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ENSAIOS SOBRE INFORMÁTICA

de Castro: uma analogia ao computador — mão com esfera reflexiva de Escher

quarta-feira 20 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

    

Dentre as diversas figuras de Escher, aquela denominada “Mão   com esfera   reflexiva” pode servir de forma magistral para revelar, segundo a ótica da teoria   aristotélica das quatro causas, interpretada por Heidegger  , “o que é a informática?”. Através   de nossa análise da pretensa analogia   desta imagem com o que chamaremos de “dar-se da informática”, esperamos poder re-velar a técnica da informação, a informática, na concretude [1] do computador, do engenho de representação.

Retomemos, portanto, a imagem do Escher, utilizada como analogia do “dar-se e propor-se da informática”, e experimentemos estabelecer relacionamentos entre as causas aristotélicas e o que na imagem interpretamos como metáforas da informática. De pronto, sobressai na litogravura a mão que levanta e sustenta a bola de cristal. Pelo reflexo da pessoa  , projetado sobre a bola, com o braço estendido e a mão tocando a bola, é possível identificar esta mão como pertencente a esta mesma pessoa, que se encontra refletida na bola. No entanto, o artista consegue criar uma incerteza sobre a proveniência desta mão, na medida que na litogravura o que temos retratado é apenas uma mão empunhando um bola de cristal sobre um fundo em branco, o resto é somente reflexo sobre esta bola.

Esse fundo vazio   e difuso, do escuro para o claro, aparentemente uma parede sem nada, real  ça a presença   da mão segurando a bola. Ainda mais, na medida que o mundo [2] parece se resumir aquilo que se reflete sobre a bola. Ou seja, temos de aparente apenas um fundo, um “nada”, um braço e uma mão, e uma bola de cristal contendo tudo o mais refletido sobre sua superfície. Assim como a bola de cristal na imagem, a informática também se arvora a ser capaz de representar um mundo, prescindindo de qualquer outra referência que não seja ele própria e sua capacidade de reflexão   deste mundo, desde que empunhada e elevada por uma pessoa à posição   justa diante daquele que a vê.

Temos uma mão, portanto, sustentando uma bola, e pelo reflexo na bola de uma pessoa podemos supor (ou não) que esta mão é desta pessoa refletida, que estende sua mão até a bola, levantando-a e sustentando-a diante de si. Esta imagem da pessoa elevando e mantendo a bola de cristal diante de si, surge também como uma bela metáfora da relação fundamental entre pessoa e computador, supostamente representado pela bola de cristal na imagem, como vimos anteriormente. Qualquer computador precisa efetivamente de uma pessoa que o “anime”, mesmo que o faça segundo os requisitos de operação e de uso, dele próprio  , o computador.

Um computador precisa de pessoas que individualmente o tomem, o elevem ao ponto de “utilidade” (condição de reflexão   ótima, como na imagem) e o sustentem, diante de si mesmas, para que a técnica da informação, cristalizada na instrumentalidade do computador, ou seja, o computador enquanto engenho de representação possa vir a ser   mobilizado e assim constituir um efeito ou produto, que doravante denominaremos “dar-se da informática”. O “dar-se da informática” promovido pela interação   pessoa-computador põe em jogo   outros elementos   necessários a este “dar-se”. Como vamos ver a seguir esta interação é o ponto de partida original que elabora a coalescência dos elementos deste “dar-se da informática”.

Deste modo, podemos afirmar   que a pessoa é um fator “vital” na constituição do “dar-se da informática”, e que este “dar-se”, por sua vez, é constituído pela coalescência de outros elementos, “vitalizados” pela pessoa. Tentaremos demonstrar  , ao longo desta análise, como estes elementos entram na constituição deste “dar-se da informática”, fazendo ao mesmo tempo   uma analogia com as causa   aristotélicas.

