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A Técnica e o Desafio do Século [TDS]

Ellul (TDS:12-18) – definições da técnica

Capítulo I — Técnicas – 1. Situações

domingo 24 de outubro de 2021

ELLUL  , Jacques. A Técnica e o Desafio do Século. Tr. Roland Corbisier  . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, p. 12-18

Quase sempre, quando se sai da identificação técnica-máquina as definições encontradas são inadequadas aos fatos? que atualmente verificamos. Vejamos alguns exemplos. O primeiro é tomado de um sociólogo que conhecia admiravelmente o problema?: Mauss  , ao qual devemos diversas definições da técnica, algumas das quais perfeita. Reteremos uma critic?ável, a fim? de precisar nossas ideias? pela crítica: "A técnica é um grupo? de movimentos, de atos? geralmente e na maioria manuais, organizados e tradicionais?, concorrendo para obter um fim conhecido, físico, químico ou orgânico".

Essa definição é perfeitamente válida para o sociólogo dos primitivos. Apresenta, como demonstra Mauss  , numerosas vantagens: por exemplo?, eliminar da consideração das técnicas as da religião ou da arte? (embora, como veremos, a magia? deva incluir-se efetivamente entre as técnicas). Logo, as vantagens são certas apenas na perspectiva? histórica. Na óptica do nosso tempo?, tal definição é totalmente insuficiente.

Quando se fala? em movimentos, pode-se dizer que a técnica de elaboração de um plano? econômico, que é, no entanto, pura operação técnica, seja seu fruto? Aqui?, não há movimento? ou ato algum que seja posto em ação de modo? especial. Trata-se de uma operação intelectual? que, no entanto, é técnica.

Quando se restringe a técnica ao trabalho? manual?, a inexatidão de semelhante? definição ainda se torna mais patente. Hoje em dia, a maior parte? das operações técnicas não são mais operações manuais, no sentido? próprio da expressão.

Seja porque a máquina se substitui ao homem?, seja porque a técnica se torna intelectual, o domínio mais importante (porque portador dos germens do futuro?), senão o mais extenso, não é no mundo? moderno? o do trabalho manual. Sem dúvida?, a operação manual permanece na base do trabalho mecânico, e não devemos esquecer? que é o grande argumento? de Jünger   contra as ilusões do progresso? técnico: quanto mais a técnica se aperfeiçoa, mais exige trabalhos manuais secundários, e o volume dessas operações manuais cresce mais rapidamente que o da mecânica. Mas, se tal é verdade?, nem por isso o traço característico, principal, das técnicas no mundo atual? se refere ao trabalho manual, mas, por exemplo, à organização e à articulação das máquinas umas com as outras.

Se estamos de acordo? quanto ao termo? organizado que Mauss   introduz em sua definição, dele discordamos novamente quanto ao termo tradicional. Não, no mundo moderno a técnica não mais repousa na tradição, em sentido estrito?. Tal fato, aliás, distingue profundamente a técnica atual da que podemos observar? nas civilizações anteriores. É verdade que, em todas as civilizações, a técnica viveu como a tradição, quer dizer, por transmissão de processos? herdados, lentamente amadurecidos, e modificados ainda mais lentamente; evoluindo sob a pressão das circunstâncias ao mesmo? tempo que todo o corpo? social?; criando automatismos, tornados hereditários, que progressivamente se integraram em cada nova forma? da técnica.

Mas, quem não observa a atual transformação de todas essas noções? A técnica tornou-se autônoma, e constitui um mundo devorador que obedece às suas próprias leis?, renegando toda tradição. A técnica não mais repousa em uma tradição, mas na combinação de processos técnicos anteriores e sua evolução é rápida demais, por demais subversiva para integrar as tradições. Esse? fato, que estudaremos mais tarde longamente, explica também por que não é exata a ideia? de que uma técnica assegure um resultado antecipadamente conhecido. É verdadeira quando se considera o usuário. Aquele que conduz um carro pode estar? certo de andar mais depressa quando apoia no acelerador. Mas, mesmo no domínio mecânico, isso não é totalmente verdade, com a técnica mais recente dos servomotores. Observa-se aqui ampla margem de adaptação da máquina, que torna, em definitivo, o fim alcançado difícil de prever.

Verdade manifesta, quando se considera não mais o uso? porém o progresso técnico. Ora, torna-se essencial? notar? que, nesse tempo, uso e progresso técnico estão estreitamente misturados. É cada vez? menos exato? que o usuário fique muito tempo na posse? de uma técnica da qual conhece perfeitamente todas as consequências. Nesses domínios, a invenção permanente transforma sem cessar os hábitos adquiridos.

