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O Gesto e a Palavra I

Leroi-Gourhan (GP1:209-211) – pensamento dilatado e pensamento restringido

domingo 24 de outubro de 2021

A. Leroi-Gourhan  , O Gesto e a Palavra, t. I, Edições 70, 1981, pp. 209, 210, 211.

No entanto, afirmar que «os homens sempre pensaram bem» não implica que os conteúdos, ou seja, os estilos de cultura? e de pensamento? tenham sido idênticos. O próprio? Lévi-Strauss faz a distinção? entre «sociedades frias» e «sociedades quentes», em que a evolução? técnica? se acelera (cf. Tristes Trópicos). Por outro lado, o paleontó-entre «sociedades frias» e «sociedades quentes» em que a evolução técnica se acelera (cf. Tristes Trópicos). Por outro lado, o paleontólogo distingue o pensamento dilatado das sociedades sem escrita?, onde a ferramenta — incluindo a ferramenta linguística? — tem uma pluralidade? de funções? dentro da sua própria rudimentaridade. No extremo? oposto, as sociedades que possuem uma escrita, uma sintaxe?, um dicionário, códigos de informação, «restringem» o campo? epistemológico e fecham-se à expansão imaginária? e poética.

A passagem do pensamento mitológico ao racional? fez-se progressivamente e num sincronismo completo com a evolução do agrupamento urbano e da metalurgia. Podemos situar aproximadamente em 3500 a. C. (dois? mil anos antes da aparição das primeiras aldeias) os germes mesopotâmicos iniciais de escrita.

O pensamento da Antiguidade pré-alfabética é resplandecente como o corpo? do ouriço ou da estrela?-do-mar, começa a adquirir a locomoção rectilínea nas escritas arcaicas cujos meios de expressão? continuam, salvo para a congratibilidade, ainda muito difusos. O enclausurar do mundo? na teia dos símbolos? «exactos» está apenas esboçado e o pensamento atinge, no Mediterrâneo ou na China de há? mil anos antes da nossa era?, o ponto? culminante da sua riqueza? no manejo do seu pensamento mitológico. O mundo é então o da calote celeste ligada à Terra? por uma trama de correspondências ilimitadas, idade de ouro? de um conhecimento? pré-científico que deixou como que uma recordação? nostálgica aos tempos actuais.

O movimento? determinado pela sedentarização agrícola contribuiu, como vimos, para uma acção? cada vez? mais restrita do indivíduo? sobre o mundo material?. Este triunfo progressivo do utensílio? é inseparável do da linguagem?. Trata-se, na realidade?, de um fenómeno?, assim como a técnica e a sociedade?, num mesmo plano?, são um mesmo assunto. A linguagem encontra-se no mesmo plano que as técnicas a partir do momento? em que a escrita passa a ser apenas um meio? de registar foneticamente o encadeamento do discurso? e a sua eficácia técnica é proporcional à eliminação do halo de imagens? associadas que caracteriza as formas? arcaicas de escrita.

É, portanto, no sentido? dum restringimento das imagens para uma rigorosa linearização dos símbolos que a escrita tende. Possuindo o alfabeto?, o pensamento clássico? e o moderno? possui mais do que um meio de conservar na .memória o resultado exacto das suas aquisições? progressivas nos diferentes domínios da sua actividade; dispõe de um utensílio pelo qual o símbolo pensado se submete à mesma notação? na palavra? e no gesto. Esta unificação do processo? expressivo implica a subordinação? do grafismo à linguagem sonora, reduz o desperdício de símbolos que é ainda característico? da escrita chinesa e corresponde ao mesmo processo seguido pelas técnicas no decurso da sua evolução.

Corresponde também a um empobrecimento dos meios de expressão irracionais. Se considerarmos que esta via seguida pela humanidade? até à época actual? é perfeitamente favorável ao seu futuro?, isto é, se confiarmos inteiramente nas consequências da fixação agrícola, esta perda? do pensamento simbólico multidimensional deve ser considerada apenas como um melhoramento na evolução dos equídeos, quando os seus três dedos se reduziram a um único?. Se, pelo contrário, considerarmos que o homem? realizaria a sua plenitude? num equilíbrio em que manteria contacto com a totalidade? do real?, poderíamos interrogar?-nos se o óptimo não é rapidamente ultrapassado a partir do momento em que o utilitarismo? técnico encontra, numa escrita completamente canalizada, os meios para um desenvolvimento? ilimitado?.


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