De início, por sua ação vital, podemos tomar a pessoa como causa efficiens, no sentido aristotélico de arregimentador das demais causas na constituição deste resultado, o “dar-se da informática”. Como o próprio nome indica este “dar-se da informática” é constituído de “dados simbólicos”, que como o reflexo do mundo sobre a bola de cristal da imagem, se oferecem como causa materialis nesta constituição. “Dados simbólicos”, codificados e estruturados de modo a receber   o tratamento lógico de determinados algoritmos instalados nos circuitos e programas do computador. “Algoritmos” estes que, por sua vez, se apresentam como causa formalis, nesta constituição, que ganha desde sua origem   até sua conclusão final, finalidade ou propósito, sob a luz de um meio, que se dispõe como causa finalis.

Mas não vamos fechar tão sumariamente assim nossa investigação. Prossigamos com mais vagar e crítica. Para “se ver” na bola de cristal, juntamente com seu contexto [3] imediato, a pessoa precisa sustentá-la e elevá-la à posição   de ótima reflexão. Ou seja, em nossa analogia, a pessoa precisa buscar a aplicação adequada do computador, encontrar seu posicionamento justo diante de si mesmo  , e, também diante de seu “mundo”, ou de seu contexto imediato, ou de seu “horizonte  ”. Um posicionamento onde seu próprio reflexo e também de seu contexto imediato, se estabeleçam da melhor forma possível para a operação da técnica; em nossa analogia, para a eficácia reflexiva da bola de cristal.

A bola de cristal é, assim como o computador um engenho técnico, ou seja, um engenho constituído segundo certa arte, visando a representação de atos e fatos pela reflexão. Poderíamos dizer que a bola de cristal e o computador são “arte-fatos”. No computador, como na bola, nos refletimos, nos podemos ver refletidos, pessoa e contexto, em todos os sentidos, do literal ao figurativo. No computador, como na bola, nos damos como “fatos técnicos”.

Assim como pessoa e contexto estão refletidos sobre a bola, também no computador estão refletidos ou registrados segundo a forma (causa formalis) ditada por seu estatuto técnico, dados simbólicos (causa materialis) da realidade. Dados simbólicos que me representam e representam meu contexto imediato, de acordo   com regras de codificação e estrutura  ção de dados, pré-estabelecidas pela construção do “arte-fato”. A representação de mim mesmo no computador se dá pela determinação do que se há de representar em termos de meu contexto imediato, e de que modo esta representação pode ser maquinada.

Desta maneira, a combinação e a interação pessoa-bola reafirmam, por meio de uma rica metáfora, interpretada da imagem de Escher, a importância da relação pessoa-computador, indicando de forma muito expressiva a constituição progressiva e interativa do “dar-se da informática”, pela projeção   de uma pessoa e de seu contexto, capturados em termos de dados simbólicos e instruções lógicas, armazenados no computador. O que passa muitas vezes desapercebido em tudo isto é a regência sob a qual “se dá a informática”, aparentemente centrada na pessoa. Quem rege e como rege este “dar-se”, são algumas das questões críticas na constituição da informática, a serem ainda investigadas.

O computador, assim como a bola de cristal, vai pelo seu posicionamento adequado diante da pessoa, refletindo esta mesma pessoa e seu contexto, sempre segundo uma problemática, ou seja, segundo a abordagem, a interpretação   e a tradução de um problema qualquer, a ser pretensamente solucionado, como problema de natureza informacional e comunicacional. Esta interpretação de um problema qualquer, em linguagem ou em termos informacionais e comunicacionais, se dá sob a luz do meio técnico-científico-informacional, assim como o reflexo na bola de cristal e a visão   do mesmo reflexo, se dá graças a luz que emana da janela ao fundo, que pode ser localizada pelo próprio reflexo da pessoa e de seu mundo sobre a bola.

Assim sendo, o “dar-se da informática” se constitui de acordo com os ditames, ou sob a luz do meio técnico-científico-informacional, que hoje em dia, cada vez mais, atribui uma certa “coloração” a todos elementos co-responsáveis de sua constituição. Este meio se conjuga com os demais elementos como causa finalis. Ele orienta, desde o princípio, a constituição do “dar-se da informática”, até porque é imanente ao computador ou ao engenho, da mesma maneira que uma certa capacidade luminescente é imanente a própria bola de cristal, que se constituiu como arte-fato, segundo esta mesma capacidade luminescente.

