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Introdução à fenomenologia existencial

Luijpen (IFE:44-48) – o cogito cartesiano

Capítulo I O Homem como Existência

sexta-feira 22 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

LUIJPEN  , Wilhelmus Antonius   Maria. Introdução à fenomenologia existencial. Tr. Carlos Lopes de Mattos. São Paulo: EDUSP, 1973, p. 44-48

      

 O “cogito”

O caminho   de um incontrastável ponto de partida para a “ciência admirável”, que há de conter a verdade   e a certeza  , leva Descartes   à necessidade   da dúvida metódica. Tudo o que, de qualquer modo, pode ser sujeito a dúvidas, será posto entre parênteses, o que não quer dizer que Descartes seja cético ou agnóstico. Para ele só importa a verdade e certeza da “ciência admirável”. A fim de encontrá-la, porém, precisa demolir primeiro, até os alicerces, suas “opiniões antigas”, pois viu como era duvidoso tudo quanto lhe ensinaram desde a juventude  . [1]

Que foi, então, atingido pela dúvida metódica de Descartes ?

Permitindo-nos estabelecer certa sistemática na enumeração feita pelo filósofo, reuniremos o que é posto entre parênteses como sendo tudo o que não é o próprio   sujeito, a saber, Deus  , o mundo e o corpo. Por razões metódicas, Descartes suspende qualquer juízo   sobre isso, e deseja abster-se provisoriamente de julgar, não por duvidar da realidade   da existência de Deus, do mundo e do corpo, mas porque, a seus olhos, não teria fundamento algum o que lhe haviam ensinado a respeito deles, ainda que fosse verdadeiro. Também não é, entretanto, intenção   de Descartes investigar uma por uma todas as opiniões. [2] Tal coisa não só seria impossível, como igualmente supérflua. Porque, se o fundamento de todas as “opiniões antigas” for demolido [45], cairá por si todo o edifício das verdades e certezas anteriores. [3]

Com relação   à existência do mundo e do corpo, Descartes aduz dois   motivos para duvidar de sua realidade, a saber, a insegurança dos sentidos e a possibilidade do sonho  . É evidente   que os sentidos nos enganam às vezes, ao experimentarmos tirar deles um conhecimento verdadeiro e certo sobre o corpo e o mundo. Mas se os sentidos nos enganam às vezes, podem enganar-nos sempre. [4] Além disso, temos em nossos sonhos imagens de nosso corpo e nosso mundo, de que, uma vez acordados, precisamos dizer que não se coadunam com nosso corpo e nosso mundo reais. Quando sonhamos que temos um corpo mais robusto e mais belo ou moramos em um mundo totalmente diverso, estamos bem convictos de que o corpo e o mundo sonhados são reais, assim como cremos na realidade de um cinzeiro, de uma pena  , de um livro e de uma folha de papel sobre uma mesa, num quarto, numa casa   que dá para uma rua. Se, pois, estamos convencidos da realidade de um cinzeiro, de uma pena  , de um livro, de uma folha de papel, de uma mesa, de um quarto, de uma casa e de uma rua, trata-se de uma convicção tão infundada como a certeza a respeito do corpo e do mundo sonhados, porque não há nenhum critério para decidir que não sonho quando julgo sentir realmente um cinzeiro ou outra coisa qualquer. [5]

Descartes sabe muito bem que a dúvida metódica radical não pode ser, em absoluto  , utilizada na vida cotidiana. Nela procurar-se-á repelir qualquer dúvida que por acaso surja, a fim de se poder sobreviver numa falsa certeza. Um prisioneiro que sonha estar livre também não quer deixar seu sonho. [6] A vida cotidiana é como um sonho, mas a procura da verdade e certeza requer que esse sonho seja desfeito.

A dúvida metódica radical é para Descartes o caminho da certeza inabalável do cogito. Desde que se tenha posto entre parênteses tudo o que de algum modo é duvidoso, manifesta-se [46] o fato da própria dúvida como indubitável e certo. O pensamento   que duvida e a dúvida pensante, o cogito, permanece indubitavelmente certo em toda dúvida. Mas, acrescenta Descartes, se o cogito é indubitável e certo, também é indubitável e certo que eu que penso sou   alguma coisa. [7] Essa certeza fica de pé mesmo se um mau espírito   me engane em tudo o que penso, porque, se me engana, sou. Pode enganar-me quanto quiser, mas não pode fazer com que eu não seja enquanto penso. [8] O cogito, ergo sum (”penso, logo sou”) é, portanto, o incontrastável ponto de partida da “ciência admirável” que Descartes tentava construir.

 Consequências da primazia do “cogito”

A profundidade da crítica com que Descartes procede em sua procura de um ponto de partida indubitável do filosofar começa a produzir consequências já na primeira verdade da filosofia. O sujeito-como-cogito está fora de dúvida. Que é, porém, o sujeito ? Descartes não pode responder que o sujeito se encontra imerso na corporalidade ou envolto no mundo, porque a realidade do corpo e do mundo foi posta entre parênteses por motivos metódicos. À pergunta “o que sou ?” só pode responder com o que não foi posto entre parênteses, e isso é unicamente o pensamento: sum cogitans (”sou um ser pensante”). Descartes aceita de modo explícito essa consequência. Julga que o sujeito, o “eu”, a “substância   pensante”, a que chama “alma  ”, é simplesmente o que ela é, mesmo sem corpo e sem mundo, dos quais é inteiramente independente. [9]

Pelo método da dúvida radical decide-se ao mesmo tempo   qual o objeto do pensamento, do conhecimento ou consciência  . Sou um ser pensante. Mas o que penso ? Impossível a Descartes dizer que o sujeito-como-cogito pensa a realidade de Deus, do mundo ou do corpo, já que pôs entre parênteses a realidade deles. No entanto, o pensamento é necessariamente pensamento-de-alguma-coisa, porque, se não o fosse, seria, como [47] pensamento-do-nada, simplesmente um não-pensar. À pergunta sobre o objeto do pensamento só pode, de novo, responder com o que não foi posto entre parênteses, o que não é senão o pensamento. Sum cogitans cogitationes meas: penso meus próprios pensamentos, sou consciente dos conteúdos de minha consciência, conheço minhas próprias imagens cognitivas, e isso é que sou.

