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Les concepts scientifiques

Stengers (CS:85) – o conceito científico é constituído durante um processo de confronto coletivo

Invention et pouvoir

sexta-feira 22 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Isabelle Stengers  , Judith Schlanger, Les concepts scientifiques. Invention et pouvoir [Os conceitos científicos. Invenção e poder], La Découverte, 1989, p. 85

      

Não são portanto as normas, mas as controvérsias entre cientistas que decidem o que é a "racionalidade" de uma ciência. A possibilidade de reconhecer   um "poder" relativo aos conceitos científicos remete ao fato de que toda pretensão inovadora foi recebida com ceticismo, escrutada de maneira impiedosa por colegas rivais à cata do ponto fraco em que o candidato inovador transformou seus desejos em "realidade  ", adiantou uma interpretação   ou um raciocínio   arbitrário, não reconheceu o caráter ambíguo ou contestável do "fato experimental" que ele está adiantando. O "poder" de um conceito científico não remete, portanto, a uma qualidade   inerente; se ele é capaz de ultrapassar a particularidade dos fenômenos, é na medida em que aquele ou aqueles que o propunham puderam superar a crítica acirrada daqueles que, eventualmente, serviram-se em vão dessa particularidade para contestar esse poder.

Poder dos conceitos científicos e racionalidade estão, portanto, ligados, mas não o estão sobre o modo do estado   de direito, mas aquele do estado de fato social e histórico. Um conceito não é dotado de poder em virtude   de seu caráter racional, ele é reconhecido como que a articular um procedimento racional porque quem o propunha teve êxito ao vencer o ceticismo de um número   suficiente de outros cientistas, eles mesmos socialmente reconhecidos como "competentes", que questionaram o caráter efetivo do seu poder, tentaram mostrar o caráter ilusório do ponto de vista que ele definia, o caráter arbitrário do juízo   que ele propunha. E este êxito não pode, por si, ser entendido em termos "puros"; ele não é arbitrário visto que uma relação arbitrária entre um conceito e o campo   fenomenal que ele pretende julgar condenará este conceito a cair sob o golpe das críticas, mas ele integra igualmente relações de forças profissionais, antecipações culturais, considerações de prestígio ou possibilidades de desenvolvimentos sociotécnicos frutíferos etc. Em suma, ele depende do julgamento de atores que, com certeza  , têm todo o interesse   em manter a distinção entre ciência e não-ciência, mas que, nem por isso, são "sujeitos purificados", despojados de qualquer relação interessada no mundo onde vivem, passíveis, por aí, de garantirem o caráter "puramente científico" do que eles reconhecerão, se for o caso, como "puramente científico".