Enfim, Mauss   parece considerar que o fim alcançado é do domínio físico ou químico. Atualmente, porém, sabemos perfeitamente que as técnicas vão além. A psicanálise e a sociologia? passaram para o domínio das aplicações, e ocorre que uma delas é a propaganda. Neste caso, a operação é de caráter? moral?, psíquico e espiritual. Não deixa, no entanto, de ser técnica. Trata-se, porém, de um mundo até então entregue ao pragmatismo? e que o método rapidamente incorpora. Podemos, pois, dizer que essa definição, válida para a técnica até o século XVIII, não corresponde mais ao nosso tempo. Mauss  , nesse particular?, foi vítima de sua óptica de sociologia primitiva, como se verifica pela classificação das técnicas por ele adotada (alimentação, vestuário, transportes, etc.) .

Outro? exemplo dessas definições inadequadas nos é dado? por Jean Fourastié, e por aqueles que prosseguem nas mesmas pesquisas. Para Fourastié, o progresso técnico é o "crescimento do volume de produção, obtido por meio? de uma quantidade? fixa de matéria-prima ou de trabalho humano". O que quer dizer que a técnica é unicamente o que provoca esse crescimento da produção.

Pode-se analisar essa noção de três aspectos, nos diz ele: o rendimento em espécie, sendo então a técnica o que permite economizar matérias-primas para obter determinada produção; - o rendimento financeiro, caso em que a técnica é o que permite aumentar a produção pelo acréscimo dos investimentos financeiros; - o rendimento do trabalho humano, hipótese? na qual a técnica é o que aumenta a quantidade de trabalho obtida por uma unidade? fixa de trabalho humano. - E se devemos, a propósito, agradecer a J. Fourastié por ter desfeito o erro? de Jünger   (por exemplo, quando este opõe o progresso técnico ao progresso econômico a seu ver? contraditórios) e por ter mostrado que os dois progressos, ao contrário, coincidem, devemos em compensação recusar essa definição da técnica, pois é inteiramente arbitrária.

É arbitrária, em primeiro lugar?, porque se refere apenas ao econômico e só tem noção do rendimento econômico: ora, há inumeráveis técnicas tradicionais que não assentam na procura do rendimento e não têm caráter econômico. São precisamente as que Mauss   visava em sua definição e que ainda existem. Em seguida, na prodigiosa floração das técnicas atuais, numerosas são as que não se referem à vida econômica. Quando se estabelece uma técnica da mastigação, parte do nutricionismo, ou quando se estabelecem as técnicas do jogo?, como no escotismo?, é possível ver, a rigor, o rendimento, mas de modo algum o aspecto? econômico.

Em outros casos, as repercussões econômicas se encontram em dois ou três graus de consequência, e a rigor não se pode dizer que sejam o fator característico dessa progressão. Assim, a moderna máquina de calcular. Sem dúvida, dir-se-á que a planificação e os cálculos de equações a 70 variáveis, necessários a certas pesquisas econométricas, só são possíveis com essa máquina de calcular: todavia, não é a produtividade? econômica resultante da utilização dessa máquina que permite avaliar sua importância.

Uma segunda crítica se refere ao caráter exclusivo de produtividade atribuído à técnica: aumento? do volume de produção, isto é, uma noção ainda mais estreita que a de rendimento. Pois, afinal de contas, as técnicas em que observamos os maiores progressos recentes não são técnicas de produção; assim, certos métodos referentes ao homem - toda a cirurgia, a psico-sociologia etc. - nada? têm a ver com a produtividade. Ainda mais, as técnicas de destruição, pois enfim são as BA, BH, rocket, VI e V2 etc. . . que manifestam as mais poderosas criações técnicas do homem. Ê aí que se desenvolvem todo o engenho? e a perfeição mecânica.

Nada equivale em perfeição à máquina de guerra?. Um navio ou um avião militar é infinitamente mais perfeito? do que o equivalente civil. A organização do exército - transporte, reabastecimento, administração - deve ser impecável: o menor erro custa vidas humanas e é imediatamente cobrado pela derrota ou pela vitória.

Onde está, nesse caso, o rendimento? Antes vergonhoso. Onde está a produtividade? Negativa. A essa mesma noção também se refere Vincent: "O progresso técnico é a variação relativa da produtividade global em determinado domínio, entre duas épocas determinadas". Essa definição, sem dúvida útil do ponto? de vista econômico, logo o conduz a vários imbróglios: é assim obrigado a distinguir o progresso técnico do progresso da técnica (o que corresponde à progressão da técnica em todos os domínios) e a distinguir ambos do "progresso técnico propriamente dito?", que concerne as variações da produtividade, com exclusão dos fenômenos naturais?: pois, em sua definição do progresso técnico, Vincent vê-se obrigado a reconhecer que inclui os fenômenos naturais (maior ou menor riqueza? das minas, do solo, etc. ..), o que, por definição, é o contrário mesmo da técnica!