Apresentam-se assim reunidas as condições para a constituição progressiva de um “dar-se da informática” em qualquer circunstância  , muitas vezes à revelia da causa efficiens, ou seja, da pessoa que teoricamente conduziria e harmonizaria a coalescência de todos os elementos neste “dar-se”. Este é outro aspecto notável da essência da informática: ela se dá sempre como o reflexo de uma pessoa, de sua problemática e de seu contexto imediato, sobre o engenho de representação, o computador. Porém, cabe aqui uma questão: se suspeitamos do efetivo papel da pessoa como causa efficiens, a informática se daria sob a regência de quem ou do que, ou de que outro elemento que arregimenta as demais causas ou dirige a pessoa enquanto causa efficiens?

Com efeito, a informática nos coloca diante de uma reflexão necessária, especialmente ao analisá-la sob a ótica da teoria aristotélica das quatro causas, conforme apresentada por Heidegger. A pessoa, teoricamente como causa efficiens, parece ceder este lugar privilegiado para “algo”. Em nossa leitura metafórica da imagem do Escher, a mão desprendida de tudo que emerge no quadro sustentando a bola, e que na dúvida supomos ser da pessoa, aponta para este algo, ainda indefinido, que assume em parte o papel de causa efficiens.

Entretanto, podemos arriscar uma interpretação, a partir da própria imagem. Um aparente paradoxo parece se insinuar na representação: apenas uma bola e uma mão estão representadas, mas o reflexo de uma pessoa e seu contexto sobre a bola nos levam a crer que esta mão que eleva a bola é a mesma da pessoa refletida sobre ela. Um pequeno reflexo da mão que empunha a bola, na parte inferior   da mesma, parece mesmo nos confirmar esta crença. Mas como se trata de um reflexo sobre a bola podemos estar sendo mais uma vez iludidos...

Todavia, este aparente paradoxo pode ser verificado no “dar-se da informática”. A pessoa se considera condutora e arregimentadora da coalescência dos elementos responsáveis por este “dar-se”. No entanto, algo no estatuto original do engenho, do computador, sobre o qual aparece este “dar-se”, está guiando e ilustrando este “dar-se”, o tempo todo. Do mesmo modo que na bola de cristal, o reflexo da mão sobre parece nos indicar que a pessoa tem o domínio   da situação  , embora a mão que emerge do nada elevando a bola nos quer dizer algo mais.

A natureza reflexiva da bola de cristal, fundada em seu estatuto técnico, operando em sintonia com a luz do meio, parece indicar algo de suma relevância em nossa análise. A bola, em analogia com o computador enquanto engenho de representação, está preparada para responder à luz, ou ao meio, bastando apenas ser tomada e elevada por uma pessoa, que, nesse sentido, se coloca subserviente ao estatuto técnico do arte-fato, para obter o reflexo pretendido. O “dar-se da informática” se constitui por uma ação humana, mas nivelada e ditada por algo que emana do estatuto técnico do computador e do meio que o ilumina.


HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tr. Márcia Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2015


[1A noção de concretude exprime, por sua raiz de origem alquímica, o resultado do crescimento de diversos elementos, postos juntos para alcançar um outro corpo.

[2“Mundo pode ser novamente entendido em sentido ôntico. Nesse caso, é o contexto “em que” uma presença [Dasein] fática “vive” como presença [Dasein], e não o ente que a presença [Dasein] em sua essência não é, mas que pode vir ao seu encontro dentro do mundo. Mundo possui aqui um significado pré-ontologicamente existenciário. Deste sentido, resultam diversas possibilidades: mundo ora indica o mundo “público” do nós, ora o mundo circundante mais próximo (doméstico) e “próprio”. (Heidegger, 2015, pág. 112)

[3“O mundo mais próximo da presença [Dasein] cotidiana é o mundo circundante (Umwelt).” (Heidegger, 2015, pág. 114)