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O Conhecimento da Vida

Canguilhem (CV:C1) – conhecimento

quarta-feira 27 de outubro de 2021

CANGUILHEM  , Georges. O Conhecimento da Vida. Tr. Vera Lucia Avellar Ribeiro. Revisão Técnica Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense, 2011. Extrato do Capítulo 1.

Tradução

Conhecer? é analisar. Nós o dizemos de melhor bom grado? do que o justificamos, pois é um dos traços de toda filosofia? preocupada com o problema? do conhecimento? que a atenção? que se dá às operações do conhecer acarrete a distração no que concerne ao sentido? do conhecer. No melhor dos casos, acontece de respondermos a esse? último? problema por meio? de uma afirmação? de suficiência e de pureza de saber?. E, no entanto, saber por saber não é mais sensato do que comer por comer, ou matar por matar, ou rir por rir, porquanto é a um só tempo? a confissão de que o saber deve ter? um sentido e a recusa de lhe encontrar um outro sentido diferente dele mesmo?.

Se o conhecimento é análise?, mesmo assim não é para permanecer nisso. Decompor, reduzir, explicar?, identificar, medir, pôr? em equações deve ser claramente um benefício do lado da inteligência?, já que, manifestamente, é uma perda? para o gozo. Gozamos não das leis? da natureza?, mas da natureza, não dos números?, mas das qualidades?, não das relações?, mas dos seres. Para dizer tudo, não se vive de saber. Vulgaridade? Talvez. Blasfêmia? Mas em quê? Pelo fato? de alguns homens se terem votado a viver para o saber, devemos crer que o homem? só vive verdadeiramente na ciência? e por ela?

Admitimos demasiado fácil a existência? de um conflito fundamental entre o conhecimento e a vida?, e de tal modo? que sua aversão recíproca só ’ possa conduzir à destruição da vida pelo conhecimento ou à derrisão do conhecimento pela vida. Só há, então, escolha? entre um intelectualismo? cristalino, isto é, transparente e inerte, e um misticismo? confuso, ao mesmo tempo ativo e descuidado.

Ora, o conflito não é entre o pensamento? e a vida no homem, mas entre o homem e o mundo? na consciência? humana da vida. O pensamento não passa de um descolamento do homem e do mundo que permite o recuo, a interrogação?, a dúvida? (pensar? é pensar etc.) diante do obstáculo? surgido. O conhecimento consiste concretamente na busca da seguridade pela redução? dos obstáculos, na construção de teorias? de assimilação?. Ele é, então, um método? geral? para a resolução direta ou indireta das tensões entre o homem e o meio. Mas definir? assim o conhecimento é encontrar seu sentido em seu fim?, que é permitir ao homem um novo equilíbrio com o mundo, uma nova forma? e uma nova organização de sua vida. Não é verdade? que o conhecimento destrua a vida, mas ele desfaz a experiência? da vida a fim de abstrair dela, por meio da análise dos fracassos, razões de prudência? (sapiência?, ciência etc.) e leis de sucessos eventuais, tendo em vista? ajudar o homem a refazer o que a vida fez sem ele, nele ou fora? dele. Por conseguinte, devemos dizer que, se pela ação? do homem, pensamento e conhecimento se inscrevem na vida para regrá-la, essa mesma vida não pode ser a força? mecânica?, cega e estúpida, que nos comprazemos em imaginar quando a opomos ao pensamento. E, aliás, se ela é mecânica, ela não pode ser cega, nem estúpida. Só pode ser cego? um ser que busca a luz?, só pode ser estúpido um ser que pretende significar.

