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O Gesto e a Palavra

Leroi-Gourhan (GP2:261-262) – para além da escrita

Os perigos e as promessas da linguagem audiovisual

domingo 24 de outubro de 2021

A. Leroi-Gourhan  , O Gesto e a Palavra, t. I, Edições 70, 1981, pp. 211, 212, 213; t. II, Albin Michel, 1964, pp. 261-262.

Curiosamente, a sociologia? da linguagem?, fazendo eco? com o filósofo?, mostra-nos um desaparecimento progressivo da escrita? nas nossas sociedades dotadas de enormes meios «audiovisuais». Para o sociólogo, tal como para o filósofo, a linguagem literária foi um simples? episódio na evolução? das culturas? humanas. Mas, se a substituição? da escrita pela imagem? prefabricada, visual ou sonora, favorece a rapidez da informação científica, em contrapartida, conduz a massa? dos homens a uma temível e total passividade.

O total enfeudamento da actividade mental ao desenvolvimento? linear da escrita representa para o homo sapiens uma promessa só realizável por uma minoria de aptidões específicas; pois se, para a maioria dos homens, á leitura de inscrições curtas e de carácter? prático? é algo de normal?, já a aplicação do pensamento? ao longo de todo um texto?, inclusive de um texto concreto?, exige uma reconstituição imagística que continua a ser-lhe absolutamente esgotante. Apesar do intenso exercício desenvolvido por várias gerações, a reconquista do equilíbrio paleontológico veio rapidamente a incentivar-se, pelo que o mito?-grama, a partir do século XIX, e sob a forma? de ilustração?, voltou a assenhorear-se das leituras à medida? que a alfabetização atingia as classes populares: assim, no decurso do século XIX, a banda desenhada introduziu-se na imagística, a qual começou por ser puramente mitográfica nas suas grandes composições, para vir depois a ser compartimentada em pequenos quadros contíguos ao texto. A linearização do desenho de ilustração segue-se à difusão? da leitura entre as grandes massas, vindo a atingir o seu apogeu na actual? leitura popular. A rádio e a televisão, juntamente com o cinema, acabaram por completar este retorno? à literatura oral? e à informação visual sem qualquer passagem 1 pelas formas imaginárias.

Assaz curiosamente, podemos interrogar?-nos sobre se as técnicas? audiovisuais vêm realmente a alterar o comportamento? tradicional? dos antropídeos. E também podemos perguntar-nos qual será o destino? da escrita num futuro? mais ou menos longínquo. É certo que ela constituiu, e isto durante vários milénios, independentemente do seu papel? de conservador da memória? colectiva em função? do seu desenvolvimento unidimensional, o instrumento? de análise? de onde o pensamento filosófico e científico veio a emergir. A conservação do pensamento pode agora? ser concebida por vias totalmente diferentes da dos livros, os quais já só por pouco tempo? conservarão ainda a vantagem da sua rápida manipulação. Uma vasta «magnetoteca» de selecção electrónica fornecerá num futuro próximo? a informação pré-seleccionada e instantaneamente formulada. A leitura conservará ainda por vários séculos a sua importância, não obstante uma sensível? regressão? relativamente à maioria dos homens, mas a escrita parece verosimilmente votada a um rápido desaparecimento, uma vez? substituída por aparelhos dictafónicos de impressão? automática. Dever?-se-á ver? nisto uma espécie? de reconstituição do estado? anterior ao enfeudamento fonético da mão? Eu? sentir-me-ia mais tentado a ver aí, a par? de um simples aspecto? do fenómeno? geral? de regressão manual?, algo de semelhante? a uma nova «libertação». Quanto às suas consequências a longo prazo sobre as formas do raciocínio?, sobre um hipotético? retorno ao pensamento difuso e multidimensional, elas são perfeitamente imprevisíveis no momento? actual. Para o pensamento científico, pelo seu lado, a necessidade? de ter? de passar pela teia tipográfica representa antes um incómodo, sendo? certo que se houvesse algum processo? de apresentar os livros de tal modo? que a matéria? dos diferentes capítulos se patenteasse simultaneamente sob todas as suas incidências, os autores e os seus leitores tirariam disso consideráveis vantagens. Contudo, é certo que, se o raciocínio científico não tem certamente nada? a perder com o desaparecimento da escrita, já a filosofia e a literatura assistirão, sem dúvida?, no domínio? das suas formas, a uma considerável evolução. Isso não será particularmente lamentável, já que o texto impresso servirá para preservar as formas de pensar? curiosamente arcaicas de que os homens se terão servido durante o período do grafismo alfabético; quanto às novas formas, elas estarão para as antigas como o aço para o sílex, ou seja, certamente não serão um instrumento mais cortante, mas sem dúvida um instrumento mais manejável. A escrita passará para o plano? da infra-estrutura? sem alterar o funcionamento da inteligência?, à semelhança de uma transição cuja primazia datasse já de há vários milénios. (...)

