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de Castro: metáfora e conceitualização no pensamento científico

sexta-feira 22 de outubro de 2021

Judith Schlanger [1], em trabalho? desenvolvido em conjunto com Isabelle Stengers  , examina “representações, modelos, metáforas, como quadros conceituais que têm funções de argumentação e de interpretação”. Abordando vários aspectos nesta empreitada, estas autoras reconhecem sucessivamente: “os modelo? metafóricos como modelos cognitivos; os empréstimos metafóricos na argumentação; o repertório metafórico e a memória cultural?; a integração do novo, e o estatuto? do perene?”. [p. 83]

É preciso, por conseguinte, antes de mais nada?, aceitarmos a necessidade? de se retomar uma discussão importante, quanto ao papel? da imaginação e da metáfora? na conformação de nosso sistema? conceitual, ou, dito? mais simplesmente, na configuração de nossas formas? de pensar? e agir?.

Voltando à Judith Schlanger, mas desta feita a um de seus trabalhos pioneiros [2], aquele que a consagrou como filósofa da ciência, nos deparamos com sua tentativa inicial de examinar a forte relação entre? metáfora e conceitualização, principalmente no pensamento? científico. Para Schlanger, da mesma forma que o pensamento mítico, o pensamento racional? pratica também uma certa bricolagem? de ideias? e imagens?.

Ele toma emprestado seus elementos? de construção lá onde os encontra, ao redor de si, no universo? heteróclito da vida? corrente, e mais ainda nos setores da vida intelectual? que lhe aparecem como privilegiados, e que frequentemente possuem um caráter? evidente de moda?, ao mesmo? tempo? que um caráter exemplar de racionalidade.

Mas dizer que um saber? ou que uma teoria? em via de constituição forja sua terminologia? tomando emprestado os elementos de seu vocabulário nos deixaria ainda no limiar? do problema? epistemológico da metáfora [...] é evidente que os empréstimos de termos são o índice e o ponto? de convergência de várias formas de empréstimo. Pode-se distinguir? de uma maneira geral? diferentes níveis de empréstimos metafóricos, o empréstimo das expressões, o empréstimo dos modelos, o empréstimo das representações, o empréstimo dos métodos. [Schlanger, 1995, p. 20]

Para Schlanger, a função de empréstimo analógico de um domínio de conhecimento? para outro, através do uso? de metáforas, não deve ser entendida como uma produção ou geração. Só há empréstimo metafórico onde previamente nos deparamos com um problema original. Desta maneira, a metáfora fornece expressões, argumentos, representações, modelos, que tentam dar um suporte? imaginativo à problematização em curso. A metáfora, neste caso, não seria a fonte? ou a origem? do conceito?, ela apenas desempenharia uma função de facilitação.

A aceitação de uma ideia? se acha assim facilitada quando esta ideia já foi formulada, ou quando a mesma se liga por meio de uma metáfora a um circuito conceitual já desenvolvido. A função de facilitação não se esgota apenas na simples? necessidade didática de se traduzir o desconhecido? no conhecido. O prestígio e a autoridade? das disciplinas?, que se encontram em situação privilegiada em um dado? momento? do pensamento científico (física ou biologia?), orientam também a adoção das metáforas que irão regular a formula?ção conceitual de outras problemáticas nas disciplinas hospedeiras destas metáforas.


[1STENGERS, I. & SCHLANGER, J. (1991), Les Concepts Scientifiques. Invention et Pouvoir. Paris, Gallimard.

[2SCHLANGER, Judith (1971/1995), Les métaphores de l’organisme. Paris, L’Harmattan.