Que luz estamos seguros de contemplar para declarar cegos todos os outros? olhos? que não os do homem? Que significado? estamos certos de ter dado? à nossa vida para declarar estúpidos todos os outros comportamentos que não os nossos gestos? Sem dúvida, o animal? não sabe resolver todos os problemas que lhe formulamos, mas por se tratar dos nossos e não dos dele. O homem faria melhor que o pássaro seu ninho, melhor do que a aranha sua teia? E, se olharmos bem, o pensamento humano manifestaria em suas invenções uma tal independência? para com as intimações da necessidade? e as pressões do meio que ele legitima, visando aos viventes infra-humanos, uma ironia? temperada de piedade?? Não foi um especialista dos problemas de tecnologia? que escreveu: "Nunca se encontrou uma ferramenta criada inteiramente para um uso? a ser achado em matérias a serem descobertas"?1 E pedimos que se queira refletir sobre o seguinte: a religião? e a arte? não são rupturas para com a simples? vida menos expressamente humanas do que a ciência; ora, que espírito? sinceramente religioso, que artista autenticamente criador?, perseguindo a transfiguração? da vida, nunca considerou o pretexto de seu esforço? para depreciar a vida? O que o homem busca porque o perdeu, ou, mais exatamente, porque pressente que outros seres além? dele o possuem - um acordo? sem problemas entre exigências e realidades, uma experiência cujo gozo contínuo que dela se retiraria garantiria a solidez definitiva de sua unidade?, a religião e a arte o indicam, mas o conhecimento, uma vez? que ele não aceita reconhecer-se parte? e não juiz?, instrumento? e não mandado, o afasta disso. E disso se segue que ora o homem se maravilha com o vivente? e ora, escandalizando-se por ser um vivente, forja, para seu próprio uso, a ideia? de um reino? separado.

Se, portanto, o conhecimento é filho do medo? humano (espanto, angústia? etc.), seria, no entanto, pouco perspicaz converter esse medo em aversão irredutível para a situação? dos seres que o experimentam nas crises que eles precisam vencer pelo tempo em que viverem. Se o conhecimento é filho do medo, é para a dominação e organização da experiência humana, para a liberdade? da vida.

Assim, através da relação do conhecimento com a vida humana, revela-se a relação universal? do conhecimento humano com a organização vivente. A vida é formação? de formas, o conhecimento é análise das matérias informadas. É normal? que uma análise não possa nunca dar conta de uma formação e que se perca de vista a originalidade? das formas quando nelas vemos somente resultados cujos componentes buscamos determinar.

Original

CONNAÎTRE c’est analyser. On le dit? plus volontiers qu’on ne le justifie, car c’est un des traits de toute philosophie préoccupée du problème de la connaissance que l’attention qu’on y donne aux opérations du connaître entraîne la distraction à l’égard du sens du connaître. Au mieux, il arrive qu’on réponde à ce dernier problème par? une affirmation de suffisance et de pureté du savoir. Et pourtant savoir pour savoir ce n’est guère plus sensé que manger pour manger, ou tuer pour tuer ou rire pour rire, puisque c’est à la fois l’aveu que le savoir doit avoir un sens et le refus de lui trouver un autre sens que lui-même.

Si la connaissance est analyse ce n’est tout de même pas pour en rester là. Décomposer, réduire, expliquer, identifier, mesurer, mettre en équations, ce doit bien être un bénéfice du côté de l’intelligence puisque, manifestement, c’est une perte pour la jouissance. On jouit non des lois de la nature, mais de la nature, non des nombres, mais des qualités, non des relations mais des êtres. Et pour tout dire, on ne vit pas de savoir. Vulgarité ? Peut-être. Blasphème ? Mais en quoi ? [8] De ce que certains hommes se sont voués à vivre pour savoir faut-il croire que l’homme ne vit vraiment que dans la science et par elle ?

On admet trop facilement l’existence entre la connaissance et la vie d’un conflit fondamental, et tel que leur aversion réciproque ne puisse conduire qu’à la destruction de la vie par la connaissance ou à la dérision de la connaissance par la vie. Il n’est alors de choix qu’entre un intellectualisme cristallin, c’est-à-dire transparent et inerte, et un mysticisme trouble, à la fois actif et brouillon.

