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A GAIA CIÊNCIA

Nietzsche (GC:§344) – o espírito científico

sábado 23 de outubro de 2021

[NIETZSCHE  , Friedrich. A Gaia Ciência. Tr. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães Editores, 2000, § 344 (ebook)]

344 — Em que somos nós também ainda piedosos — Diz-se com justa razão? que, no domínio? da ciência?, as convicções não têm direito? de cidade?: só quando se decidem a adotar modestamente as formas? provisórias da hipótese?, do ponto? de vista experimental?, da ficção? reguladora, é que se lhes pode conceder acesso ao domínio do conhecimento? e mesmo reconhecer-lhes nisso um certo valor?, com a condição? de continuarem, todavia, sob uma vigilância de polícia, sob o controlo da desconfiança. Mas isso não quer dizer, no fundo, que é unicamente quando a convicção? deixa de ser convicção que pode adquirir direito de cidade na ciência? Não começará a disciplina? do espírito? científico somente com a recusa de qualquer convicção? É provável?; resta saber? se a existência? de uma convicção não é já indispensável para que esta disciplina possa ela própria começar e a existência de uma convicção tão imperiosa, tão absoluta que force todas as outras a sacrificar-se a ela? Vê-se por ali que a própria ciência assenta numa crença?; não há ciência sem postulado?. “Será necessária a ciência?” É preciso, para ela se poder formar, que esta questão? tenha recebido anteriormente uma resposta não somente afirmativa, mas afirmativa a tal ponto que exprima este princípio?, esta fé?, esta convicção: “Nada? é mais necessário? do que o verdadeiro?; tudo o mais, em relação? com ele, tem importância secundária.” O que vem a ser esta vontade? absoluta de verdade?? Será vontade de não se deixar enganar? Será vontade de não se enganar a si próprio?? Porque nada impede que se interprete também desta segunda maneira a necessidade absoluta do verdadeiro, se admitirmos que “não quero enganar” inclui como caso particular? “não me quero enganar a mim próprio”. Mas porque não devemos enganar? E por que não nos devemos deixar enganar?

Notemos que as razões que respondem à primeira destas questões relevam de um domínio completamente diferente daquelas que respondem à segunda: se não nos queremos deixar enganar é que supomos que é prejudicial, perigoso, nefasto, ser enganado; a ciência, nesta hipótese, será, portanto, uma demorada astúcia: medida? de precaução, negócio de utilidade; mas pode-se objetar com justa razão: pois quê! Será a vontade de não se deixar enganar verdadeiramente menos prejudicial, menos perigosa, menos nefasta, do que a sua ausência?? Que sabeis vós a priori? do caráter? da existência para poder decidir que a desconfiança absoluta apresenta mais vantagens do que a absoluta confiança? E se são necessárias as duas, uma grande confiança e uma grande desconfiança, onde irá a ciência procurar esta convicção absoluta, essa fé que lhe serve de base e que diz que a verdade importa mais do que qualquer outra coisa?, incluindo qualquer outra convicção? Essa convicção de base não se pode formar se o verdadeiro e o não verdadeiro se afirmaram sempre — e é esse? o caso! — úteis tanto um como o outro?. Portanto, a fé na ciência, essa fé que existe de fato? de uma maneira incontestável, só pode ter? a sua origem? num cálculo? utilitário; deve ter-se formado, pelo contrário, apesar do perigo e da inutilidade da “vontade da verdade”, apesar do perigo e da inutilidade da verdade de qualquer maneira”, perigo e inutilidade que a vida? demonstra sem cessar. (Verdade “seja como for”! Sabemos muito bem o que isso é, sabemos, ai de nós, bem de mais, quando oferecemos nesse altar, e sacrificamos com o nosso cutelo, todas as crenças, uma a uma!)

“Querer a verdade” não significa, portanto, “não querer deixar-se enganar”, mas — e não há outra escolha? — “não querer enganar os outros nem a si próprio”, o que nos leva para o domínio moral?.

Perguntemo-nos seriamente com efeito?: “Porque não queremos enganar?”, sobretudo se parece — é bem esse o caso! — que a vida seja vivida em vista da aparência?, quero dizer que tenha como objetivo? extraviar, iludir, dissimular, ofuscar, cegar, e se, por outro lado, de fato, ela se mostrou sempre sob a sua melhor face do lado dos menos escrupulosos aldrabões. Interpretado timidamente, esse desejo? de não enganar pode passar por um quixotismo, uma pequena sem-razão de entusiasta; mas é também possível? que seja também alguma coisa pior: um princípio destruidor, inimigo da vida... “Querer o verdadeiro” poderia ser, secretamente, querer a morte?. De modo? que o porquê da ciência se liga a um problema? moral: porquê, de uma maneira geral?, qualquer moral, quando a vida, a natureza?, a história? são imorais? Sem dúvida? alguma quem quer o verdadeiro, no sentido? intrépido e supremo que pressupõe a fé na ciência, afirma por essa própria vontade um outro mundo? sem ser o da vida, da natureza e da história; e até na medida em que afirmasse “outro mundo”, não negará necessariamente ao mesmo tempo? o seu antípoda: este mundo, o nosso?...

Mas ter-se-á desde já compreendido onde quero chegar: é numa fé metafísica que assenta ainda a nossa fé na ciência; pesquisadores do conhecimento, ímpios inimigos da metafísica, nós próprios, ainda acendemos fogo? na fogueira acesa por milenária crença, pela fé cristã, crença que foi também a de Platão, para quem o verdadeiro se identifica com Deus? e toda a verdade é divina... Mas se isso se torna cada vez mais inacreditável? Se nada já se revela divino, exceptuando o erro?, a cegueira e a mentira??... E se pode prever-se que o próprio Deus foi a nossa maior mentira?


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