Semelhantes acrobacias da linguagem?, tais distinguos bastam como prova? da inanidade de tal definição. Não visa senão um aspecto do progresso técnico e engloba elementos? que não pertencem à técnica. Ora, é a partir dessas definições que Vincent conclui pela lentidão do progresso técnico. Mas, o que é verdadeiro? em relação à produtividade econômica, é falso? em relação ao progresso técnico concebido em sua generalidade. É evidente que, se retirarmos parte considerável da técnica, a mais progressiva, poderemos falar? em lentidão desse progresso. E essa abstração ainda é mais ilusória quando se pretende medir o progresso técnico. Tal mensuração, tentada por Fourastié, é inexata porque deixa de lado tudo o que não se refere à produção, e os efeitos, não mais econômicos, porém humanos e sociológicos.

Esa tendência a reduzir o problema técnico às dimensões da técnica de produção, nós a encontramos em um espírito? tão esclarecido como Georges Friedmann. Em sua introdução à coletânea da Unesco sobre a técnica, parece aceitar, no ponto de partida, a princípio, uma definição muito ampla, que encontraremos adiante. Logo em seguida, porém, no segundo par?ágrafo, e sem prevenir-nos em relação à escorregadela ou à redução, parece reduzir tudo à produção econômica.

Isso nos obriga a indagar que móvel conduz a essa limitação do problema. Poderíamos pensar? em uma implícita vontade? de otimismo?: é preciso, de uma vez por todas, pensar que o progresso técnico é válido; escolher-se-á, então, seu aspecto mais positivo? como se fosse seu único aspecto. Tal tendência, que poderia ser a de J. Fourastié, não parece possa ser a de G. Friedmann. Acredito, na realidade?, que a causa se encontra na tendência do espírito científico.

As técnicas de produção foram objeto? de inumeráveis estudos, em todos os seus aspectos - mecânico, econômico, psicológico, sociológico; começamos a ser esclarecidos sobre as relações entre a máquina industrial e o homem, do modo mais preciso e mais científico, é necessário portanto, desde então, servir-se dos materiais adquiridos, e como quase tudo se ignora sobre as relações do homem com o automóvel, o telefone ou o rádio, como se ignora absolutamente tudo a respeito? das relações do homem com o Aparat, ou sobre as modificações sociológicas devidas aos outros aspectos da técnica, a escolha? volta-se inconscientemente para o domínio que se conhece (cientificamente), ao qual se pretende então limitar todo o problema.

Há outro elemento, além disso, na atitude? científica: só pode ser conhecido o que é quantificado, ou ao menos quantificável. Para sair dos supostos "arbítrio e subjetividade?", para escapar ao julgamento? ético ou literário, que, como todos sabem, é desprezível e sem fundamento?, é preciso reduzir ao número. Que se pode extrair da afirmação de que o operário está cansado? Ao contrário, quando a bioquímica permite o estudo? quantificado da fatigabilidade, pode-se finalmente levar em conta esse cansaço, há uma esperança de realidade e de solução. Ora, há todo um domínio referente? aos efeitos da técnica, o mais amplo, sem sombra? de dúvida, que não é quantificável. Precisamente o domínio que estudamos neste trabalho. Consequentemente, parece que tudo o que se possa dizer a respeito não é sério - simplesmente. É melhor, portanto, fechar os olhos? e admitir ou que se trata de falsos problemas - ou então que não há problema. Pois a posição "científica" consiste, às vezes, em negar a existência do que não depende do método científico. Ora, o problema da máquina industrial é, em quase todos os aspectos, quantificado. Logo, involuntariamente, reduzir-se-á toda a técnica a esse aspecto. Pode-se também fazê-lo deliberadamente, com Vincent que apresenta expressamente esta razão para a sua definição: "Englobamos no progresso técnico todos os progressos. . . contanto que sejam quantificados de modo seguro!"

Finalmente, quando M. H. D. Lasswell apresenta como definição da técnica "o conjunto das práticas que permitem colocar os recursos a serviço da edificação dos valores?", parece-nos tornar-se alvo das críticas precedentes. Com efeito?, tal definição não parece visar senão a técnica industrial. E poderíamos contestar, além disso, que a técnica permita elaborar valores. Mas, nos exemplos dados por Lasswell, percebe-se que concebe os termos de sua definição de modo extremamente amplo: apresenta um quadro dos valores e das técnicas correspondentes: esses valores são, por exemplo, a riqueza, o poder, o bem?-estar, a afeição, etc. aos quais correspondem as técnicas do governo?, da produção, da medicina, da família (?). Essa noção de valor pode parecer meio estranha. O termo é manifestamente impróprio. Isso mostra, no entanto, que Lasswell confere plena extensão às técnicas. Aliás, estabelece com precisão que nelas devemos incluir não apenas os modos de agir sobre as coisas?, mas também os modos segundo os quais agimos sobre as pessoas?, etc. . . Concordaremos, pois, com o pensamento? de Lasswell.


Ver online : The Technological Society