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Sistema de Informação Geográfico - Um Ensaio de Desconstrução

de Castro: noção histórica de "meio" em Canguilhem

quarta-feira 27 de outubro de 2021

Sistema de Informação Geográfico - Um Ensaio de Desconstrução (versão inicial de tese de doutorado)

Segundo Georges Canguilhem   (1971), sobre o qual se baseia em grande parte? as reflexões que se seguem, “a noção de meio? está em vias de se tornar um modo? universal? e obrigatório de apreensão da experiência e da exist?ência dos seres vivos, e pode-se quase falar? de sua constituição como categoria? do pensamento? contemporâneo”.

Para Canguilhem  , a noção e o termo? foram historicamente importados da mecânica para a biologia?, na segunda metade do século XVIII: como noção mecânica, aparece em Newton, e como termo com o mesmo? significado? já está presente? no artigo Meio da Enciclopédia. Mecanicistas franceses do século XVIII teriam chamado? de “meio” o que Newton entendia por fluido, e cujo arquétipo? único seria o éter?.

Este forte vínculo mecanicista, na origem? da noção e do termo, é sujeito? a contestação, especialmente se tomadas em consideração as análises de dois? historiadores: primeiro?, Ioan P. Couliano (1984) que, em sua obra? sobre o estatuto? da imaginação no Renascimento?, discorre sobre a importância da mediação e das operações, implicando a relação mútua entre alma? e mundo? (Segundo uma visão herdada de Platão e Aristóteles, associada a ideia? de Anima Mundi?, que falaremos mais adiante.); e, segundo, Georges Gusdorf   (1993) que, em sua extensa obra sobre o Romantismo?, vê justamente no organicismo? defendido pela Naturphilosophie, onde a noção de “meio” ganhou proeminência, uma reação total ao mecanicismo? advindo de Descartes   e reformulado por Newton.

Segundo Canguilhem  , o problema? a resolver para a mecânica, na época de Newton, era? o da ação à distância, entre indivíduos físicos distintos. Este problema, perfeitamente solucionado, ou mesmo inexistente na Weltanschauung? platônica e estoica, foi recriado pelo sistema? de Descartes  , ao combater a escolástica, e juntamente desmantelar a cosmologia? herdada da antiguidade. Descartes   considerava em seu sistema de ideias? que o único modo de ação físico era o choque, ou seja, ele pressupunha o contato físico para que fosse possível uma ação entre dois corpos?.

Canguilhem   afirma que a partir de Galileu   e Descartes  , se teve que escolher? entre pelo menos duas teorias? de “meio”: uma teoria baseada em um espaço centrado, qualificado?, onde “meio” (mi-lieu?) é um centro; e outra, baseada em um espaço descentrado, homogêneo, onde mi-lieu é um campo? intermediário. Pascal   afirmava, dentro de uma concepção orgânica do mundo: o homem? não está no “meio”, ele é o “meio”. Desta maneira, identifica-se desde a emergência da ciência moderna? três sentidos? para “meio”: situação mediana, fluido de sustentação, ambiente? vital.

Para o sistema de Newton, a noção de um veículo da ação, de um fluido intermediário entre os corpos, inclusive penetrando-os, era, no entanto, indispensável. Desta forma? foi restituída esta antiga noção, sendo? possivelmente transposta pelo próprio Newton, da física para a biologia, quando ele tentou dar uma solução científica ao fenômeno da iluminação, em conjunto com uma explicação fisiológica da visão (Na sua Ótica, Newton considera o éter coextensivo ao ar?, aos olhos?, aos nervos, até aos músculos, garantindo um “meio” contínuo, que permite a ligação de dependência do brilho da fonte? luminosa percebida e o movimento? dos músculos pelos quais o homem reage a situação.).

