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ENSAIOS SOBRE INFORMÁTICA

de Castro: revendo o dar-se e propor-se da informática

quinta-feira 21 de outubro de 2021

Dentre as surpreendentes litogravuras do artista plástico M. C. Escher, destaca-se aquela denominada “Mão com esfera? reflexiva”. Considerando a importância da analogia?, para o pensar? humano?, como indica Aristóteles, examina-se a seguir o uso? desta litogravura como possível? analogia ao fenômeno? do “dar-se e propor-se? da informática?”. Na “revelação?” desta imagem? espera-se compreender? o Dasein?, enquanto ser-no-mundo? [In-der-Welt-sein?], na ocupação (Besorgen?) do “dar-se e propor-se” informacional-comunicacional, tão em voga nos dias de hoje, nesta chamada Era da informação e da comunicação?.

Desde sua anunciação como “cérebro eletrônico”, o computador mantém conotações que mitificam e alardeiam sua imensa capacidade? de cálculo?, simulação, prospecção, antecipação?, previsão?. Em todas estas formas? o computador demonstra seu poder de mimese? de um nível de racionalidade?. Algumas propagandas abusivas o promovem como uma espécie? de “bola de cristal”, como na imagem do Escher. Uma espécie de artefato? “divinatório”, fundamentado e legitimado na ciência? e na técnica? modernas.

Ao computador, como a bola de cristal com suas associações com as artes mágicas e divinatórias, outorga-se uma qualidade? encantatória e sedutora, que promove ainda mais a ilusão? de finalmente o homem ter? apreendido sob a forma digital?, e assim conquistado e dominado, o que quer que seja que obedeça a racionalidade lógica?; de ter até mesmo capturado sob a “forma digital”, os “espectros” das coisas?, representando-as como dados? simbólicos, significativos apenas em um meio? técnico-científico-informacional que legitima e sustenta “disposições e dispositivos” que mantém este processo? de “informatização do real?”, ou de sua passagem para o “virtual?” como preferem seus apologistas?.

Na litogravura de Escher, além? da bola de cristal, que ocupa o centro da imagem, como as tecnologias da informação e da comunicação (TICs) em nossos dias, sobressai a mão que levanta e sustenta a bola de cristal. Pelo reflexo? da pessoa?, projetado sobre a bola, com o braço estendido e a mão tocando a bola, parece que a mão pertence a esta mesma pessoa, que se encontra refletida na bola. No entanto, o artista consegue criar alguma incerteza, à medida? que na litogravura retrata-se apenas uma mão empunhando uma bola de cristal sobre um fundo em branco; tudo o mais é somente reflexo, simulacro?, representação? sobre esta bola.

O lugar? central que ocupa a informática na atualidade? não poderia ser melhor expressado, pela dimensão? da bola ocupando todo o lado superior? da imagem. E a indicação do papel do humano, nesta ascensão e domínio? da técnica, é ressaltada pela mão que suspende a bola, indicando o ato? humano que a eleva a esta condição? hegemônica em nossa vida?. Graças a esta ascensão e centralidade a bola de cristal, como a informática é capaz de “refletir” tudo a sua volta, toda a atividade? dita informacional-comunicacional do humanidade? moderna.

Ao mesmo tempo?, esse? fundo vazio? e difuso, do escuro para o claro, realça a presença? da mão segurando a bola. Tanto mais pelo fato? que tudo à volta parece se resumir àquilo que se reflete sobre a bola, como se, paradoxalmente, o que doravante vemos, pensamos e até sentimos nos fosse passado pela tela de um computador. O que não é mais estranho para muitos que reduzem sua própria vida à interação? com computadores ou TICs, no escritório e em casa.

Ou seja, temos nesta analogia com a informática, uma litogravura com apenas um fundo, um “nada?”, um braço e uma mão, e uma bola de cristal contendo tudo o mais refletido sobre sua superfície. Excelente paródia da “vida digital” apregoada há anos atrás por Nicholas Negroponte, o então “gênio? do MIT”, que tanto se empenhou por um “mundo digital”, se encarregando inclusive do projeto? de um computador de 100 dólares ao alcance de todo mundo; projeto que até teve o apoio do governo? brasileiro à época?.

Assim como a bola de cristal na imagem, a tecnologia? da informação também representa o que quer que seja, prescindindo de qualquer outra referência? que não ela própria e sua capacidade de “reflexão”; desde que empunhada e elevada à posição? correta diante daquele que a manipula e do mundo que deseja ver “refletido”, ou melhor “virtualizado” ou “digitalizado”.

A mão, elevando e mantendo a bola de cristal diante, indica, no caso da tecnologia da informação, um aspecto? notável desta “manualidade? informacional-comunicacional”: a relação? fundamental entre Dasein e instrumento? tecnológico da informação e da comunicação. Qualquer TIC, como qualquer instrumento conta com o Dasein em que se “anima?”, se é manipulada; mesmo que o faça segundo os requisitos de operação? e de uso, imanentes ao meio de onde a tecnologia emerge. Todavia, há algo peculiar à TIC enquanto um instrumento que guarda uma "intimidade" com o humano, em particular? com seu raciocínio?, sua memória? e seus atos comunicativos.

Como a bola na litogravura, a TIC precisa ser tomada, elevada ao ponto? de utilidade máxima (condição de reflexão ótima, como a da bola na imagem) e sustentada diante de si e do mundo, para que este “dis-positivo? de representação” (“engenho de representação”) possa ser mobilizado por esta “ocupação” [Besorgen?], e venha a se constituir no “dar-se e propor-se da informática”. Este “dar-se e propor-se da informática”, promovido pela iteração desta ocupação, põe em jogo? por sua vez outros elementos? requeridos neste “dar-se e propor-se”. A ocupação é o ponto de partida original do “dar-se e propor-se da informática” e de remetimentos a outros tantos elementos imediatos que se elaboram em uma espécie de coalescência única sob esta iteração.

O “ser-no-mundo” na “ocupação informacional-comunicacional” no uso da TIC, por exemplo? o computador, é o fator “vital” na constituição? do “dar-se da informática”. Este “dar-se”, por sua vez, é constituído pela coalescência de outros entes, cada qual enquanto ser-à-mão (Zuhandenheit) remetidos pela ocupação. Que elementos são estes e como entram na constituição do “dar-se e propor-se da informática”?