A filosofia será, nessa perspectiva?, o desenvolvimento? daquilo que está contido na ideia? de pensamento, a res cogitans, com base na experiência fundamental do cogito?. E, como sabemos, essa ideia leva à redescoberta filosófica da ideia de Deus? e da criação. Ela também contém, por intermédio da noção de Deus e da relação de criação, uma espécie de justificação transcendental? do mundo? e, em particular?, do mundo da extensão espacial. A filosofia, enquanto tal, nada? tem a ver? com esse? mundo da pura extensão, mas deve oferecer uma justificação dele. Tal é precisamente um dos objetivos? da reflexão metafísica de Descartes   e o papel? filosófico, se é que se pode admitir semelhante? expressão, da ideia de Deus em seu sistema?.

Por outro lado, o estudo? das propriedades do espaço pertence à ciência enquanto tal, no sentido? da ciência positiva. E sabemos que Descartes   concebia essa ciência como mathesis? universalis, embora não ainda no sentido de Leibniz  . Para ele, a intuição fundamental era? a da geometria? analítica, mas ele ainda permanecia preso à ideia do espaço e não percebera o desenvolvimento implicado na própria ideia da geometria analítica: a possibilidade de se levar a cabo uma transição em direção à matemática puramente formal?. Para ele, o mundo exterior? à consciência, ao cogito, é o mundo da extensão no espaço. Isso equivale a dizer que deve ser possível construir a ciência em total conformidade com o modelo? da mecânica, e a própria mecânica com a ajuda da geometria analítica. Temos assim uma espécie de redução gradual — redução à figura? e ao movimento? e, deste modo?, redução a propriedades espaciais; em seguida, a redução das propriedades espaciais às propriedades numéricas. Mas — é preciso observar? mais uma vez? — a intuição do espaço permanece fundamental, e isso, afinal de contas?, é de certo modo surpreendente. A álgebra ainda é apenas um instrumento?. Uma vez solucionada o problema, ela tem de ser novamente submetida a uma interpretação geométrica e o significado? do resultado deve ser explicado em termos de figuras.

Entretanto, ao mesmo tempo que efetua sua famosa distinção e, em consonância com ela, desenvolve suas meditações metafísicas e seu tratado do mundo como dois? corpos? de doutrina separados, Descartes   conserva a ideia diretriz de um saber? universal?, no antigo significado grego? da palavra? episteme?. É o que explica no texto? muito conhecido onde o saber é descrito como uma árvore cujo tronco é constituído pela metafísica e cujos ramos são as diferentes ciências.

Como é que essas duas perspectivas podem se tornar compatíveis? Provavelmente mediante a ideia de fundamento?. I

Como vimos, a tarefa? da filosofia consiste em dar à ciência uma justificação. Para Descartes  , essa justificação da ciência é uma justificação do espaço, posto que a ciência nada mais é que o estudo do espaço, sendo? o espaço e mais nada a realidade? exterior ao cogito. Tal justificação da ciência é, pois, ao mesmo tempo, uma justificação epistemológica e uma justificação metafísica.

Justificação epistemológica: corresponde ao famoso problema da "ponte?". A ciência não é uma descrição direta do mundo, mas uma reconstituição do mundo por meio das figuras ideais? da geometria. Estou certo da validez de minhas demonstrações geométricas, porque essas demonstrações podem ser feitas na evidência da ideia clara e distinta. Mas como posso estar? certo da verdade? de minhas ideias?, como posso estar certo de que essas ideias realmente correspondem à realidade do mundo e que, por conseguinte, a geometria é realmente uma ciência? Em outras palavras, como posso estar certo da validez universal da mathesis universalis? E aqui que intervém a veracidade? divina, juntamente com a ideia da criação. Em última análise, a solução do problema da "ponte" é obtida graças a uma dupla redução transcendental: redução transcendental da realidade de minhas ideias à realidade divina e redução simultânea da realidade do mundo à realidade divina. É essa dupla redução que me assegura da correspondência entre minhas ideias e o mundo, e isso de maneira a priori?. Este é um ponto? realmente decisivo e constitui a força filosófica desta posição.

Mas compreendemos deste modo que essa justificação da ciência não é apenas uma justificação epistemológica — relativa ao valor? do conhecimento? científico — mas também, ao mesmo tempo e mais profundamente, uma justificação metafísica. Temos mesmo que dizer que a primeira? depende da segunda. Porque há uma redução, transcendental, simultânea e correlativa, do pensamento finito? e do mundo à Realidade infinita? de Deus o pensamento finito torna-se possível (acerca do mundo).

Se estivermos certos da possibilidade e da realidade dessa redução, compreenderemos então que a ciência não é radicalmente distinta da filosofia, mas está antes fundada nela. De fato, sem essa justificação, a ciência não passaria de um sonho? dos matemáticos e não teria nenhuma consistência, quer epistemológica, quer ontológica. Não seria absolutamente ciência. Se é ciência, isso se deve unicamente ao fato de que sua validez é certa. E sua validez é garantida pelo mecanismo? da reflexão metafísica. Assim, não há de fato nenhuma separação real? entre a ciência e a filosofia. A ciência sem a filosofia não seria ciência, pois não saberíamos se é justificada, ou se pode ser justificada, ou como eventualmente poderia ser justificada. A filosofia sem a ciência, por sua vez, seria um discurso? incompleto. Ela descreveria, claro, um fundamento, mas não saberíamos nada acerca daquilo que se encontrava fundado, pelo menos no que concerne ao espaço e a ele pertence.

Por conseguinte, temos que tomar a totalidade? da ciência mais a filosofia para que tenhamos um real saber, um saber que satisfaça todas as exigências de um verdadeiro? saber, algo que tenha ao mesmo tempo um conteúdo e um fundamento. A filosofia sem a ciência tem por conteúdo apenas o cogito, mas o próprio cogito nos transporta para seu conteúdo por intermédio das ideias, e esse conteúdo pode ser analisado em conformidade com métodos adequados. A ciência, de sua parte?, sem a filosofia seria um sonho inconsistente, posto que "não saberíamos a respeito? de que estamos falando, nem se o que dizemos é verdadeiro" (a observação — feita quando falava da matemática pura — é de Bertrand Russell   e é rigorosa e literalmente exata).

Assim, fica claro o caráter imponente da estrutura? filosófica de Descartes  , pois ela consegue garantir a unidade? de nosso saber no momento? mesmo em que essa unidade se cinde em duas direções aparentemente irreconciliáveis.