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ENSAIOS SOBRE INFORMÁTICA

de Castro: luz e reflexo sobre a bola de cristal (computador)

quinta-feira 21 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

Um reflexo implica em uma superfície de reflexão, que, de acordo com sua capacidade de reflexão e sua forma, ordena e determina a conformação deste reflexo. Ao mesmo tempo, qualquer reflexo é propiciado também por uma luz que parece atravessar a janela ao fundo, por trás da pessoa, conforme indicado pela imagem refletida sobre a bola, vindo a garantir toda esta reflexão. Luz, por sua vez, que ilumina, colore e configura todo o quadro da imagem: metáfora da essência da informática, ordenadora e regente do meio técnico-científico-informacional que abarca, sem ser diretamente visto, todo o mundo circundante, o quadro; e certamente também responde à metafísica de nossa época, como diria Heidegger   (1949/1962), a metafísica da representação do mundo.

Esta luz que dá visibilidade e colorido a tudo, interpretada como a chamada “com-posição” [1], evidencia e legitima, a seu modo, a própria técnica que conforma a tecnologia da informação e da comunicação (TIC), no caso na modalidade computador. Da mesma maneira, o meio técnico-científico-informacional aqui à luz da “com-posição informacional e comunicacional”, imanente ao ápice da técnica moderna, a TIC, evidencia e legitima o engenho de representação (o computador) e o “dar-se propor-se da informática”.

Este meio, por sua vez, dita o “raciocínio”, segundo um "pensar calculativo", que orienta a constituição do “dar-se e propor-se da informática”. Ou seja, a perspectiva de adoção do computador em uma situação calculativa iluminada pela “com-posição”. Este “raciocínio” se apresenta à montante, em consonância com o pensar calculativo, que leva a pessoa a usar uma TIC para sua lida, na medida que considera todo e qualquer raciocínio como passível de uma leitura em termos de um problema de natureza informacional/comunicacional.

Ao longo da aplicação e uso do engenho, o raciocínio se apresenta, por sua vez, transfigurado em desafio metodológico e técnico na constituição do “dar-se e propor-se da informática”. Este desafio toma conta e enreda o ser-no-mundo imediato de tal maneira que este sucumbe toda e qualquer iniciativa de pensar meditativo sobre “o que” está fazendo ou constituindo, à exigência de responder e co-responder, a todo momento, a um raciocínio de tipo “como” fazer para implementar e operar o próprio raciocínio, em termos informacionais-comunicacionais. O engenho de representação, na base da solução informatizada do raciocínio, configura até mesmo “o que” é preciso pensar/calcular e o “como” pensar/calcular de acordo com a linguagem do engenho TIC, seus algoritmos e sua estrutura e organização dos dados simbólicos, etc.

Por fim, à jusante da constituição do “dar-se e propor-se da informática”, o raciocínio se apresenta em termos de tentativas de conciliação dos resultados obtidos, ou seja, em termos de conciliação desta constituição em si mesmo com o discurso que deve enquadrá-los. Sob a mesma luz que ilumina o meio isto se dá de maneira facilitada, e até mesmo garantida. Os resultados obtidos se conformam à produção intelectual geral, na medida que a informatização avança e universaliza o “discurso do método informacional/comunicacional”. Os discursos se conciliam sobre um método único, tendo como eixo norteador “o discurso do método informacional/comunicacional”, paródia moderna do “Discurso do Método” cartesiano. As divergências são aparentes já que os fundamentos são os mesmos.

A problemática que, em grande parte, emana da luz que ilumina o meio, e assim dita a configuração informacional-comunicacional do raciocínio em um “dar-se e propor-se da informática”, deve ser bem analisada. Esta problemática adota a TIC enquanto engenho de representação, re-velando de certa maneira o meio. Ela pode também oferecer indícios das modalidades de atualização das virtualidades da TIC em um específico “dar-se e propor-se da informática”.

A razão de ser do computador, enquanto TIC, ditada pela problemática iluminada pela “com-posição”, é a representação de um problema, sempre enquadrado sob a perspectiva de algo de natureza informacional-comunicacional. Este é um dos riscos maiores no “dar-se e propor-se da informática”: a própria razão de ser do engenho que o constitui se estatui sempre como razão de ser da informática instituída como solução infomacional-comunicacional de todo e qualquer raciocínio.

Ou seja, o raciocínio é metamorfoseado pelo engenho de representação, na claridade do meio, iluminado pela com-posição, que orienta a constituição de qualquer “dar-se e propor-se da informática”, limitando sobremaneira a mundanidade do ser-no-mundo, à quase um “sem-mundo” (uma modalidade "pobre de mundo", como a dos animais, segundo Heidegger  , 1983/2003) na ocupação informacional-comunicacional, em uma aplicação da informática.

No “dar-se e propor-se da informática”, o computador, como engenho de representação, aporta mais do que simples forma. A linguagem e a configuração técnica do computador, são co-responsáveis pela constituição do “dar-se e propor-se”. É preciso não apenas conhecer a “linguagem do computador”, mas conformar o raciocínio a ela. A “racionalidade” já programada nos circuitos (hardware), nas estruturas de dados simbólicos (bases de dados) e nos programas do computador (software), deve ser apropriada por quem quer que dele faça qualquer uso.

O problema científico, administrativo, organizacional, etc., que por vezes só tem sentido no meio iluminado pela com-posição, se define enquanto tal pelas propriedades que adquire em sua formatação informacional/comunicacional. O “discurso do método informacional/comunicacional” tem doravante seu lugar privilegiado na ciência, na economia, no social, no político e até no cultural, enquanto discurso enunciado permanentemente pelas tecnologias da informação e da comunicação que permeiam todas as atividades humanas.

O sonho do método universal se materializa, ou melhor dizendo, se “maquiniza”, se automatiza. A “máquina universal”, cristalização do “método universal”, guia a constituição do “dar-se e propor-se da informática”, reduzindo a mundanidade do Dasein, à condição de um ser-no-mundo na modalidade informacional-comunicacional, e, por conseguinte, em uma condição de "pobre de mundo", fixando em estereótipos os atos do Dasein que ainda assim a “anima”, minimamente pelo acionamento dos algoritmos e dados sob a TIC.

Não há potencialização do ser humano, em sua apropriação das tecnologias da informação e da comunicação, como apregoam os entusiastas da informatização, mas um imensa despontencialização. A reflexão sobre esta despontencialização carece de ser feita com a máxima urgência. O “perigo que salva”, que Heidegger   resgata da poesia de Hölderlin  , ao examinar a questão da técnica, ronda ainda mais forte na era da informação e da comunicação. As gerações que se desenvolvem sob esta despontencialização podem estar diante de uma perda lamentável, de sua essência humana, de seu "pensar", de sua alma.


HEIDEGGER, Martin. Chemins qui ne mènent nulle part. Trad. Wolfgang Brokmeier. Paris: Gallimard, 1949/1962

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1954/2002

HEIDEGGER, Martin. Os Conceitos Fundamentais da Metafísica. Mundo, Finitude, Solidão. Trad. Marcos Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1983/2003


[1Tradução genial de Carneiro Leão do termo Ge-stell, no ensaio de Heidegger "A Questão da Técnica" (1954/2002).