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Antropologia estrutural 2

Lévi-Strauss (AE2) – eu sou?

Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem

segunda-feira 25 de outubro de 2021

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural dois. Tr. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: COSAC NAIFY, 2013 (epub)

É a Rousseau   que devemos a descoberta? desse princípio, o único em que podem se fundar as ciências humanas, mas que permaneceria inacessível e incompreensível enquanto a filosofia?, partindo do Cogito?, seguisse prisioneira das pretensas provas do eu?, sem poder almejar fundar uma física se não renunciasse a fundar uma sociologia?, e mesmo? uma biologia?. Descartes   crê passar diretamente da interioridade? de um homem? para a exterioridade? do mundo?, sem ver? que entre esses dois? extremos estão as sociedades, as civilizações, ou seja, mundos de homens. Rousseau  , que com tanta eloquência fala? de si mesmo na terceira pessoa? (chegando inclusive, nos Diálogos?, a desdobrá-la), antecipando assim a famosa fórmula “eu é um outro” (que a experiência etnográfica deve verificar, antes de proceder à demonstração que lhe cabe, de que o outro? é um eu), afirma-se como grande inventor dessa objetivação radical, quando define? seu objetivo?. Este, indica ele na primeira? caminhada, é “perceber? as modificações de minha alma? e suas sucessões”; e prossegue: “Farei comigo, em certo sentido?, as operações que os físicos fazem com o ar? para determinar seu estado?, dia a dia”. O que Rousseau   expressa, portanto – verdade? surpreendente, ainda que a psicologia e a etnologia? a tenha tornado mais familiar? –, é que existe um “ele” que se pensa em mim mesmo? e que me faz duvidar? de saída se sou eu mesmo quem pensa. Descartes   achava que podia responder ao “que sei eu?” de Montaigne (de onde isso tudo veio) afirmando que sei quem eu sou?, já que penso, ao que retorque Rousseau   um “que sou eu?”. Pergunta? sem saída óbvia, na medida? em que supõe que outra, mais essencial? – “eu sou?” – tenha sido resolvida, quando a experiência íntima fornece apenas esse? “ele” que Rousseau   descobriu e tratou de explorar com lucidez.

Cumpre notar que nem mesmo a intenção conciliadora do Vigário saboia no consegue dissimular que, para Rousseau  , a noção de identidade? pessoal é obtida por inferência, e permanece marcada de ambiguidade?: “Eu existo [...] essa é a primeira verdade que me atinge e com a qual sou obrigado a aquiescer? [itálico nosso] [...] Tenho eu um sentimento? próprio de minha exist?ência, ou só a sinto por minhas sensações? Eis minha primeira dúvida?, por enquanto impossível de resolver”. Mas é no ensinamento propriamente antropológico de Rousseau   – o do Discurso? sobre a origem? da desigualdade – que se descobre o fundamento? da dúvida, que reside numa concepção do homem que põe o outro antes de si e numa concepção da humanidade? que, antes dos homens, põe a vida.

Pois só é possível crer que com o surgimento da sociedade? tenha-se produzido uma tripla passagem, da natureza? à cultura?, do sentimento ao conhecimento?, da animalidade à humanidade – demonstração que constitui o objeto? do Discurso –, atribuindo ao homem, já em sua condição primitiva, uma faculdade? essencial que o impila a superar? esses três obstáculos; que possua, por conseguinte, originária e imediatamente, atributos contraditórios, a não ser, justamente, nela; que seja ao mesmo tempo? natural e cultural, afetiva e racional?, animal? e humana; e que, com a única condição de que se torne consciente?, possa se converter de um plano? para o outro.

