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Introdução à fenomenologia existencial

Luijpen (IFE:91-98) – fenomenologia do conhecimento - realismo e idealismo

Capítulo II Fenomenologia do Conhecimento

sexta-feira 22 de outubro de 2021

LUIJPEN  , Wilhelmus Antonius Maria. Introdução à fenomenologia existencial. Tr. Carlos Lopes de Mattos. São Paulo: EDUSP, 1973, p. 91-98

Anteriormente expusemos como se chegou, desde Descartes  , a admitir, qual evidência subentendida, em toda a filosofia?, que o conhecimento? é uma representação, tomando-se o sistema? das ciências naturais? pelo sistema por excelência da representação objetiva. Essa concepção do conhecimento foi também o resultado da epistemologia? de Locke  , embora tenha partido de um ponto? radicalmente diverso do de Descartes  .

 Qualidades? primárias e secundárias

Enquanto para Descartes   os conceitos? são inatos, Locke   recusa-os terminantemente. Segundo ele, a faculdade? cognitiva do homem? é como uma folha em branco, [1] devendo ser toda “escrita?” de fora? a fim? de chegar ao conhecimento. Essa “escritura”, conforme Locke  , acontece exclusivamente pela experiência. [2] Ele distingue as ideias? na mente? e as qualidades no corpo?. Àquilo que a consciência percebe em si mesma chama ideias; estas são produzidas na consciência por certas forças nas coisas?, forças que denomina qualidades. [3] Em seguida, distingue as qualidades primárias e as secundárias. As primárias são as qualidades access?íveis a mais de um sentido?. Assim a forma? de uma maçã, que pode ser percebida pela vista? e pelo tacto. A escolástica falava nesse caso de sensibilia communia. As qualidades secundárias, pelo contrário, chamadas pela escolástica sensibilia própria, são os objetos? próprios de cada sentido, como, digamos, a cor de uma maçã em relação à vista, o odor com referência ao olfato.

Conforme Locke  , as ideias das qualidades primárias são objetivas, e subjetivas as secundárias. A água de certa temperatura pode produzir? na mão de alguém a sensação de calor, enquanto causa na mão de outro o sentimento? de frio. Determinada figura?, porém, nunca pode causar numa pessoa? a ideia? de quadrado, e noutra a de esfera?.

À primeira? vista, essa distinção parece assaz inocente. Não é verdade?, contudo. A discriminação das qualidades entre secundárias e primárias inclui, implícita, uma teoria? da essência do conhecimento humano. Porque, se o conhecimento for concebido como um modo? de existir?, o que quer dizer como a presença imediata do sujeito? cognoscente a uma realidade? presente?, impossível afirmar que as qualidades primárias das coisas são objetivas e as secundárias não. Na presença imediata do sujeito cognoscente a uma maçã, tanto a forma como o odor ou a cor são realidades presentes, ou seja, objetivas. Locke  , no entanto, afirma que só a forma é objetiva e não o odor ou a cor. Que quer significar tal coisa? ?

Isso implica que o conhecimento não será concebido como presença imediata do cognoscente a uma realidade presente. Nesse caso, porém, não resta à teoria do conhecimento humano outra possibilidade? senão considerá-lo como representação puramente passiva de um mundo? “separado” do cognoscente. Nessa concepção o sujeito cognoscente não é entendido como existência, mas como sujeito passivo?, sem mundo, sendo? este concebido como uma coleção de coisas-em-si? (Dinge-an-sich, monde-en-soi), como realidade bruta e, portanto, como um mundo em que o sujeito cognoscente não está envolvido, no qual não vive e com o qual, em princípio, nada? tem a ver. Só então se pode dizer que unicamente as qualidades primárias são objetivas, o que implica que só o quantitativo? é representado “com exatidão”. No que se refere às qualidades secundárias, Locke   julga impossível uma representação exata, [4] porque o cognoscente a estraga com “misturas subjetivas”. [5]

Existem, sem dúvida?, diferenças entre Descartes   e Locke  , mas fundamentalmente ambos concordam no que se refere à definição do conhecimento humano: conhecimento é uma representação-num-sujeito-sem-mundo de um mundo-separado-do-sujeito, e o sistema de representações objetivas é o das ciências naturais, de vez? que só as ciências naturais operam com as categorias? da quantidade?. Os objetos diretos do conhecimento humano são tanto para Descartes   como para Locke   as próprias ideias, e o “problema? crítico” formula?-se então como a pergunta? acerca da existência real? no “mundo exterior” daquelas coisas cujas ideias são julgadas presentes no “mundo interior?”.

