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Filosofia da Ciência

Fagot-Largeault (FC) – Bruno Latour

quarta-feira 27 de outubro de 2021

Excertos de Daniel Andler, Anne Fagot-Largeault e Bertrand Saint-Sernin, "Filosofia da Ciência"

No prefácio acrescentado em 1995 à edição de bolso de seu livro La science? en action? (publicado primeiramente em inglês, 1987), Bruno Latour   se bate contra uma concepção redutora da sociologia? da ciência, ao mesmo? tempo? que admite que os próprios sociólogos? da ciência, ao não conseguirem se pôr de acordo? sobre o objeto? de sua disciplina?) se prestam às críticas. A sua argumentação, em um tom defensivo-ofensivo, não falta? interesse?.

A sociologia da ciência, em primeiro? lugar, não é nem uma sociologia dos especialistas - dos meios científicos, dos costumes? de laboratórios nem uma análise das escórias da ciência - teorias? falsas, experiências fracassadas, ideologias? ultrapassadas -: "[...] é a verdade? que interessa antes de tudo à sociologia da ciência, as teorias vitoriosas, os fatos? comprovados" (SA, p. 14).

Em segundo lugar, a sociologia da ciência não reduz a verdade ao consenso das opiniões - assim como tendem a fazê-lo historiadores da ciência, como Kuhn  , ou cientistas? que se tornaram filósofos, como Michael Polanyi -; ela se interessa pelas práticas reais que ocorrem na comunidade? científica - notemos que, na passagem citada, "realismo?" não deve ser entendido no sentido? filosófico (como na oposição realismo/idealismo?), mas no sentido comum:

"E, ao contrário, de realismo que é preciso falar? para dar conta? da multiplicidade? dos objetos, dos lugares?, dos instrumentos, das situações, dos acontecimentos cujo conjunto contribui para a manifestação da verdade. Sim, de fato, realista em comparação com a visão irrealista que davam da prática científica aqueles que dela falavam de sua poltrona." (SA, p. 15)

Em terceiro lugar, se a sociologia da ciência é acusada de relativismo?, melhor ainda! Relativizar é a melhor vacina contra o dogmatismo?, o conformismo, o etnocentrismo. Notemos que Latour   fala? aqui (sem dizê-lo) de relativismo brando: ele sabe muito bem que um sociólogo da ciência não poderia professar um relativismo epistemológico forte sem cair na contradição cética e arruinar sua própria posição - se todas as verdades se equivalem, a do sociólogo não vale mais do que as outras.

Enfim, argumenta Latour  , os epistemólogos suportam mal? que os sociólogos descrevam a ciência como uma prática social?: mas dessa particularidade os sociólogos podem se orgulhar, pois é verdade. A ciência é uma prática coletiva. Não há pesquisa? solitária:

"Sempre tentam se livrar da sociologia da ciência afirmando que ela ignora a "dimensão cognitiva". Ora, pelo interesse que ela tem pelos objetos e pela construção da verdade, ela se liga primeiramente ao trabalho intelectual?, mas o redefine de tal modo? que os epistemólogos não reconhecem mais nele sua cria. No lugar das ideias?, dos pensamentos e dos espíritos? científicos, encontramos práticas, corpos?, lugares, grupos, instrumentos, objetos, nós, redes. Como as ciências cognitivas, com as quais ela encontra inúmeros pontos comuns, a sociologia da ciência transformou o pensamento? em uma prática coletiva, distribuída e situada." (SA, p. 14)

E Latour   conclui: "A sociedade? faz bem às ciências"...

"[...] acrescentar o termo? social ao termo científico não é um pecado nem um crime nem uma queda?. E uma elevação. Uma ciência se porta tanto melhor, ela é tanto mais sólida, rigorosa, objetiva, ver?ídica, quanto mais se une, quanto mais intimamente se liga ao resto do coletivo. Somente essa inversão de perspectiva? permite verdadeiramente fazer? justiça à sociologia da ciência que se vem desenvolvendo há vinte anos." (SA, p. 17)

A respeito? da constatação de que a ciência é uma prática social, estaremos aqui inteiramente de acordo? com o sociólogo da ciência. Mas só podemos nos declarar insatisfeitos com a facilidade com que ele pensa poder distinguir?, como sociólogo observador? do trabalho? científico, entre trabalho bom e ruim, fato comprovado e fato duvidoso, teoria conjuntural e teoria validada, sobretudo após se ter? convindo que a comunidade dos sociólogos da ciência tem muitas dificuldades para acordar-se sobre seus critérios de cientificidade. A continuação deste capítulo deixa o ponto? de vista descritivo? para abordar o problema? da validação dos critérios.


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