Página inicial > Filosofia da Ciência e da Técnica > Rovelli (OT) – tempo e acontecimento

A Ordem do Tempo

Rovelli (OT) – tempo e acontecimento

quarta-feira 27 de outubro de 2021

ROVELLI  , Carlo. A Ordem do Tempo. Tr. Silvana Cobucci. São Paulo: Objetiva, 2018 (epub)

?, contudo, um aspecto? do tempo? que sobreviveu à desintegração sofrida com a física? dos séculos XIX e XX. Despido dos adornos com os quais o encobrira a teoria? newtoniana, a que tanto estávamos acostumados, resplandece agora? ainda mais claro: o mundo? é mudança?.

Nenhuma das peças que o tempo perdeu (unicidade?, direção, independência?, presente?, continuidade?…) põe em xeque o fato? de que o mundo é uma rede de acontecimentos. Uma coisa? é o tempo com suas muitas determinações, outra é o simples? fato de que as coisas? não “são”: elas acontecem.

A ausência? da quantidade? “tempo” nas equações fundamentais não significa um mundo congelado e imóvel?. Ao contrário, indica um mundo onde a mudança é onipresente?, sem a ordem? do Pai? Tempo: isto é, sem que os incontáveis acontecimentos se disponham necessariamente numa perfeita? ordem — nem ao longo de cada linha do tempo newtoniano, nem segundo as elegantes geometrias einsteinianas. Os eventos do mundo não se organizam em fila como os ingleses. Eles se amontoam em caos? como os italianos.

Mas são eventos, mudam, acontecem. O acontecer é difuso, disperso, desordenado, mas é acontecimento?, não estagnação. Os relógios que andam em velocidades diferentes não definem um único? tempo, mas as posições de seus ponteiros mudam umas em relação? às outras. As equações fundamentais não incluem uma variável tempo, mas incluem variáveis que mudam umas em relação às outras. O tempo, sugeria Aristóteles, é a medida? da mudança; pode-se escolher? diferentes variáveis para medi-lo e nenhuma delas ter todas as características do tempo que conhecemos; mas isso não elimina o fato de que o mundo esteja em constante mudança.

Toda a evolução? da ciência? indica que a melhor gramática? para pensar? o mundo é a da mudança, não a da permanência. Do acontecer, não do ser.

Pode-se pensar o mundo como constituído de coisas. De substância?. De entes. Do que existe. Que permanece. Ou então pensar que o mundo é feito de eventos. De acontecimentos. De processos?. Do que sucede. Que não dura, que está em contínua transformação?. Que não permanece no tempo. A destruição da noção? de tempo na física fundamental é a derrocada da primeira? dessas duas? perspectivas, não da segunda. É a realização da unipresença da impermanência, não da estaticidade num tempo imóvel.

Pensar o mundo como um conjunto de eventos, de processos nos possibilita apreendê-lo, compreendê-lo, descrevê-lo melhor. É a única maneira compatível com a relatividade?. O mundo não é um conjunto de coisas, é um conjunto de eventos.

A diferença? entre coisas e eventos é que as coisas permanecem no tempo. Os eventos têm duração? limitada. Um protótipo? de uma “coisa” é uma pedra?: podemos perguntar onde ela estará amanhã. Um beijo, por sua vez?, é um “evento?”. Não faz sentido? perguntar para onde terá ido o beijo amanhã. O mundo é feito de redes de beijos, não de pedras.

As unidades simples segundo as quais devemos compreender? o mundo não se encontram num ponto? qualquer do espaço?. Estão — se estiverem — em um onde, mas também em um quando. São espacialmente, mas também temporalmente limitadas: são eventos.

De fato, se observarmos bem, até as “coisas” que mais parecem “coisas” no fundo não passam de longos eventos. À luz? do que aprendemos com a química, a física, a mineralogia, a geologia e a psicologia?, a pedra mais sólida é na verdade? uma complexa vibração de campos? quânticos; uma interação? momentânea de forças; um processo que por um breve instante? consegue se manter em equilíbrio, semelhante? a si mesmo?, antes de se desagregar outra vez em poeira; um capítulo efêmero na história? das interações entre os elementos? do planeta?; um vestígio de uma humanidade? neolítica; uma arma dos meninos da rua Paulo; um exemplo? num livro sobre o tempo; uma metáfora? para uma ontologia?; uma porção de uma divisão? do mundo que depende mais das estruturas perceptivas do nosso corpo? que do objeto? da percepção?; e assim por diante, um nó intrincado? daquele jogo? de espelhos cósmico? que é a realidade?. O mundo não é feito mais de pedras que de sons fugazes e de ondas que se formam no mar.

Por outro lado, se o mundo fosse feito de coisas, que coisas seriam essas? Os átomos, que descobrimos serem compostos de partículas menores? As partículas elementares, que vimos que não passam de excitações efêmeras de um campo? Os campos quânticos, que descobrimos se tratar de pouco mais que códigos de uma linguagem? para se referir a interações e eventos? Não conseguimos pensar o mundo físico? como feito de coisas, de entes. Não funciona.

O que funciona é pensar o mundo como uma rede de eventos. Alguns mais simples e outros mais complexos que podem ser decompostos em combinações de eventos ainda mais simples. Alguns exemplos: uma guerra? não é uma coisa, é um conjunto de eventos. Um temporal? não é uma coisa, é um conjunto de acontecimentos. Uma nuvem acima de uma montanha não é uma coisa: é a condensação da umidade do ar? à medida que o vento sobe a montanha. Uma onda não é uma coisa, é uma movimentação de água?, a água que dá forma? a ela é sempre diferente. Uma família? não é uma coisa, é um conjunto de relações, acontecimentos, sentimentos?. E um ser humano?? Com certeza? não é uma coisa: é um processo complexo, em que — como na nuvem acima da montanha — entram e saem ar, alimento, informações, luz, palavras?, e assim por diante… Um nó de nós em uma rede de relações sociais, de processos químicos, de emoções trocadas com seus semelhantes.

Por muito tempo buscamos compreender o mundo como uma substância primária qualquer. Talvez mais que qualquer outra disciplina?, a física analisou essa substância. Mas quanto mais o estudamos, menos o mundo parece compreensível em relação ao que é. Parece ser muito mais compreensível como relações entre acontecimentos.


Ver online : L’ordine del tempo (original italiano)