Tal faculdade, Rousseau   não se cansou de repetir, é a piedade?, decorrente da identificação a um outrem que não um parente?, um amigo? ou um compatriota, mas a um homem qualquer porque é homem, ou bem mais que isso: a um ser vivente? qualquer, porque vive. O homem começa, pois, por sentir-se idêntico a todos os seus semelhantes, e jamais esquecer?á essa experiência primitiva, nem mesmo quando o crescimento demográfico (que, no pensamento? antropológico de Rousseau  , desempenha o papel? de evento? contingente?, que poderia não ter? ocorrido?, mas que, temos de admitir, ocorreu, já que a sociedade existe) o tiver obrigado a diversificar seus modos? de vida para se adaptar a diferentes ambientes? para os quais o aumento? da população irá obrigá-lo a se deslocar, e a saber? distinguir? a si mesmo, mas somente na medida em que um penoso aprendizado? o tiver ensinado a distinguir os outros – os animais segundo a espécie, a humanidade e a animalidade, meu eu dos outros eus. A apreensão global dos homens e dos animais como seres sensíveis, em que consiste a identificação, precede a consciência das oposições, primeiro entre as propriedades comuns, e só depois entre humano e não humano.

É mesmo o fim? do Cogito que Rousseau   proclama, aventando essa solução audaciosa. Pois até então tratava-se, sobretudo, de não colocar? o homem em questão, isto é, de garantir, com o humanismo?, uma “transcendência redobrada”. Rousseau   pode permanecer teísta – era? afinal o mínimo que exigiam sua educação e sua época, mas arruína definitivamente a tentativa, recolocando o homem em questão.

Se essa interpretação estiver correta, se, pelas vias da antropologia?, Rousseau   abala tanto quanto cremos a tradição filosófica, podemos compreender? melhor a unidade? profunda de uma obra? de múltiplas formas? e o lugar verdadeiramente essencial de preocupações para ele imperiosas, embora fossem à primeira vista alheias ao labor? do filósofo e do escritor; quero dizer, a linguística, a música e a botânica.

Tal como Rousseau   o descreve no Ensaio sobre a origem das línguas, o movimento? da linguagem? reproduz, a seu modo e em seu plano, o da humanidade. O primeiro estágio é o da identificação, aqui entre o sentido próprio e o sentido figurado; o nome? verdadeiro? se desprende progressivamente da metáfora, que confunde cada ser com os demais. Quanto à música, nenhuma forma de expressão parece mais apta a recusar a oposição cartesiana? entre material? e espiritual, alma e corpo?. A música é um sistema? abstrato? de oposições e relações, alterações dos modos da extensão, cuja operação acarreta duas consequências: primeiro, a inversão da relação entre? o eu e o outro, uma vez que, quando ouço música, eu me escuto através dela, e, por uma inversão da relação entre alma e corpo, a música vive em mim. “Cadeia de relações e combinações” (Confissões, livro XII), mas que a natureza nos apresenta encarnadas em “objetos sensíveis” (Devaneios, Sétima caminhada), é nesses termos que, finalmente, Rousseau   define a botânica, confirmando que, por esse viés, aspira também atingir a união entre o sensível e o inteligível, porque ela constitui para o homem um estado primeiro, que acompanha o despertar da consciência; e que não deveria sobreviver-lhe, exceto em raras e preciosas ocasiões.

O pensamento de Rousseau   brota portanto a partir de um duplo princípio, o da identificação a outrem e até ao mais “outrem” de todos os outrens, até um animal; e o da recusa da identificação a si mesmo, ou seja, a recusa de tudo o que pode tornar o eu “aceitável”. Essas duas atitudes se completam, e a segunda inclusive funda a primeira: na verdade, eu não sou “eu”, e sim o mais fraco, o mais humilde, dos “outros”. É essa a descoberta das Confissões...

O que escreve o etnólogo senão confissões? Primeiro em seu próprio nome, como mostrei, pois é esse o móvel de sua vocação e de sua obra. E, nessa mesma obra, em nome da sociedade, que por intermédio do etnólogo seu emissário, escolhe outras sociedades, outras civilizações, e justamente aquelas que lhe parecem ser as mais fracas e humildes, mas para verificar a que ponto? ela mesma é “inaceitável”: forma de modo algum privilegiada, apenas uma dentre as sociedades “outras” que se sucederam ao longo dos milênios, ou cuja precária diversidade? atesta ainda que, também em seu ser coletivo, o homem deve se reconhecer como um “ele” antes de ousar pretender ser um “eu”.


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