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ENSAIOS SOBRE INFORMÁTICA

de Castro: o dar-se e propor-se da informática, à luz das causas aristotélicas

quarta-feira 20 de outubro de 2021

No caso da informática, apesar do predomínio da concepção instrumental, é necessário encontrar uma relação livre com esta técnica, que nos permita ver através deste véu discursivo? ordinário as formas? essenciais? que se insinuam e conformam sua aparência de técnica da informação. Enquanto meio?, a informática é algo pelo qual alguma coisa? é operada e assim obtida. O efeito?, o resultado obtido com sua aplicação, por outro? lado, indica que ela mesma pode ser considerada como causa?, embora não única. Segundo Heidegger   (1954/2002), o fim?, segundo o qual a natureza? dos meios é determinada, é também visto como causa. Por conseguinte, onde fins são perseguidos e meios utilizados, onde instrumentalidade reina soberana, lá domina a causalidade?.

Em se tratando de causas, nada? melhor do que se resgatar a teoria? aristotélica das quatro causas, como nos convida Heidegger   (ibid.), para daí se iniciar uma nova problematização da técnica. Entretanto, desta feita não apenas seguindo o curso ordinário de entendimento? dessa teoria, mas se indagando de partida sobre o sentido? do termo? “causa”, o porque da determinação de “quatro” causas, e a univocidade? do caráter? causal das mesmas, determinando sua solidariedade?. Para Heidegger  , sem estes questionamentos mais profundos da teoria das causas não podemos avançar? no entendimento da causalidade, da instrumentalidade e da técnica.

O entendimento ordinário da noção de causa é de algo que “opera”, no sentido de “obter resultados”, “alcançar efeitos”. Segundo Aristóteles, quatro causas “operam” na constituição, por exemplo?, de um cálice de prata: a causa materialis?, o material empregado, a prata; a causa formalis, a forma dada a matéria, um cálice; a causa finalis, a finalidade? que determinou esta conjunção de forma e de matéria, na constituição de um cálice sacrificial; e, a causa efficiens, aquela que produziu o efeito final, arregimentando as demais causas, por exemplo, o artesão.

Deste modo?, a causa efficiens, assume a primazia da causalidade, a ponto? mesmo de encobrir a causa finalis. Este sentido predominante de operar, efetuar, da noção causa, não tem, no entanto, nada a ver com o que os gregos denominavam causa: aquilo que responde por outra coisa. As quatro causas aristotélicas seriam os modos, solidários entre si, do “ato? do qual se responde”, segundo Heidegger  .

Tomando o exemplo clássico das quatro causas, na constituição de um cálice de prata, Heidegger   (ibid.) dirige nosso pensar? por novos caminhos, onde a noção de “causa” assume sentidos mais expressivos na interpretação da instrumentalidade e da técnica. A causa materialis e a causa formalis se apresentam como co-responsáveis imediatas pela re-velação material e tangível do cálice de prata. Porém cabe a causa finalis a responsabilidade? pela definição do sentido do cálice, de sua razão de ser, antes e depois de sua constituição.

Quanto a causa efficiens, uma causa com esta qualificação era desconhecida por Aristóteles, que preferia em sua teoria das quatro causas, indicar para esta causa a responsabilidade pela presença e disponibilidade? do cálice constituído, para aquela finalidade. O artesão considera e reúne a seu modo, as três causas mencionadas no “ato do qual se responde”. O artesão é a causa efficiens, enquanto co-responsável pela re-velação do cálice, pela emergência no não-oculto? de um cálice composto? de certa matéria e forma, segundo uma determinada finalidade.


HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1954/2002