 Dupla? possibilidade

Partindo do pensamento? comum? de Descartes   e Locke  , dada a distinção entre? subjetividade? e mundo, fica aberta a possibilidade de várias direções, conforme a ênfase atribuída a um dos membros da oposição. Nesse sentido, podemos distinguir? o idealismo? e o realismo?.

O idealismo ressalta muito a consciência, sua prioridade?, sua espontaneidade?, sua atividade?. Descartes  , contudo, ainda ligara a consciência ao mundo, embora sem conseguir justificar o modo como o fez. O idealismo tomou a si superar? a ligação da consciência com o mundo, eliminando totalmente o último como fonte? do conhecimento. Considera então a percepção do mundo pela consciência, com sua obscuridade e confusão, como uma forma ilegítima de conhecer?, forma a ser superada e substituída pela clareza da ideia auto-suficiente?. No perceber?, a consciência se acha num estado? de alienação de si, ou — o que dá na mesma — no mundo material? as ideias claras e distintas se encontram num estado de alienação. A consciência tem de voltar a si mesma, superando o ser-alienado-de-si-na-matéria. Uma vez voltada a si mesma, a consciência é auto-suficiente, puro? pour-soi (para-si?), capaz de reflexão perfeita?.

Enquanto no idealismo se isola do mundo a consciência, explicitando-a como atividade pura com relação ao conteúdo do conhecimento, dá-se quase o contrário no realismo. Assim como o idealismo se sente impressionado por certo aspecto? da consciência, a saber?, sua espontaneidade, exagerando-o, também o realismo contém uma intuição básica do filosofar, ou seja, a concepção da “sensibilidade” (ao contrário da espontaneidade) , da passividade da consciência. De fato?, é inegável que as realidades se impõem à consciência perceptora, que esta acha a realidade. Eis por que os realistas jamais quiseram ouvir falar? de ideias inatas, sustentando que todo conhecimento provém da experiência da realidade.

Contudo, a realidade do mundo explicita-se de um modo especial, bem como, de resto, a experiência dele. A realidade é para um realista um mundo-em-si; é a realidade bruta, um mundo inumano, enquanto abstrai do homem e de sua consciência perceptora. O realista não vê de modo algum a espontaneidade, a presença ativa da consciência, e pensa estar? autorizado a falar de um mundo sem homem. A consciência, por conseguinte, há de ser entendida como pura passividade, como tabula rasa, folha em branco, uma sensível placa fotográfica, um espelho em que se reflete um mundo perfeitamente subsistente em si. [6] O realismo afirma primeiro um mundo que não seria o termo? do encontro? que constitui o conhecimento, para em seguida assegurar que a consciência está sujeita de um modo completamente passivo à influência da realidade. O mundo é a omnitudo realitatis (realidade total), puramente um espetáculo para a consciência, que o examina com um olhar? sobranceiro (regard survolant), sem ponto de vista, sem se encontrar em certa situação, sem estar ela mesma envolvida no mundo.

Assim, no realismo se realça exclusivamente a realidade do mundo, ao contrário do idealismo, para o qual toda realidade se dissolve sempre mais. Entretanto, nem o realismo lançou uma ponte? entre a consciência e o mundo. De fato, seguindo Locke  , todos os realistas ensinam que o objeto próprio e direto da consciência perceptiva são as próprias impressões perceptivas. Também seria inconcebível que os realistas não pensassem assim, porque a consciência aparece no realismo como separada, isolada da objetividade?, sendo, contudo, o conhecimento chamado? objetivo?. Isso quer dizer que o conhecimento coincide com a realidade isolada do sujeito cognoscente. Para isso, porém, requer-se certa possessão da realidade pelo sujeito. Mas como é possível a posse? de uma realidade distinta daquele que conhece ? [7] A realidade, com efeito?, não está entitativamente, em sua natureza física, no cognoscente. Não obstante, há nele uma imagem? representada, [8] uma species? impressa, gravada pela realidade física e constituindo no sujeito, como imitação ou duplicata da realidade-em-si, o objeto próprio e direto do conhecimento. [9] Jamais conheço, portanto, uma cadeira, uma casa ou uma planta?, mas só a impressão-cadeira, a impressão-casa, a impressão-planta. O realismo admite dogmaticamente, sem base?, de um lado a existência do mundo, e, de outro lado, uma consciência passiva, fechada em si mesma. Não há, pois, ponte alguma entre a consciência e o mundo.

 Teoria científica da percepção

Entrementes, a existência dessas impressões perceptivas redunda num grave? problema. Ao levantar a questão de saber em que sentido o conhecimento do mundo poderia ser dito? objetivo, Descartes   respondeu que só há uma ideia clara e distinta do mundo material?, a saber, a da extensão. Era? o terreno em que se moviam as ciências naturais, e por isso a resposta de Descartes   equivalia a privilegiar a experiência das ciências naturais. O mesmo? se diga de Locke  , para quem só as qualidades primárias das coisas seriam objetivas.

