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Le Geste et la Parole

Leroi-Gourhan (GP2:33,41-42) – O utensílio desligado da mão

domingo 24 de outubro de 2021

A. Leroi-Gourhan  , Le Geste et la Parole, t. II, Albin Michel, 1964, pp. 33, 41-42.

A antropologia? física? vem em socorro da antropologia cultural? mostrando que a característica? específica do homem? e do utensílio? é distanciar. O determinismo? de um e, sobretudo, os determinismos socioculturais, seguem uma evolução? que, pela sua natureza?, não pode ser parcialmente distanciada pelo determinismo do outro. A espécie? zoológica «homo sapiens» não segue o preciso destino? da família? do utensílio. Esse? facto? explica, provavelmente, que nas nossas sociedades técnicas? o enorme progresso? da técnica apenas seja acompanhado por um desenvolvimento? fisiológico imperceptível (pequeno prolongamento da média de vida?) e que, e acima de tudo, não pareça alargado com um aperfeiçoamento? moral? ou jurídico.

Esse afastamento? que se exprime na separação? do utensílio relativamente à mão ou na separação da palavra? relativamente ao objecto?, vem também a exprimisse na distanciação que a sociedade? assume relativamente ao grupo? zoológico. (...)

O valor? humano do gesto não está, pois, na mão, cuja condição? suficiente se resume a estar? livre durante a marcha, mas sim, precisamente, nessa mesma marcha vertical e nas suas consequências paleontológicas sobre o desenvolvimento do aparelho cerebral. O enriquecimento progressivo da sensibilidade? táctil e do dispositivo neuromotor intervém qualitativamente sem alterar a natureza da aparelhagem fundamental.

Ao nível do antropídeo primitivo?, as complexas acções de preensão?, de manipulação e de moldagem vêm a persistir; e continuam ainda a representar? uma grande parte? dos nossos gestos técnicos. Em contrapartida, torna-se sensível que, após o aparecimento do percutor, do «chopper» e do uso? das hastes de cervídeo, as operações de seccionamento, de trituração, de modelagem, de raspagem e de escava, acabam por emigrar para os utensílios. A mão deixa de ser utensílio para se tornar motor. (...)

No decurso da evolução humana, a mão vem a enriquecer os seus modos? de acção? no âmbito do processo? operatório. A acção manipuladora dos primatas, na qual gesto e utensílio se confundem, é seguida, com o surgimento dos primeiros antropídeos, pela acção da mão em motricidade? directa, na qual o utensílio manual? já se tornou separável do gesto motor. Na etapa seguinte, ultrapassada talvez antes do neolítico, as máquinas manuais anexam o gesto, pelo que a mão em motricidade indirecta se limita agora? a fornecer o impulso? motor. No decurso dos tempos históricos?, a própria força? motriz vem a abandonar o braço humano, limitando-se a mão a desencadear o processo motor nas máquinas animais ou nas máquinas automotoras, como é o caso dos moinhos. Finalmente, no último? estádio?, a mão passa a desencadear um processo programado em máquinas automáticas, máquinas que não só exteriorizam o utensílio, o gesto e a motricidade, como começam também a invadir o domínio? da memória? e do comportamento? maquinal.

Este empenhamento do utensílio e do gesto em órgãos? exteriores? ao homem tem todas as características de uma evolução biológica, já que se desenvolve no tempo?, tal como a evolução cerebral, por adição de elementos? que permitem aperfeiçoar o processo operatório sem se eliminarem uns aos outros. Já vimos mais atrás que o cérebro do homo sapiens conserva todos os níveis atingidos desde o peixe, além? de que todos eles, apesar de? suplantados pelo nível mais recente, continuam a desempenhar o seu papel? nas formas? mais elevadas do pensamento?. Do mesmo? modo, a existência? e o funcionamento? de uma máquina? automática dotada de um programa complexo? obriga a que, aos diversos níveis do seu fabrico, ajustamento e reparação, todas as categorias? do gesto técnico, ainda que num plano? de penumbra, venham a intervir, indo desde a manipulação do metal ao manejo da lima, à bobinagem dos fios eléctricos, à reunião mais ou menos manual ou mecânica? das peças.


Ver online : Le Geste Et La Parole, Tome 2: La Mémoire Et Les Rythmes