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O que é o Virtual?

Lévy (V) – o atual e o virtual

terça-feira 26 de outubro de 2021

Excertos de Pierre Lévy, O que é o Virtual?

Consideremos, para começar?, a oposição fácil e enganosa entre real? e virtual?. No uso? corrente, a palavra? virtual é empregada com frequência para significar a pura e simples? ausência de exist?ência, a "realidade?" supondo uma efetuação material?, uma presença tangível. O real seria da ordem? do "tenho", enquanto o virtual seria da ordem do "ter?ás", ou da ilusão, o que permite geralmente o uso de uma ironia? fácil para evocar as diversas formas? de virtualização. Como veremos mais adiante, essa abordagem possui uma parte? de verdade? interessante?, mas é evidentemente demasiado grosseira para fundar uma teoria? geral?.

A palavra? virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez? de virtus, força, potência. Na filosofia? escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato?. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal?. A árvore está virtualmente presente? na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade? e atualidade são apenas duas? maneiras de ser diferentes.

Aqui?, cabe introduzir uma distinção capital? entre possível e virtual que Gilles Deleuze   trouxe à luz? em “Différence et répétition”. O possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada? mude em sua determinação nem em sua natureza?. E um real fantasmático, latente?. O possível é exatamente como o real: só lhe falta? a existência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido? pleno do termo?, pois a criação implica também a produção inovadora de uma ideia? ou de uma forma. A diferença entre possível e real é, portanto, puramente lógica.

Já o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo? problem?ático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento?, um objeto? ou uma entidade? qualquer, e que chama um processo? de resolução: a atualização. Esse? complexo problemático pertence à entidade considerada e constitui inclusive uma de suas dimensões maiores. O problema da semente, por exemplo?, é fazer? brotar uma árvore.

A semente "é" esse problema, mesmo? que não seja somente isso. Isto significa que ela "conhece" exatamente a forma da árvore que expandirá finalmente sua folhagem acima dela. A partir das coerções que lhe são próprias, dever?á inventá-la, coproduzi-la com as circunstâncias que encontrar.

Por um lado, a entidade carrega e produz suas virtualidades: um acontecimento, por exemplo, reorganiza uma problemática anterior e é suscetível de receber? interpretações variadas. Por outro lado, o virtual constitui a entidade: as virtualidades inerentes a um ser, sua problemática, o nó de tensões, de coerções e de projetos que o animam, as questões que o movem, são uma parte essencial? de sua determinação.


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