Canguilhem   dá um salto? em seu percurso histórico, de Newton para Lamarck, e resgata, no pensamento deste último, uma nova apropriação da noção de “meio”. Primeiro, este último usa sempre o termo fluido no plural (fluidos), e se refere a água, o ar e a luz?; designando um conjunto de ações, originárias destas fontes, que se exercem de forma exógena, sobre um ser vivo. Este conjunto que denominaríamos de “meio”, atualmente, Lamarck chamava de “circunstancias influentes”. Um gênero, que deve em sua conceituação e escolha terminológica, muito à astrologia?, ainda predominante à época, e que inclui clima (“Clima era uma noção indivisa, geográfica, astronômica e astrológica; indicava a mudança de aspecto? do céu de grau? em grau.” [Canguilhem  , 1971]), lugar e meio como espécies.

Em Lamarck, como nos primeiros teóricos do “meio”, as noções de circunstâncias, ambiência, tinham todo um outro significado, que o da linguagem? atual. Evocavam, segundo Canguilhem  , a ideia de uma disposição esférica, na qual a Terra? volta a assumir sua posição central, em conformidade com uma cosmologia tipicamente aristotélica-ptolomaica.

Desta maneira, Lamarck, como fiel herdeiro de Buffon (De acordo? com Canguilhem  , Buffon adota uma concepção das relações entre organismo e “meio”, arquitetada segundo duas ideias-força: a proposta pela cosmologia de Newton e a traduzida por sua interpretação do pensamento dos antropogeógrafos, dentre eles Bodin, Maquiavel e Montesquieu), avança na criação das condições iniciais para a adoção do modelo? físico-matemático de Newton, padrão de ciência àquela época, na explicação do vivente?, através da idealização de um sistema de conexões com seu “meio”.

Para Canguilhem  , em Lamarck, apesar das distorções implementadas em seu pensamento pelos neo-lamarckistas, que efetivamente adotaram o termo “meio”, não há uma ação das circunstancias, ou do “meio”, diretamente sobre o ser vivo. Para uma efetiva ação das circunstancias, se impõe a mediação da “necessidade?”, uma noção subjetiva implicando a referencia a um polo positivo? de valores? vitais. Mudanças no “meio” encadeiam mudanças nas necessidades, que, por sua vez?, encadeiam mudanças nas ações, que pela durabilidade, desenvolvem ou atrofiam a morfologia?, que se conserva pelo mecanismo? de hereditariedade?, se a mudança for comum? aos reprodutores da espécie.

Em Comte  , Canguilhem   reconhece a proposta de uma teoria biológica geral? do “meio”, e considera sua originalidade? de aplicação, como noção universal e abstrata? da explicação do ser vivo, em seu “meio”. De acordo? com Comte  , não importa somente o fluido no qual o corpo se acha imerso, mas o conjunto total das circunstancias exteriores?, necessária a existência, de cada organismo.

Predomina ainda a origem mecanicista, segundo Canguilhem  , embora se possa perceber? uma tentativa de concepção das relações entre o organismo e o “meio”. No caso do ser humano, Comte   considera que a humanidade? modifica o seu “meio”, por intermédio de uma ação coletiva.

Desta maneira, dentro do princípio de Newton, de ação-reação, Comte   caminha para uma formula?ção quase matemática: em um “meio” dado?, sendo também dado o órgão, pode-se encontrar a função, e reciprocamente. Afirma-se assim a relação do “organismo apropriado?” e do “meio favorável”, como um conjunto de potências, cujo ato? é constituído pela função (A ligação do organismo ao “meio” é, portanto, calcul?ável como função de um conjunto de variáveis, onde a ligação de igualdade?, a equação, permite determinar a função através das variáveis, e as variáveis separadamente a partir da função, mantidas todas as demais coisas? iguais.).

Darwin, por seu lado, secundariza a ideia de “meio”, de acordo com Canguilhem  , ao ver? na conjunção de dois mecanismos a explicação das novas formas: um mecanismo de produção de diferenças (variação), e outro de redução e de crítica das diferenças produzidas (concorrência vital e seleção natural?). Para Darwin a relação fundamental é a relação dos seres vivos entre si (Segundo Canguilhem  , em suas cartas, posteriores à edição da Origem das Espécies, Darwin passa a reconhecer a primazia da relação entre seres vivos e meio, desde que entendido este último como o conjunto de forças físicas.).