A fim de explicar? a existência de impressões perceptivas, os psicólogos?, por sua vez, deixaram-se levar pela admiração dos resultados científicos, tratando todos os conteúdos da consciência com o mesmo método que o físico empregava para a matéria, ou seja, a redução dela a seus últimos elementos?. O psicólogo, pois, deveria proceder de igual? maneira com os conteúdos mentais. Assim é que uma impressão-casa ou uma impressão-planta precisariam ser decompostas em elementos. Estes, pensava-se, haviam de encontrar-se na sensação elementar, causada por estímulos físicos com força mensurável, que exercem, unilateral e fisicamente, uma causalidade? determinante sobre a sensibilidade. Pela ligação acumulativa das sensações causadas por inúmeros estímulos físicos elementares, — ligação explicada pelo mecanismo? da associação — constrói-se afinal uma impressão-casa ou impressão-planta.

Outros julgaram que essa maneira de falar sobre as sensações ainda não era bastante “científica”. Pensaram em só poder? falar “cientificamente” quando não se referissem mais à percepção, mas a condutos nervosos, processos? cerebrais etc. Julgou-se, pois, que só era possível uma psicologia? da sensação se o psicólogo esquecesse o que lhe interessava propriamente, a fim de dedicar-se mais à fisiologia?.

 Uma árvore florida no prado

Desde Descartes   e Locke   acreditava-se ser objetivo só o mundo-para-o-físico. O passo seguinte foi que também no ato? de perceber o mundo se designava como objetivo unicamente o que as ciências podiam dizer sobre ele.

Mas o que há propriamente a esse? respeito? ? Parece a coisa mais trivial do mundo “pretender” falar, p. ex., de uma árvore florida no prado ! Tratando-se da percepção de uma árvore, a física, a fisiologia e a psicologia podem falar tanto da árvore como da percepção dela. Registam toda espécie de processos físicos, fisiológicos e psicológicos. Com o auxilio de instrumentos conseguem tornar acusticamente perceptíveis os processos cerebrais, gravando seu decurso em curvas. Que sentido tem, porém, querer? falar só assim da percepção de uma árvore florida no prado ? Deve reduzir-se uma árvore florida a um vácuo em que se acham dispersas aqui e ali forças elétricas, movendo-se de um lado para outro com grande velocidade ? [10] Não tem, pois, nenhum sentido dizer que “naturalmente” percebemos uma árvore florida, para depois submetê-la aos ingredientes de várias ciências, deixando-as decidir o que há de real na árvore florida e o que não há. Donde têm as ciências a competência de julgar? a tal respeito ? Em se tratando da percepção de uma árvore, não devemos deixar a árvore ficar onde está ? Ela não é uma série de processos em nosso cérebro, mas uma árvore-no-prado. [11] O que as ciências falam é verdade, e, entretanto, “tudo nelas permanece problemático”.

Mas o que permanece problemático ? A resposta não será difícil. A questão que fica de pé é como os cientistas sabem de que propriamente falam. Quando os cientistas tornam acusticamente sensíveis os processos cerebrais de toda espécie, registrando-os em curvas, e quando falam de cargas elétricas que se movem em várias direções com grande velocidade, não falam nada, se não admitem que afinal tentam falar sobre a percepção de uma árvore em flor ! Na realidade eles sabem do que falam, porque subentendidamente julgam ser a percepção “comum” de uma árvore florida no campo? mais original do que os ingredientes de suas diversas ciências. Nesse caso, porém, não há sentido algum em pretender submeter a árvore florida no campo a um sistema de sentidos descobertos pelas ciências, e também em desejar submeter a própria percepção a ingredientes das ciências. [12]

Agora? compreendemos o que Husserl   tinha em mente ao lançar? sua fenomenologia? como um “método de fundamentar”. Sua “volta às coisas mesmas” [13] equivalia a um brado de retorno à experiência original do mundo original. O mundo-para-o-físico não é o mundo original, mas construído sobre o mundo original. [14] A experiência da ciência natural não é a original, mas fundada na experiência original. [15] Uma fenomenologia do conhecimento deve submeter a uma crítica fundamental os preconceitos tradicionais? a respeito da definição do conhecimento. Este há de ser explicado como ocorre de modo integral. [16] Trata-se “de restituir à experiência seu peso? ontológico”.


Ver online : Existential Phenomenology


[1”Suponhamos que a mente seja, como dissemos, um papel em branco desprovido de letras, sem qualquer ideia: de que maneira chega a tê-las?” J. Locke, op. cit., II, 1, 2.

