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Onde aterrar?

Latour: Onde aterrar? (1)

quarta-feira 27 de outubro de 2021

LATOUR  , Bruno. Onde aterrar?. Tr. Marcela Vieira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020 (ebook)

Este ensaio tem por objetivo? aproveitar a ocasião? da eleição de Donald Trump, em 8 de novembro de 2016, para aproximar três fenômenos que os comentaristas políticos já identificaram, ainda que nem sempre notem a relação? entre os três, deixando por isso de perceber? a imensa energia? política? que poderia ser extraída dessa aproximação.

No início? dos anos 1990, logo após a “vitória contra o comunismo” simbolizada pela queda? do muro de Berlim, no exato? momento? em que alguns pensaram que a história? havia concluído seu curso, [1] uma outra história se iniciava sub-repticiamente.

Ela se caracteriza, antes de mais nada?, por aquilo que chamamos de “desregulamentação”, e que confere um sentido? cada vez? mais pejorativo à palavra? “globalização”. Mas ela marca também o início, de forma? simultânea em todo o mundo?, de uma violenta? explosão das desigualdades. Por fim? – e isso não é destacado com frequência –, é nessa época? que se inicia a sistemática? operação? para a negação? da existência? da mutação? climática [2]. (“Clima”, aqui, é tomado no sentido geral? das relações dos humanos com suas condições materiais? de existência.)

Este ensaio propõe abordar esses três fenômenos como sintomas de uma mesma situação? histórica: tudo ocorre como se uma parte? importante das classes dirigentes (que hoje, de modo? um tanto vago?, chamamos de “elites”) tivesse chegado à conclusão de que não há? mais lugar suficiente na terra? [3] para elas e para o resto de seus habitantes.

Em consequência?, decidiram que era inútil fingir que a história continuaria conduzindo a um horizonte? comum?, em que “todos os homens” poderiam prosperar igualmente. Desde os anos 1980, as classes dirigentes não pretendem mais liderar, mas se refugiar fora? do mundo. Dessa fuga?, da qual Donald Trump é apenas um símbolo? entre outros, somos nós que sofremos todas a consequências. A ausência? de um mundo comum a compartilhar está nos enlouquecendo.

A hipótese? é que não entenderemos nada dos posicionamentos políticos dos últimos cinquenta anos, se não reservarmos um lugar central à questão? do clima e à sua denegação. Sem a consciência? de que entramos em um Novo Regime? Climático, [4] não podemos compreender? nem a explosão das desigualdades, nem a amplitude? das desregulamentações, nem a crítica? da globalização e nem, sobretudo, o desejo? desesperado de regressar às velhas proteções do Estado? nacional – o que se costuma chamar, um tanto erroneamente, de “ascensão? do populismo”.

Para resistir a essa perda? de orientação? comum, será preciso aterrar6 em algum lugar. Daí a importância de saber? como se orientar, e para isso traçar uma espécie? de mapa das posições ditadas por essa nova paisagem na qual são redefinidos não apenas os afetos? da vida? pública?, mas também as suas bases.

As reflexões que se seguem, escritas em estilo? propositalmente brusco, buscam explorar a possibilidade? de canalizar certas emoções políticas na direção de novos objetos?.

O autor, não sendo? nenhuma autoridade? em ciências? políticas, só pode oferecer aos leitores a oportunidade de refutar essa hipótese e procurar outras melhores.


Ver online : Onde aterrar?


[1Francis Fukuyama, The End of History and the Last Man, Nova York: Free Press, 1992.

[2No primeiro capítulo do livro Face à Gaia (Diante de Gaia), Bruno Latour justifica sua preferência pela expressão “mutação climática” argumentando que tratar a situação atual como uma crise (como na expressão “crise ecológica”) seria uma tentativa de nos convencermos de que o problema vai passar, de que “a crise em breve será coisa do passado”. “Quem dera fosse apenas uma crise! […] Segundo os especialistas, deveríamos falar mais propriamente de “mutação”: estávamos acostumados a um mundo; agora estamos passando, transmutando em um novo” (2015, p. 16). (N.R.T.)

[3O texto segue a convenção segundo a qual “terra” (com minúscula) corresponde ao quadro tradicional da ação humana (os humanos na natureza), enquanto “Terra”, com maiúscula, corresponde a uma potência de agir na qual reconhecemos, ainda que de maneira não plenamente instituída, uma espécie de função política.

[4A expressão “Novo Regime Climático” é apresentada em Bruno Latour em Face à Gaïa. Huit conférences sur le Nouveau Régime Climatique, Les Empêcheurs de penser en rond, Paris: La Découverte, 2015. Edição brasileira Diante de Gaia, São Paulo: Ubu, 2020.