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Ciência com Consciência

Morin (SC:99-101) – o domínio do conceito de sistema

Epistemologia da Tecnologia

quarta-feira 27 de outubro de 2021

«Ciência com Consciência», tradução Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. Ensaio original: "Epistemologia da tecnologia", apresentado no colóquio internacional "Tecnologia e cultura pós-industrial", organizado pelo Centro de estudos do século XX e pela Universidade de Nice, Nice, 12 de maio de 1978, publicado em Media analyses, Cahiers des recherches communicationnelles, I,1981.

tradução

Se tento refletir sobre esse? título, começo? a perguntar-me se, de fato?, não estamos num universo? em que a epistemologia? já está tecnologizada sem saber?, considerando este objeto? abstrato?: a tecnologia?. Primeira? observação?: creio que, do ponto? de vista? epistemológico, é impossível? isolar? a noção? de tecnologia ou techne?, porque bem sabemos que existe uma relação? que vai da ciência? à técnica?, da técnica à indústria, da indústria à sociedade?, da sociedade à ciência etc. E a técnica aparece como um momento? nesse circuito em que a ciência produz a técnica, que produz a indústria, que produz a sociedade industrial; circuito em que há?, efetivamente, um retorno?, e cada termo? retroage sobre o precedente, isto é, a indústria retroage sobre a técnica e a orienta, e a técnica, sobre a ciência, orientando-a também. Portanto, direi que o primeiro problema?, ao longo do nosso discurso?, é evitar isolar o termo techne, ou seja, reificá-lo e, diria eu?, idolatrá-lo: idolatrar a técnica não é só fazê-la objeto de culto?, mas também considerá-la ídolo? a derrubar, à maneira de Moisés ou, ainda, de Polieuto. Então, penso que é no não isolamento? do termo "técnica" que começa esse difícil debate. Em contrapartida, conceber? em termos disjuntores e simplificadores a técnica, que se torna uma espécie? de entidade? que se racha, é, eu diria, o debate do mal?-entendido.

Se não queremos isolar a tecnologia, devemos unir o termo em macroconceito que reagrupe em constelação outros conceitos interdependentes. Já não se podem separar o conceito, a tecnologia, do conceito ciência, do conceito indústria; trata-se de conceito circular, porque, no fundo, todos sabem que um dos maiores problemas da civilização? ocidental está no fato de a sociedade evoluir e se transformar? exatamente no circuito ciência -> tecnologia -> indústria -> ciência ... em que, aliás, tenho a impressão? de que o termo "técnica", techne, polariza alguma coisa?; e o que se polariza em primeiro lugar é a ideia? de manipulação.

De onde vem essa manipulação? A ciência ocidental desenvolveu-se como ciência experimental? e, para suas experiências, teve de desenvolver? poderes de manipulação precisos e seguros, ou seja, técnicas de verificação?. Em outras palavras?, a ciência começou como um processo? em que se manipula para verificar, ou seja, para encontrar o conhecimento? verdadeiro?, objeto ideal? da ciência Mas a introdução do circuito manipular -> verificar -> manipular ... no universo social? provoca, ao contrário, inversão de finalidade?, isto é, cada vez? mais verifica-se para manipular. Em seu universo fechado, o cientista está convencido de que manipula (experimenta) para a verdade?, e manipula não só objetos, energias, elétrons, não só unicelulares, bactérias, mas também ratos, cães, macacos, convencido de que atormenta e tortura pelo ideal absolutamente puro? do conhecimento. Na realidade?, ele alimenta também o circuito sócio-histórico?, em que a experimentação? serve à manipulação. A manipulação dos objetos naturais? foi concebida como emancipação humana pela ideologia? humanista?-racionalista. Até época? recente, o domínio? da natureza identificava-se como o desabrochar do humano?. Verificou-se, entretanto, uma tomada de consciência? nos últimos decênios: o desenvolvimento da técnica não provoca somente processos de emancipação, mas também novos processos de manipulação do homem pelo homem ou dos indivíduos? humanos pelas entidades sociais. Digo "novos" porque se tinham inventado, desde a pré-história, processos muito requintados de sujeição ou subjugação, sobretudo com relação aos animais domesticados. A sujeição significa que o sujeito? sujeitado sempre julga que trabalha para seus próprios fins, desconhecendo que, na realidade, trabalha para os fins daquele que o sujeita. Assim, efetivamente, o carneiro-chefe do rebanho julga que continua a comandar seu rebanho, quando, na realidade, obedece ao pastor e, finalmente, à lógica? do matadouro.

Com a tecnologia, inventamos modos? de manipulação novos e muito sutis, pelos quais a manipulação exercida sobre as coisas? implica a subjugação dos homens pelas técnicas de manipulação. Assim, fazem-se máquinas a serviço do homem e põem-se homens a serviço das máquinas. E, finalmente, vê-se muito bem como o homem é manipulado pela máquina? e para ela, que manipula as coisas a fim? de libertá-lo.