O radicalismo da dúvida metódica não fez com que se perdessem do pensamento Deus, o mundo e o corpo, juntando-lhes tão só a denominação de “pensamento de”. [10] O cogito-com-conteúdo tira daí sua certeza incontrastável. Ainda que a pena com que escrevo, o papel que emprego, a cadeira em que sento e o quarto em que moro não fossem realidades, seria, embora tudo isso não passasse de um sonho, irrefutável que tenho a ideia de pena, a ideia de papel, a ideia de cadeira e a ideia de quarto. [11] O cogito-com-conteúdo é indubitável, e isso é o que sou.

 Critério da verdade e certeza

A certeza inabalável do “penso logo existo” levou Descartes a investigar em que consiste precisamente a certeza, o que era de suma importância para a construção da “ciência admirável”, visto que esta deveria conter em todas as suas fases uma indiscutível verdade e certeza. O filósofo achara já uma proposição caracterizada pela verdade e certeza, i. é, o cogito, ergo sum. [12] Procurando então o que dava à proposição o caráter indubitável, que lhe cabia inegavelmente, chegou à conclusão de que nada mais o assegurava da sua verdade senão o fato de afirmar   clara e distintamente que para pensar se precisa ser. A “clareza  ” e “distinção” do pensamento revelavam-se, pois, a Descartes como o critério da verdade e certeza do que se pensa. Por isso, resolveu também na construção da “ciência admirável” só reconhecer   verdade e certeza naquilo de que tivesse uma ideia “clara” e “distinta”. [13]

[48] Segundo Descartes, a veracidade de Deus garante que são verdadeiras e reais as ideias claras e distintas. O critério da verdade é o conceito claro e distinto, mas esse critério necessita de uma garantia. [14] O filósofo prova a existência de Deus, [15] a fim de poder assegurar que nossas ideias claras e distintas vêm de Deus como Criador. Mas se nossas ideias claras e distintas procedem de Deus e somos obrigados por ele a afirmar que a “clareza” e “distinção” das ideias são um critério da verdade e realidade, Deus simplesmente nos enganaria se assim não fosse. Ora, seria contra a veracidade divina que ele nos enganasse. Logo, Deus é a garantia da verdade e realidade do que se pensa clara e distintamente. [16] Assim sendo, urge apenas estabelecer quais são as ideias “claras” e “distintas”. [17]


Ver online : Existential Phenomenology


[1R. Descartes, Meditationes de prima philosophia, Introduction et notes par Geneviève Lewis, Paris, 1946, p. 18.

[2Meditationes, pp. 18-19.

[3“E para isso não c necessário que eu examine cada uma em particular, o que seria um trabalho infindável: mas, desde que a ruína dos alicerces traz obrigatoriamente consigo a de todo o resto do edifício, dedicar-me-ei antes aos princípios sobre os quais se apoiavam todas as minhas antigas opiniões”. Meditationes, p. 19.

[4Meditationes, pp. 18-19.

[5“E detenho-me nesse pensamento, fico muito espantado de ver tão manifestamente que não há indícios concludentes nem marcas bastante certas pelos quais se possa distinguir claramente o sonho da vigília”. Meditationes, p. 20.

[6Meditationes, pp. 23-24.

[7“Mas, logo após, verifiquei que, enquanto eu queria pensar, desse modo, que tudo é falso, era preciso, sem dúvida, que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade — penso, logo sou — era tão firme e tão segura que as mais extravagantes suposições dos céticos não eram capazes de a abalar, julguei que podia aceitá-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da filosofia, procurado por mim”. Discours, p. 32.

[8Meditationes, p. 25.

[9Discours, pp. 32-33.

[10Merleau-Ponty, Phénoménologie de la Perception, Avant-propos, p. III.

[11“Depois, além disso, tinha ideias de várias coisas sensíveis e corporais; porque, ainda que supusesse sonhar e julgasse ser falso tudo o que via ou imaginava, não podia negar, todavia, que as ideias estivessem verdadeiramente em meu pensamento”. Discours, p. 35.

[12Discours, p. 33.

[13“Julguei poder tomar por regra geral que as coisas concebidas por nós bem clara e distintamente são sempre verdadeiras”. Discours, p. 33.

[14“Até aquilo que há pouco tomei por uma regra, a saber, que as coisas concebidas muito clara e distintamente são sempre verdadeiras, não está garantido senão porque Deus é ou existe, e porque ele é um ser perfeito, e porque tudo o que está em nós provém dele”. Discours, p. 38.

[15Discours, p. 36; Meditationes, pp. 34-52, 62-70.

[16“Mas se não soubéssemos que tudo quanto há em nós de real e de verdadeiro provém de um ser perfeito e infinito, nesse caso, por mais claras e distintas que fossem nossas ideias, não teríamos razão alguma que nos garantisse terem a perfeição de ser verdadeiras”. Discours, p. 39.

[17Discours, p. 33.