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Da essência da informática

de Castro (SEI): engenho de representação – camadas e linguagens

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Qualquer tecnologia? da informação não é uma tabula rasa. Sobre sua base? material?, organizando circuitos lógicos e aritméticos e memória, segundo um sistema? binário, já opera um programa, composto? por algoritmos e dados? simbólicos, que estabelece seu modo? performativo? e sua interface na interação com seu usuário. Sobre esta camada de programação, representando o engenho?, outra camada de programação oferece as diferentes funções de representação do engenho, que o tornam capaz de aplicações diversificadas, no tratamento de textos, no processamento de imagens?, na resolução de problemas? matemáticos e estatísticos.

O computador é programado e tudo que nele é codificado, obedece ao sistema binário, 0 e 1. Do mesmo? modo tudo que entra e sai do computador, passa por esta conformação ao sistema binário. As camadas de programação que lhe configuram como engenho de representação são também codificações em sistema binários, em última instância. O mistério cerca a proximidade? e o distanciamento entre o baixo nível do sistema binário, implementado nos circuitos do computador e o alto nível de um programa de processamento de texto?, de uso? comum? hoje em dia. Enquanto este mi-lieu? permanecer velado e não pensado, a essência da informática, formulada como dis-positivo? de representação, só será uma etiqueta, mas não um significado?, uma re-velação. A funcionalidade expressa em seu poder? de representação encobre e desencobre a essência da informática, assim como o agir? humano? vela e re-vela sua essência humana.

Na proximidade-distanciamento entre os níveis operacionais do engenho, reside também a separação da noção de informação, como sinal? circulando e armazenado no baixo nível operacional da máquina, e como conteúdo com significado reconhecido pela pessoa? ocupada com um instrumento? do engenho, por exemplo?, uma base de dados de população. No primeiro?, a informação é considerada de um ponto? de vista? sintático, exatamente como Shannon a estabeleceu em sua Teoria?. Na segunda, o conteúdo sintático ganha seu significado na “dis-posição” pessoa-com-engenho-de-representação, tratando um problema qualquer segundo o modelo informacional-comunicacional do mesmo.

A sintaxe? pode ser representada em termos matemáticos binários, ou em qualquer outro sistema matemático de codificação. Deste modo, pode ser reconduzida a um tratamento lógico-matemático de um grupo? de símbolos. A sintaxe é estritamente cálculo. Por outro lado, esta constatação parece prevalecer e reforçar? outra mais sutil e question?ável de que o significado pode ser retirado deste mesmo tratamento, desde que se faça um investimento maior no programa e na memória do engenho, e especialmente na mimese? que estes representam da razão e da memória humanas diante de diferentes atos e fatos? da vida?.

Há um processo? em curso que faz com que a representação da linguagem? não seja determinada a partir dela mesma, do falar? um com o outro?, mas sim pela maneira como o computador fala? e calcula isto. A equiparação da linguagem com o computador. Este destino? da Física, que chegou agora? à Física Nuclear, inquieta os pensadores entre os físicos, visto que eles veem que o homem, colocado neste mundo? construído pela Física Nuclear, não tem mais acesso? ao mundo. Agora só continuam acessíveis a calculabilidade e o efeito?. Nesta situação tentamos nos ajudar, por exemplo, com a palestra que Heisenberg   fez sobre Goethe   e as ciências naturais? modernas?. Ali ele procurou algo totalmente insustentável, ou seja, mostrar que aquilo para o que se dirige a Física, isto é, a fórmula universal?, a recondução a um princípio simples?, corresponderia ao fenômeno origin?ário de Goethe   ou às ideias? platônicas. Heisenberg   não reparou que uma fórmula matemática, por mais simples que seja, é algo fundamentalmente diferente do fenômeno originário de Goethe  . Mas o problema de Heisenberg   é ainda maior, ele não consegue colocar? a sua Física em relação vital com o homem. Outros físicos ligam a ciência à fé.

Falar é dizer = mostrar = deixar ver = comunicar e ouvir de modo correspondente, subordinar-se e adaptar-se a uma exigência, corresponder. (Heidegger  , 1987/2001, pág. 228, grifo meu)

“Como o computador fala e calcula isto” é a redução à sintaxe e ao poder operatório do algoritmo? em sua presunção de enunciar? sentido?. Fica-se apenas com o lógico, os símbolos matemáticos e as regras de relação válidas para os entes matemáticos, enquanto representações do que de razão e de memória se pode codificar em algoritmos operando sobre dados simbólicos.

Na Metafísica moderna, a esfera? da interioridade? invisível se determina como a região da presença dos objetos? calculados. Esta esfera, Descartes   a caracterizou como consciência do ego? cogito?.

Quase ao mesmo tempo? em que Descartes  , Pascal   descobre, antítese? da lógica da razão calculante, a lógica do coração. O interior e o invisível da dimensão do coração é não somente mais interior que a interioridade da representação calculante — e, por isto, mais invisível — mas leva ao mesmo tempo mais longe que a região dos simples objetos produtivos. (...) No interior desta consciência incomum reside um espaço intimo no interior do qual, para nós, toda coisa? superou o numérico do cálculo, e pode assim, livre? de limitações, se expandir no todo sem entraves do aberto?. Tal supérfluo sobre-numérico nasce, quanto à sua presença, na interioridade e invisibilidade do coração. (Heidegger  , 1949/1962, pág. 367-368)

Com a informática, impulsionada pela informatização, a questão do sentido do ser proposta por Heidegger   desde “Ser e Tempo?” torna-se ainda mais vital à superação da metafísica. O sentido do ser daquilo que é, o sentido do ser do ente, e agora o sentido do ser do ente informacional é a questão premente desta “Era? da Informação”.

Para Marc Richir   (1990, pág. 9), “o Dasein?, sempre ex-stasiado ao sentido, não dispõe de sentido a seu bel prazer?, não é o mestre? do sentido, este está dissimulado em suas profundezas insondáveis”. Posto deste modo, a determinação do sentido do ser daquilo que é, surge, enquanto determinação, de uma “instituição simbólica”. Entendida em sua generalidade como o conjunto coeso de sistemas simbólicos (línguas, práticas, técnicas e representações) que codificam o ser, o agir, as crenças e o pensar? dos homens, sem que estes decidam; como o “já dado” de antemão (Richir  , 1996, pág. 14).

Sendo? assim é urgente pensar a essência da informática e o processo de informatização, face às mudanças em curso na instituição simbólica contemporânea, quando a técnica moderna alcança seu ápice no engenho de representação. Quando a essência da técnica moderna, a Ge-stell?, vislumbrada por Heidegger   há meio? século atrás, se manifesta em todo sua resplandecência e plenitude? no dar-se e propor-se? da informática em cada situação individual?, e na informatização galopante da humanidade?.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Chemins qui ne mènent nulle part. Trad. Wolfgang Brokmeier. Paris: Gallimard, 1949/1962

HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Trad. Gabriela Arnhold e M. F. de Almeida Prado. Petrópolis: Vozes, 1987/2001

RICHIR, Marc. La crise du sens et la phénoménologie. Grenoble: Millon, 1990

RICHIR, Marc. L’expérience du penser. Phénoménologie, philosophie, mythologie. Grenoble: Millon, 1996