Original

Si j’essaie de réfléchir sur ce titre Épistémologie de la technologie, je me demande tout d’abord si en fait nous ne sommes pas dans un univers où l’épistémologie est déjà technologisée sans qu’elle le sache, en considérant cet objet abstrait : la technologie. Première remarque : je crois que du point de vue épistémologique, il est impossible d’isoler la notion de technologie ou technè, car nous savons bien qu’il y a un lien qui va de la science à la technique, de la technique à l’industrie, de l’industrie à la société, de la société à la science, etc. Et la technique apparaît comme un moment dans ce circuit. Ce circuit où la science produit la technique, laquelle produit l’industrie, laquelle produit la société industrielle, c’est un circuit dans lequel effectivement il y a un retour, et chaque terme rétroagit sur le précédent, c’est-à- dire que l’industrie rétroagit sur la technique et l’oriente? et que la technique rétroagit sur la science et l’oriente. Donc je dirai que le premier problème c’est, au cours de notre discours, d’éviter d’isoler le terme de technè, c’est-à-dire le réifier et je dirai l’idolâtrer : idolâtrer la technique n’est pas seulement en faire? un objet de culte, c’est aussi la considérer comme une idole à abattre, à la façon de Moïse, ou encore de Polyeucte. Alors je pense que c’est dans la non-isolation du terme de technique que commence ce débat difficile. Par? contre, poser en termes disjoncteur et simplificateur la technique qui devient comme une sorte? d’entité que l’on pourfend, c’est, je dirai, le débat à malentendu.

Si nous ne voulons pas isoler la technologie, alors nous devons lier le terme dans un macroconcept qui regroupe en constellation d’autres concepts interdépendants. Vous ne pouvez plus séparer le concept technologie du concept science, du concept industrie, et c’est un concept circulaire puisque dans le fond tout le monde? sait qu’un des problèmes majeurs de la civilisation occidentale, c’est que c’est dans ce circuit
science -> technologie -> industrie -> science.... que la société, dans le fond, évolue et se transforme. Dans ce circuit-là, moi j’ai l’impression que le terme de technique, de technè, polarise quelque chose ; et ce qu’il polarise au premier abord, c’est l’idée de manipulation.

D’où vient cette manipulation? La science occidentale s’est développée comme science expérimentale et, pour les expériences, elle a dû développer des pouvoirs? de manipulation précis et fiables, c’est-à-dire des techniques pour vérifier. Autrement dit?, la science a commencé comme un processus où on manipule pour vérifier, c’est-à-dire pour trouver la connaissance vraie, objet idéal de la science. Mais l’introduction de ce circuit manipuler -> vérifier -> manipuler... dans l’univers social provoque au contraire une inversion de finalité, c’est-à-dire que de plus en plus on vérifie pour manipuler. Dans son univers clos, le scientifique est persuadé qu’il manipule (expérimente) pour la vérité et il manipule non plus seulement des objets, des énergies, des électrons, pas seulement des unicellulaires, des bactéries, mais aussi des rats, des chiens, des singes, persuadé qu’il tourmente et torture dans l’idéal absolument pur de la connaissance. En réalité?, il alimente aussi le circuit socio-historique où l’expérimentation sert à la manipulation. La manipulation des objets naturels a été conçue comme émancipation humaine par l’idéologie humaniste-rationaliste. Jusqu’à une époque récente, la maîtrise de la nature s’identifiait à l’épanouissement de l’humain. Or, une prise de conscience est arrivée ces dernières décennies : le développement de la technique ne provoque pas que des processus d’émancipation, il provoque des processus nouveaux de manipulation de l’homme par l’homme, ou des individus humains par les entités sociales. Je dis « nouveaux » parce qu’on avait inventé dès la préhistoire des processus très raffinés d’assujettissement ou d’asservissement, notamment sur les animaux domestiqués. L’assujettissement signifie que le sujet assujetti croit toujours travailler? pour ses propres fins sans savoir qu’en réalité il travaille pour les fins de celui qui l’assujettit. Ainsi effectivement le chef de troupeau, le bélier, croit continuer à commander le troupeau qu’il dirige, alors qu’en réalité il obéit au berger et finalement à la logique de l’abattoir.

Nous avons inventé avec la technologie des modes de manipulation nouveaux et très subtils, par lesquels la manipulation portant sur les choses nécessite l’asservissement des hommes aux techniques de manipulation. Ainsi, on fait des machines au service de l’homme et l’on met les hommes au service de ces machines. Et on voit très bien finalement comment l’homme est manipulé pour et par la machine qui manipule les choses afin de le libérer.


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