Página inicial > Filosofia da Ciência e da Técnica > Francis Wolff (NH:41-44) – ciências da natureza

Nossa Humanidade

Francis Wolff (NH:41-44) – ciências da natureza

De Aristóteles às neurociências

sábado 23 de outubro de 2021

[WOLFF, Francis. Nossa Humanidade. De Aristóteles às neurociências. Tr. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Editora UNESP, 2011, p. 41-44]

A situação? do homem? na natureza? e no mundo? permite-lhe ser o mais conhecido dos seres da natureza, mas também poder? conhecê-la. É o ser [42] natural mais bem conhecido, mas também o único? que conhece naturalmente. Não que Aristóteles se interesse? pelo problema? “transcendental?” do sujeito? do conhecimento?, ou seja, pela pergunta? “Já que é possível? a Física?, que se deve supor? acerca da essência? de seu sujeito, separado de seu objeto??”. Não, pois o olhar? lançado ao homem é sempre objetivo?, exterior?: é o olhar do naturalista, não é nunca o ponto? de vista? do psicólogo? ou do sociólogo, nem o ato? reflexivo de uma subjetividade? introspectiva ou de uma interrogação? transcendental. Mas o que o olhar naturalista sobre o homem pode fazer?-nos conhecer? a respeito? dele é justamente o que faz com que o homem deseje conhecer objetivamente a natureza. A Ciência? da Natureza pode explicar?-nos por que ela mesma é uma realização da natureza do homem. Com efeito?, fazer “Física” não é só, como em Matemática?, conhecer a forma? ou a essência das coisas?, [1] é também compreender? a finalidade? delas. Ora, o homem tem, entre outras coisas, como fim? natural poder compreender a natureza. É o que mostra a Física.

Dizer que a Física se empenha em explicar as coisas pela finalidade não significa de modo? algum haver? uma providência? que tenha tudo disposto no mundo com vista ao bem ou para a satisfação? dos homens. Significa que não podemos compreender um órgão? num ser vivo sem lhe compreendermos a função?, ou seja, sem explicarmos “com vista a quê” existe essa parte?. Assim, os chifres servem para se defender, o pulmão serve para arrefecer o organismo?. Que um ser vivo execute esta ou aquela tarefa?, atividade? ou função (e o homem, em particular?, a função de conhecimento) é um efeito da parte natural da alma que corresponde a essa função. Uma coisa? é mostrar que o animal? chamado? homem é dotado de logos?, de linguagem? ou de intelecto?, outra coisa é dizer por quê. A pergunta “Por que o homem, e só o homem, entre os mortais?, tem um intelecto?”, responde o conhecimento da natureza: para poder conhecer, isto é, para poder compreender o mundo. A Ciência é, com efeito, uma “disposição? [do homem que o torna] capaz de demonstrar?”, [2] ou seja, explicitar a causa dos fatos?. O homem, é claro, tem de se orientar? na vida?, para sobreviver e até “bem viver” (ser feliz), mas pode também querer? conhecer o mundo ao seu redor sem outro fim senão compreendê-lo. Como a natureza nada? faz em vão, dotou o homem de capacidades naturais cuja finalidade não é só prática, mas também “teórica?”, isto é, independente? de todo interesse prático?. O conhecimento da natureza pelo homem está, portanto, inscrito na natureza mesma do [43] homem. Dito? inversamente: é por ser ele mesmo?, por natureza, um animal dotado de logos, que o homem pode conhecer a natureza em geral? e a sua própria em particular.

Que a Ciência da Natureza seja possível é a verdadeira conquista epistemológica de Aristóteles em relação? aos seus antecessores platônicos. Para Platão, o homem só pode ter acesso? a Ciências Matemáticas. Para Aristóteles, o homem pode também ter acesso a Ciências da Natureza (da Cosmologia? ou da Meteorologia à Zoologia, passando pela Biologia? – o tratado Da alma), menos rigorosas, porém mais verdadeiras que as Matemáticas, porque seu objeto é mais real?. [3] O que o estudo? natural da alma humana mostra é que a capacidade? intelectual? do homem não é senão um prolongamento de sua capacidade perceptiva e não pode ser verdadeiramente separada dela; o homem adquire, assim, os princípios? de seu saber? por indução? a partir do sensível?, e o intelecto humano não é dissociável de seu enraizamento “animal” que é a percepção?. [4] O homem pode, assim, chegar, a partir da experiência? sensível, às definições dos seres naturais e também compreender as causas? imutáveis e eternas de seus movimentos, ainda que eles sejam mutáveis e mortais. A alma do homem dá-lhe, portanto, acesso a dois? tipos? de Ciências “teóricas” ou especulativas: Ciências Matemáticas, puramente dedutivas, que raciocinam sobre formas sem matéria?; e Ciências Físicas, que raciocinam etiologicamente sobre objetos naturais – “formas numa matéria” – e tomam seus princípios da experiência. É exatamente porque a parte intelectual? da alma é inseparável da animalidade do homem que a Ciência Física é possível; e ela é tanto ciência (puro? conhecimento explicativo) quanto física (ela apreende seres que existem real e concretamente na natureza). Aristóteles pode reivindicar legitimamente a fundação um novo gênero? de conhecimentos teóricos, as Ciências Físicas, ao lado das que Platão fundara, as Matemáticas. [5] E isso graças à sua concepção? do homem. Porque o homem não é apenas um vivente?, mas um vivente naturalmente racional?, ele é dotado pela natureza de uma capacidade que não tem outra finalidade senão conhecer. A Ciência é, pois, um modo de ser natural para o homem. Porque o homem não é só vivente e racional, como se se tratasse de duas características tão separáveis como a alma e o corpo? em Platão, pois a sua faculdade? de pensar? racionalmente está ancorada em sua animalidade (ou seja, o homem vive racionalmente), ele pode conhecer não só formas puras [44] (matemáticas), mas todos os outros? seres naturais (formas inseridas numa matéria). A Ciência da Natureza é, portanto, um modo de ser natural para o homem. O homem é esse? animal que compreende a natureza.


[1Ver Física II, 7, 198 a 16.

[2Ética a Nicômaco VI, 3, 1139b 31-32.

[3Acerca desse ponto, ver adiante, Capítulo 6, p.167-8.

[4É o caso em especial do “senso comum” (ver Da alma III, 2) e da imaginação, pois a alma nunca pensa sem imagem (Da alma III, 7, 431a 16).

[5Acerca deste ponto, ver a seguir, Capítulo 6.