Or le conflit n’est pas entre la pensée et la vie dans l’homme, mais entre l’homme et le monde dans la conscience humaine de la vie. La pensée n’est rien? d’autre que le décollement de l’homme et du monde qui permet le recul, l’interrogation, le doute (penser c’est peser, etc.) devant l’obstacle surgi. La connaissance consiste concrètement dans la recherche de la sécurité par réduction des obstacles, dans la construction de théories d’assimilation. Elle est donc une méthode générale pour la résolution directe ou indirecte des tensions entre l’homme et le milieu. Mais définir ainsi la connaissance c’est trouver son sens dans sa fin qui est de permettre à l’homme un nouvel équilibre avec le monde, une nouvelle forme et une nouvelle organisation de sa vie. Il n’est pas vrai que la connaissance détruise la vie, mais elle défait l’expérience de la vie, afin d’en abstraire, par l’analyse des échecs, des raisons de prudence (sapience, science, etc.) et des lois de succès éventuels, en vue d’aider l’homme à refaire ce que la vie a fait sans lui, en lui ou hors de lui. On doit dire par conséquent que si pensée et connaissance s’inscrivent, du fait de l’homme, dans la vie pour la régler, cette même vie ne peut pas être la force mécanique, aveugle et stupide, qu’on se plaît à imaginer quand on l’oppose à la pensée. Et d’ailleurs, si elle est mécanique elle ne peut être ni aveugle, ni stupide. Seul peut être aveugle un être qui [9] cherche la lumière, seul peut être stupide un être qui prétend signifier.

Quelle lumière sommes-nous donc assurés de contempler pour déclarer aveugles tous autres yeux que ceux de l’homme ? Quelle signification sommes-nous donc certains d’avoir donné à la vie en nous pour déclarer stupides tous autres comportements que nos gestes ? Sains doute l’animal ne sait-il pas résoudre tous les problèmes que nous lui posons, mais c’est parce que ce sont les nôtres et non les siens. L’homme ferait-il mieux que l’oiseau son nid, mieux que l’araignée sa toile ? Et à bien regarder, la pensée humaine manifeste-t-elle dans ses inventions une telle indépendance à l’égard des sommations du besoin et des pressions du milieu qu’elle légitime, visant les vivants infra-humains, une ironie tempérée de pitié ? N’est-ce pas un spécialiste des problèmes de technologie qui écrit : « On n’a jamais rencontré un outil créé de toutes pièces pour un usage à trouver sur des matières? à découvrir [1] » ? Et nous demandons qu’on veuille réfléchir sur ceci : la religion et l’art ne sont pas des ruptures d’avec la simple vie moins expressément humaines que ne l’est la science ; or quel esprit sincèrement religieux, quel artiste authentiquement créateur, poursuivant la transfiguration de la vie, a-t-il jamais pris prétexte de son effort? pour déprécier la vie ? Ce que l’homme recherche parce qu’il l’a perdu — ou plus exactement parce qu’il pressent que d’autres êtres que lui le possèdent —, un accord sans problème entre des exigences et des réalités, une expérience dont la jouissance continue qu’on en retirerait garantirait la solidité définitive de son unité, la religion et l’art le lui indiquent, mais la connaissance, tant qu’elle n’accepte pas de se reconnaître partie et non juge, instrument et non commandement, l’en écarte. Et de là suit que tantôt l’homme s’émerveille du vivant [10] et tantôt, se scandalisant d’être un vivant, forge à son propre usage l’idée d’un règne séparé.

Si donc la connaissance est fille de la peur humaine (étonnement, angoisse, etc.), il serait pourtant peu clairvoyant de convertir cette peur en aversion irréductible pour la situation des êtres qui l’éprouvent dans des crises qu’il leur faut bien surmonter aussi longtemps qu’ils vivent. Si la connaissance est fille de la peur c’est pour la domination et l’organisation de l’expérience humaine, pour la liberté de la vie.

Ainsi, à travers la relation de la connaissance à la vie humaine, se dévoile la relation universelle de la connaissance humaine à l’organisation vivante. La vie est formation de formes, la connaissance est analyse des matières informées. Il est normal qu’une analyse ne puisse jamais rendre compte d’une formation et qu’on perde de vue l’originalité des formes quand on n’y voit que des résultats dont on cherche à déterminer les composantes.


Ver online : O Conhecimento da Vida.


[1A. Leroi-Gourhan : Milieu et Techniques, p. 393.