[2”Donde lhe vêm todos os dados da razão e do conhecimento ? A isso respondo com uma palavra: da experiência, na qual se baseia todo o nosso conhecimento”. J. Locke, ibid.

[3”Tudo o que a mente percebe em si mesma é o objeto imediato de percepção, raciocínio ou entendimento, que chamo de ‘ideia’; e a capacidade de produzir qualquer ideia em nossa mente designo ‘qualidade’ do sujeito em que essa capacidade está”. J. Locke, op. cit., II, 8, 8.

[4”O que eu disse quanto a cores e cheiros pode estender-se também a gostos e sons, bem como a outras análogas qualidades sensíveis, as quais, qualquer que seja a realidade que por engano lhes atribuímos, não são realmente nos próprios objetos outra coisa senão capacidades de produzir em nós várias sensações, e dependem dessas qualidades primárias, i. e., massa, figura, textura e movimento das partes, como já disse”. J. Locke, op. cit., II, 8, 14.

[5”Donde penso que é fácil concluir que as ideias das qualidades primárias dos corpos são semelhantes a eles, e seus modelos existem realmente nos corpos; mas as ideias produzidas em nós por essas qualidades secundárias não têm nenhuma semelhança com eles. Não há nada parecido com as nossas ideias que exista nos próprios corpos”. J. Locke, op. cit., II, 8, 15.

[6”... o realismo tenta explicar o conhecimento por uma ação do mundo sobre a substância pensante...” Sartre, L’Être et le Néant, p. 277.

[7”É primeiramente o sensível, o percebido mesmo, que se instala nas funções de coisa extramental, e o problema é, pois, compreender como uma duplicata ou imitação do real é suscitada no corpo e, depois, no pensamento”. Merleau-Ponty, La Structure du Comportement, p. 205.

[8”Uma vez que um quadro nos faz pensar no que representa, supor-se-á, com fundamento no caso privilegiado dos aparelhos visuais, que os sentidos recebem das coisas reais ‘pequenos quadros’ que excitam a alma a percebê-las. Os ‘simulacros’ epicureus, as ‘espécies intencionais’ e ‘todas essas pequenas imagens que volteiam pelo ar’, trazendo ao corpo o aspecto sensível das coisas, não fazem senão transportar em termos de explicação causal e de operações reais a presença ideal da coisa ao sujeito percipiente, a qual, como vimos, é uma evidência para a consciência ingênua”. Merleau-Ponty, La Structure du Comportement, p. 205.

[9Merleau-Ponty, M., La Structure du Comportement, 3.a ed., Paris, 1953., pp. 205-206.

[10”De repente, abandonamos tudo, quando as ciências (a física, a fisiologia e a psicologia), juntamente com a filosofia científica, com todo o aparato de seus argumentos e provas, explicam que não percebemos propriamente nenhuma árvore, mas na realidade um vácuo, onde se acham dispersas, aqui e ali, forças elétricas, que se movem de um lado para outro com incrível velocidade”. M. Heidegger, Was heisst Denken ?, Tübingen, 1954, p. 18.

[11”Mas onde fica.. . nas ondas cerebrais cientificamente registráveis a árvore florida ? Onde fica o prado ? Onde fica o homem ?” M. Heidegger, op. cit., p. 17.

[12”Por mais afastada que a física moderna esteja da percepção, ela estaria absolutamente ‘no ar’, se, afinal, não nos explicasse que as maçãs caem das árvores, mas nunca tornam a subir, que a água das geleiras desce para o mar, sem jamais subir a encosta que conduz ao cume”. A. de Waelhens, La philosophie et les expériences naturelles, La Haye, 1961, p. 52.

[13Em alemão: “Zurück zu den Sachen selbst”. O texto aqui citado diz: “Não é das Filosofias que deve partir o impulso da investigação, mas, sim, das coisas e dos problemas”. E. Husserl, Philosophie ais strenge Wissenschaft, em: Logos, I (1910-1911), p. 340.

[14”O mundo ‘verdadeiro’, pensado e construído pela ciência, não pode edificar-se sem apoio no mundo do ‘senso comum’, cuja realidade a ciência finge contestar”. A. de Waelhens, op. cit., p. 51,

[15”Não se tem jamais base para interpretar esta experiência espontânea... em função do saber científico, e, menos ainda, para lhe integrar elementos ou realidades que dependem desse saber”. A. de Waelhens, Signification de la phénoménologie, em: Diogène, V (1954), p. 59.

[16”(A fenomenologia) esforça-se por conceber a filosofia como a explicitação da experiência humana integral”. A. de Waelhens, art. cit., p. 60.