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Curso de Filosofia Positiva

Comte (CFP2) – a lei dos três estados

sexta-feira 22 de outubro de 2021

COMTE  , Auguste. Curso de Filosofia Positiva.

II - Para explicar? convenientemente a verdadeira natureza? e o caráter? próprio? da filosofia? positiva, é indispensável ter?, de início?, uma visão? geral? sobre a marcha progressiva do espírito? humano?, considerado em seu conjunto, pois uma concepção? qualquer só pode ser bem conhecida por sua história?.

Estudando, assim, o desenvolvimento? total da inteligência? humana em suas diversas esferas de atividade?, desde seu primeiro? voo mais simples? até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei? fundamental, a que se sujeita por uma necessidade? invariável, e que me parece poder ser solidamente estabelecida, quer na base de provas racionais fornecidas pelo conhecimento? de nossa organização, quer na base de verificações históricas resultantes de um exame? atento do passado?. Essa lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passa sucessivamente por três estados históricos diferentes: estado? teológico ou fictício, estado metafísico? ou abstrato?, estado científico ou positivo?. Em outros termos, o espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente, em cada uma de suas investigações?, três métodos? de filosofar, cujo caráter é essencialmente? diferente e mesmo radicalmente oposto: primeiro, o método teológico, em seguida, o método metafísico, finalmente, o método positivo. Daí três sortes de filosofia, ou de sistemas? gerais de concepções sobre o conjunto de fenômenos, que se excluem mutuamente: a primeira é o ponto? de partida necessário da inteligência humana; a terceira, seu estado fixo e definitivo; a segunda, unicamente destinada a servir de transição.

No estado teológico, o espírito humano, dirigindo essencialmente suas investigações para a natureza íntima dos seres, as causas? primeiras e finais de todos os efeitos que o tocam, numa palavra?, para os conhecimentos absolutos, apresenta os fenômenos como produzidos pela ação? direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as anomalias aparentes do universo?.

No estado metafísico, que no fundo nada? mais é do que simples modificação? geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo?, e concebidas como capazes de engendrar por elas próprias todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste, então, em determinar para cada um uma entidade? correspondente.

Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade? de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem? e o destino? do universo, a conhecer? as causas íntimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso? bem combinado do raciocínio? e da observação, suas leis efetivas, a saber?, suas relações? invariáveis de sucessão? e de similitude. A explicação dos fatos?, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora? em diante na ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo número? o progresso? da ciência? tende cada vez mais a diminuir.

O sistema teológico chegou a mais alta perfeição? de que é suscetível quando substituiu, pela ação providencial de um ser único?, o jogo? variado de numerosas divindades? independentes?, que primitivamente tinham sido imaginadas. Do mesmo modo?, o último? termo? do sistema metafísico consiste em conceber, em lugar de diferentes entidades particulares, uma única grande entidade geral, a natureza, considerada como fonte? exclusiva de todos os fenômenos. Paralelamente, a perfeição do sistema positivo à qual este tende sem cessar, apesar de? ser muito provável? que nunca deva atingi-la, seria poder representar? todos os diversos fenômenos observáveis como casos particulares de um único fato geral, como a gravitação o exemplifica.