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A Galáxia de Gutenberg

McLuhan (GG) – Galáxia de Gutenberg - Prólogo

A formação do homem tipográfico

terça-feira 26 de outubro de 2021

MCLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg. A formação do homem tipográfico. Tr. de Leônidas Gontijo de Carvalho e Anísio Teixeira. São Paulo: EDUSP, 1972

tradução

A busca irreprimível por um “encerramento?”, por uma “completação”, ou por um novo equilíbrio processa-se tanto pela supressão como pela extensão? do próprio? sentido? ou função? humanos. Como A Galáxia de Gutenberg é uma série? de observações? históricas? das novas completações ou fusões culturais? resultantes das “perturbações”, primeiro? da alfabetização e depois da palavra? impressa, a afirmação? seguinte de um antropólogo poderá, neste ponto?, auxiliar o leitor:

O homem? hoje em dia desenvolveu para tudo que costumava fazer? com o próprio corpo?, extensões ou prolongamentos desse mesmo corpo. A evolução? de suas armas começa pelos dentes e punhos e termina com a bomba atômica. Indumentária e casas são extensões dos mecanismos biológicos de controle da temperatura do corpo. A mobília substitui o acocorar-se e sentar-se no chão. Instrumentos mecânicos, lentes, televisão, telefones e livros que levam a voz através do tempo? e do espaço? constituem exemplos? de extensões materiais?. Dinheiro é meio? de estender os benefícios e de armazenar trabalho?. Nosso sistema? de transportes faz agora? o que costumávamos fazer com os pés e as costas. De fato?, podemos tratar de todas as coisas? materiais feitas pelo homem como extensões ou prolongamentos do que ele fazia com o corpo ou com alguma parte? especializada do corpo [1].

Essa exteriorização? ou expressão? de nossos sentidos, que é a linguagem? e a fala?, é um instrumento? — o instrumento que “tornou possível? ao homem acumular experiência? e conhecimento? de forma? a ser fácil a sua transmissão e o máximo uso? possível” [2].

Linguagem é metáfora? no sentido que não só armazena como transporta ou traduz a experiência de um modo? para outro. Dinheiro é metáfora no sentido de que armazena habilidade e trabalho e também traduz uma habilidade em outra. Mas a base? ou princípio? de toda essa troca e tradução?, ou metáfora, encontra-se em nosso poder racional? de traduzir todos os sentidos um no outro. E isto fazemos em cada instante? de nossa vida?. Pelas extensões ou prolongamentos, dos nossos sentidos, seja a roda, o alfabeto? ou o rádio, tivemos que pagar certo preço; e o preço está em que tais extensões maciças dos sentidos constituem sistemas fechados. Nossos sentidos corpóreos ou privados não são sistemas fechados, mas se traduzem infindavelmente um no outro nessa experiência que denominamos consciência?. Mas, nossas extensões dos sentidos — instrumentos e tecnologias — foram, através dos séculos, sistemas fechados, incapazes de se entrelaçarem numa ação? recíproca ou de produzirem um estado? de consciência coletivo. Agora na idade da eletricidade, a própria instantaneidade da coexistência? entre nossos instrumentos tecnológicos deu lugar a crise sem precedente na história humana.

As extensões de nossas faculdades? e sentidos passaram a constituir um campo? único? de experiência que exige se fazer coletivamente consciente?. Nossas tecnologias, à semelhança? de nossos sentidos particulares, exigem agora um intercurso e mútuo relacionamento que torne possível sua coexistência racional. Enquanto nossas tecnologias foram tão lentas quanto a roda ou o alfabeto ou o dinheiro, o fato de se terem constituído sistemas separados e fechados foi, social? e psiquicamente, suportável.

Já isto não se pode dar agora, quando a visão?, o som e o movimento? são em toda extensão simultâneos e globais. Uma proporção de adequado? intercurso entre essas extensões de nossas funções humanas é agora tão necessária coletivamente quanto sempre foi para nossa racionalidade particular? e pessoal o intercurso dos sentidos para nosso senso individual? ou “espírito?”, como outrora? o denominávamos.

Original

The inevitable drive for “closure,” “completion,” or equilibrium occurs both with the suppression and the extension of human sense or function. Since The Gutenberg Galaxy is a series of historical observations of the new cultural completions ensuing upon the “disturbances,” first of literacy, and then of printing, the statement? of an anthropologist may assist the reader at this point:

Today man has developed extensions for practically everything? he used to do with his body. The evolution of weapons begins with the teeth and the fist and ends with the atom bomb. Clothes? and houses are extensions of man’s biological temperature-control mechanisms. Furniture takes the place? of squatting and sitting on the ground. Power tools, glasses, TV, telephones, and books which carry the voice across both time and space are examples of material extensions. Money is a way of extending and storing labor. Our transportation networks now do what we used to do with our feet and backs. In fact, all man-made material things can be treated as extensions of what man once did with his body or some specialized part of his body.

That outering or uttering of sense which is language and speech is a tool which “made it possible for man to accumulate experience and knowledge in a form that made easy transmission and maximum use possible.”

Language is metaphor in the sense that it not only stores but translates experience from one mode into another. Money is metaphor in the sense that it stores skill and labour and also translates one skill into another. But the principle of exchange and translation, or metaphor, is in our rational power to translate all of our senses into one another. This we do every instant of our lives. But the price we pay for special technological tools, whether the wheel or the alphabet or radio, is that these massive extensions of sense constitute closed systems. Our private senses are not closed systems but are endlessly translated into each other in that experience which we call con-sciousness. Our extended senses, tools, technologies, through the ages, have been closed systems incapable of interplay or collective awareness. Now, in the electric age, the very instantaneous nature? of co-existence? among our technological instruments has created a crisis quite new in human history. Our extended faculties and senses now constitute a single field of experience which demands that they become collectively conscious. Our technologies, like our private senses, now demand an interplay and ratio that makes rational co-existence possible. As long as our technologies were as slow as the wheel or the alphabet or money, the fact that they were separate, closed systems was socially and psychically supportable. This is not true now when sight and sound and movement are simultaneous and global in extent. A ratio of interplay among these extensions of our human functions is now as necessary? collectively as it has always been for our private and personal rationality in terms of our private senses or “wits,” as they were once called.


Ver online : A Galáxia de Gutenberg


[1Edward T. Hall, The Silent Lunguage, pág. 79.

[2Leslie A. White, The Science of Culture, pág. 240.