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Discurso do Método

Descartes (DM) – As quatro regras do método

domingo 24 de outubro de 2021

Excerto de DESCARTES  , René. Discurso do Método. Tr. Maria Ermantina Galvão. São Paulo  : Martins Fontes, 2001, p. 23-25

O primeiro? era? de nunca aceitar? coisa? alguma como verdadeira sem que a conhecesse evidentemente como tal; ou seja, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e não incluir em meus juízos? nada? além? daquilo que se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito?, que eu? não tivesse nenhuma ocasião? de pô-lo em dúvida?.

O segundo, dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível? e necessário? para melhor resolvê-las.

O terceiro, conduzir por ordem? meus pensamentos, começando pelos objetos? mais simples? e mais fáceis de conhecer? [1], para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento? dos mais compostos; e supondo certa ordem mesmo? entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E, o último?, fazer? em tudo enumerações tão completas, e revisões tão gerais, que eu tivesse certeza? de nada omitir.

Essas longas cadeias de razões, tão simples e fáceis, de que os geômetras costumam servir-se para chegar às suas mais difíceis demonstrações?, levaram-me a imaginar que todas as coisas? que podem cair sob o conhecimento dos homens encadeiam-se da mesma maneira, e que, com a única condição? de nos abstermos de aceitar por verdadeira alguma que não o seja, e de observarmos sempre a ordem necessária para deduzi-las umas das outras, não pode haver? nenhuma tão afastada que não acabemos por [23] chegar a ela e nem tão escondida que não a descubramos. E não tive muita dificuldade em concluir? por quais era necessário começar?, pois já sabia que era pelas mais simples e mais fáceis de conhecer; e, considerando que entre todos aqueles que até agora? procuraram a verdade? nas ciências?, só os matemáticos puderam encontrar algumas demonstrações, isto é, algumas razões certas e evidentes, não duvidei de que deveria começar pelas mesmas coisas que eles examinaram; embora delas não esperasse nenhuma outra utilidade a não ser a de acostumarem meu espírito a alimentar-se de verdades e a não se contentar com falsas razões. Mas com isso não tive a intenção? de procurar aprender todas essas ciências particulares chamadas comumente matemáticas [2]; e, vendo que embora seus objetos sejam diferentes todas coincidem em só considerarem as diversas relações? e proporções que neles se encontram, pensei que era melhor examinar somente essas proporções em geral?, supondo-as apenas nas matérias que servissem para tornar-me seu conhecimento mais fácil; mesmo assim, sem as limitar de modo? algum a essas matérias, a fim de poder melhor aplicá-las depois a todas as outras às quais conviessem. Depois, tento atentado que, para conhecê-las, eu precisaria às vezes? considerar cada uma em particular?, e outras vezes somente decorá-las, ou compreender? várias ao mesmo tempo?, pensei que, para melhor considerá-las em particular, teria de supô-las como linhas, porque não [24] encontrava nada mais simples nem que pudesse representar? mais distintamente à minha imaginação? e aos meus sentidos?; mas, para reter e compreender várias ao mesmo tempo, eu precisava explicá-las por alguns sinais, os mais curtos possíveis, e que, deste modo, aproveitaria o melhor da análise? geométrica e da álgebra? e corrigiria todos os defeitos de uma pela outra [3].


Ver online : Discurso do Método


[1Um objeto ou ideia simples não é o que exige menos esforço. Para Descartes, as ideias simples são as irredutíveis a outras, e representam ou essências separadas (Deus, a alma, o corpo), ou relações (maior, menor, igual, etc.).

[2Os escolásticos distinguiam as matemáticas puras (aritmética, geometria) das matemáticas mistas (astronomia, música, óptica, mecânica, etc.).

[3Alusão à geometria analítica, que reduz as figuras (linhas) a equações (números). Assim, ela conserva, da geometria, as figuras, o que permite recorrer à imaginação, e, da álgebra, a brevidade e a simplicidade.