Canguilhem   faz uma breve incursão pela Geografia do inicio do século XIX, apontando as figuras maiores de Ritter e de Humboldt  . Para o primeiro, a história humana seria ininteligível sem a ligação do homem ao solo. A Terra deve ser considerada em seu conjunto como o suporte? estável das vicissitudes da história. O espaço terrestre e sua configuração são, por conseguinte, objeto? de conhecimento? não só geométrico, não só geológico, mas sociológico e biológico. A Geografia tem que ver com complexos, complexos de elementos? cujas ações se limitam reciprocamente, e onde os efeitos de causas? se tornam causas por sua vez, modificando as próprias causas que lhes deram nascimento (O título completo da monumental obra de Ritter, Erdkunde, indica sua dedicação por construir uma geografia científica, desembaraçada das intermináveis descrições de fatos? sobre países e cidades: “Ciência da Terra em relação à natureza e à história humana ou uma geografia geral comparativa, como uma segura fundação para estudo? e ensino nas ciências físicas e históricas”. [Livingstone, 1992, p. 141]).

Àquela época, a Geografia ainda era regida por uma visão, que a entendia como um estudo da projeção do Céu sobre a Terra. Uma “geosofia” que se dedicava a compreensão do “diagrama de forças” manifestado pela organização do espaço natural e humano. Ou seja, a análise da colocação em correspondência do Céu e da Terra, em dois sentidos: tipográfico (geometria e cosmografia) e hierárquico (físico e astrológico). A coordenação das partes da terra e a subordinação ao céu de uma terra de superfície coordenada, eram subentendidas pela intuição astrobiológica do cosmos.

Aceitava-se ainda a teoria hermética da simpatia? universal (Retratada pelo principio da similitude, que nos coloca diante do paradoxo? enfrentado pela ciência tradicional?. Este paradoxo consiste no fato de que o sujeito tradicional era vivido? como múltiplo e que a unidade? era objetivada, projetada? no mundo, o Kosmos?. O princípio da similitude, como explicação suprema, era uma espécie de recusa ao corte entre sujeito-objeto?, entre causa-efeito?. A unificação se fazia pela mediação deste principio que se revelava como o própria garantia? da ordem? do Kosmos e de sua afetação à unificação do sujeito. [Durand  , 1979, p.141-216]), uma forma de intuição vitalista do determinismo? universal, que dava todo seu sentido à teoria geográfica do “meio”. Esta teoria supõe a assimilação da totalidade?, sob a forma de uma esfera?, centrada sobre a localização de um ser vivo privilegiado: o ser humano.

Canguilhem  , concluindo sua trajetória histórica sobre a noção de “meio”, constata ainda que ela caminha, desta maneira, para se tornar um instrumento? conceitual universal, com o poder de dissolução das sínteses orgânicas individualizadas.

Considerações sobre possíveis influências na formulação da moderna noção de “meio”, das descobertas científicas sobre o magnetismo, nos séculos XVIII e XIX, e das noções e conceitos? procedentes da emergente ciência da eletricidade (por exemplo, a conceituação de “campo”), estão lamentavelmente ausentes deste trabalho? crítico de Canguilhem  .


Ver online : SIG - Sistema de Informação Geográfico ou sig - sintetizador de ilusões geográficas


CANGUILHEM, Geoges (1971), La connaissance de la vie. Paris, Vrin.

COULIANO, Ioan Peter (1984), Éros et magie à la Rennaissance 1494. Paris: Flammarion, 1984

DURAND, Gilbert (1979), Science de l’Homme et Tradition. Paris, Berg International.

GUSDORF, Georges (1993): Le romantisme I et II. Paris, Payot.