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Ciência com Consciência

Morin (SC:238-239) – o domínio do conceito de sistema

Capítulo 5 - Le système, paradigme ou/et théorie

sábado 23 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Morin  , Edgar. Ciência com Consciência  . Tr. Maria D. Alexandre e Maria Alice Sampaio Dória. São Paulo: Bertrand Brasil, 1994

Morin, Edgar. Science avec conscience. Paris: Seuil, 1990, p. 238-239

      

português

O primeiro domínio   que importa é o do conceito de sistema.

Ora, a teoria   dos sistemas revelou a generalidade do sistema, não sua "genericidade".

A generalidade do sistema: tudo aquilo que era matéria no século passado   tornou-se sistema (o átomo, a molécula, o astro  ); tudo aquilo que era substância   vital tornou-se sistema vivo; tudo aquilo que é social foi sempre concebido como sistema. Mas essa generalidade não basta para dar à noção   de sistema seu lugar epistemológico no universo   conceituai.

A teoria dos sistemas resolveu aparentemente o problema: o sistema depende de uma teoria geral (a teoria dos "sistemas gerais"), mas não constitui um princípio de nível paradigmático: o princípio novo é o holismo, que procura a explicação no nível da totalidade e se opõe ao paradigma   reducionista, que procura a explicação no nível dos elementos   de base. Ora, eu queria mostrar que o holismo depende do mesmo princípio simplificador que o reducionismo, ao qual se opõe (ideia simplificada do todo e redução do todo). Como indiquei [1], a teoria dos sistemas não escavou seus próprios alicerces, não elucidou o conceito de sistema Assim, o sistema como paradigma permanece larvar, atrofiado, não esclarecido; a teoria dos sistemas sofre, portanto, de carência fundamental: tende incessantemente a cair nos trilhos reducionistas, simplificadores, mutuantes, manipuladores de que se devia libertar e libertar-nos.

Ora, a inteligência   do sistema postula um novo princípio de conhecimento que não é o holismo. Isso só é possível se se conceber o sistema não só como um termo geral, mas também como um termo genérico ou gerador, isto é, como um paradigma (definindo-se aqui paradigma como o conjunto   das relações fundamentais de associação e/ou de oposição entre um número   restrito de noções-chave, relações essas que vão comandar-controlar todos os pensamentos, todos os discursos, todas as teorias).

A noção de sistema foi sempre uma noção-apoio para designar todo o conjunto de relações entre constituintes formando um todo. A noção só se torna revolucionária quando, em vez de completar a definição das coisas, dos corpos e dos objetos, substitui a de coisa ou de objeto, que eram constituídos de forma e de substância, decomponíveis em elementos primários, isoláveis nitidamente em espaço neutro, submetidos apenas às leis externas da "natureza". A partir daí, o sistema separa-se necessariamente da ontologia clássica do objeto. (Descobriremos que o objeto da ciência clássica é um corte, uma aparência, uma construção, simplificada e unidimensional, que mutila e abstrai uma realidade   complexa que se enraíza na organização física e na organização psicocultural.) Conhecemos a universalidade da ruptura que a noção do sistema traz com relação   à noção de objeto; falta considerar a radicalidade dessa ruptura e a verdadeira novidade que poderia trazer.

Original

La première maîtrise qui importe est celle du concept de système.

Or, la théorie des systèmes a révélé la généralité du système ; elle n’a pas dévoilé la « généricité » du système.

La généralité du système : tout ce qui était au siècle dernier matière est devenu système (l’atome, la molécule, l’astre), tout ce qui était substance vivante est devenu système vivant; tout ce qui est social a toujours été conçu comme système. Mais cette généralité ne suffit pas pour donner à la notion de système sa place épistémologique dans l’univers conceptuel.

La théorie des systèmes a apparemment tranché le problème : le système relève d’une théorie générale (la théorie des « systèmes généraux »), mais ne constitue pas un principe de niveau paradigmatique : le principe nouveau, lui, est le holisme, qui cherche l’explication au niveau de la totalité, et s’oppose au paradigme réductionniste, qui cherche l’explication au niveau des éléments de base. Or je voudrais montrer que le holisme relève du même principe simplificateur que le réductionnisme auquel il s’oppose (idée simplifiée du tout et réduction au tout). Comme je l’ai indiqué (Morin  , 1977, p. 101), la théorie des systèmes a omis de creuser son propre fondement, d’élucider le concept du système. Aussi, le système comme paradigme demeure larvaire, atrophié, non dégagé; la théorie des systèmes souffre donc d’une carence fondamentale : elle tend sans cesse à retomber dans les ornières réductrices, simplificatrices, mutilantes, manipulantes, dont elle était censée s’affranchir et nous affranchir.

Or, l’intelligence du système postule un nouveau principe de connaissance qui n’est pas le holisme. Ceci n’est possible qu’à condition de concevoir le système non seulement comme un terme général, mais comme un terme générique ou générateur, c’est-à-dire un paradigme (un paradigme étant ici défini comme l’ensemble des relations fondamentales d’association et/ou d’opposition entre un nombre restreint de notions maîtresses, relations qui vont commander/contrôler toutes pensées, tous discours, toutes théories).

La notion de système a toujours été une notion socle pour désigner tout ensemble de relations entre constituants formant un tout. La notion ne devient révolutionnaire que lorsqu’au lieu de compléter la définition des choses, des corps et des objets, elle se substitue à celle de chose ou d’objet, qui étaient constitués de forme et de substance, décomposables en éléments primaires, isolables nettement dans un espace neutre, soumis aux seules lois externes de la « nature ». Dès lors, le système rompt nécessairement avec l’ontologie classique de l’objet. (Nous découvrirons que l’objet de la science classique est une coupe, une apparence, une construction, simplifiée et unidimensionnelle, mutilant et abstrayant une réalité complexe qui prend racine à la fois dans l’organisation physique et dans l’organisation psycho  -culturelle.) Nous savons l’universalité de la rupture que la notion du système apporte par rapport à la notion d’objet, mais ce qui reste à envisager, c’est la radicalité de cette rupture et la véritable nouveauté qu’elle pourrait apporter.


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[1O sistema: paradigma ou teoria", conferência inaugural, congresso da A.F.C.E.T., Versalhes, 21 de novembro de 1977.