A escrita alfabética conserva, no pensamento, um certo nível de simbolismo? pessoal. Com efeito?, na escrita, a visão conduz a uma reconstrução do som que se mantém individual?, e numa margem reduzida mas segura, a uma interpretação? pessoal da matéria fonética. Mais ainda, as imagens desencadeadas pela leitura mantêm a imaginação? do leitor, propriedade? de riqueza? variável. Mudando de plano, substituindo os símbolos ideográficos por letras, o alfabeto? não abule todas as possibilidades de recriação. Por outras palavras?, se a escrita alfabética satisfaz as necessidades da memória social?, conserva no indivíduo o benefício do esforço? de interpretação que a mesma exige.

Podemos interrogar-nos se a escrita não está já condenada, apesar da importância crescente da matéria impressa actualmente. Em meio? século, o registo sonoro, o cinema e a televisão intervieram no prolongamento da trajectória que tem a sua origem? antes do Aurignacense.

A situação que se tende a estabelecer representaria assim um aperfeiçoamento?, pois economizaria o esforço da «imaginação» (no sentido? etimológico). Mas a imaginação é a propriedade fundamental da inteligência, e uma sociedade? em que a propriedade de forjar símbolos enfraquece perderia a sua propriedade de agir?. Daqui resulta, no mundo? actual, um certo desequilíbrio ou miais exactamente a tendência? para o mesmo? fenómeno que caracteriza o artesanato: a perda? do exercício da imaginação nas cadeias operatórias vitais.

A linguagem audiovisual tende a concentrar a elaboração total das imagens nos cérebros de uma minoria de especialistas que transmitem aos indivíduos matéria totalmente figurada. O criador? de imagens, pintor, poeta? ou narrador técnico, sempre constituiu, mesmo no paleolítico, uma excepção social, mas a sua obra? mantinha-se inacabada, pois solicitava a interpretação pessoal, independentemente do nível do observador? da imagem. Actualmente, a separação?, altamente proveitosa no plano colectivo, está em vias de realização numa pequena elite?, órgão? de «digestão» intelectual?, e as massas, os órgãos de assimilação? pura e simples. Esta evolução não afecta apenas o audiovisual, que apenas é o resultado de um processo geral que engloba o todo? gráfico. De início?, a fotografia não trouxe modificação? na percepção? intelectual das imagens, como qualquer inovação apoiou-se no preexistente: os primeiros automóveis foram as carruagens sem cavalos e as primeiras fotografias retratos e movimentos sem cor. O processo de «pré-digestão» apenas se verifica a partir da difusão do cinema, que modifica completamente a concepção? da fotografia e do desenho num sentido pictográfico, propriamente dito?. O instantâneo desportivo e a banda desenhada contribuem, como o «digerido», para a separação, no corpo? social, entre o criador e o consumidor de imagens.

O empobrecimento não se verifica nos temas?, mas no desaparecimento das variantes de imaginação pessoais. Os temas de literatura popular (ou sabedoria?) sempre foram em número? muito limitado; não é, portanto, extraordinário? ver o mesmo super?-homem? forte e belo?, a mesma mulher? fatal, o mesmo colosso mais ou menos estúpido, entre os Sioux e os bisontes, em plena Guerra? dos Cem Anos, a bordo de um navio pirata, num ruidoso bólide na perseguição de gangsters, entre dois planetas, numa nave espacial. A repetição? incansável do mesmo stock? de imagens corresponde a essa fraca imaginação que deixa nos indivíduos o exercício de sentimentos? que gravitam em volta da agressividade ou da sexualidade?. Não é de duvidar de que as bandas desenhadas traduzem muito melhor a acção que as velhas imagens de Epinal. Nestas últimas, o soco era? um símbolo inacabado, o gancho do super-homem?, com aspecto de traidor, nada adiciona à precisão? traumática; tudo se torna uma realidade? absolutamente nua, a absorver sem esforço.


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