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Da essência da informática

de Castro (SEI): com-posição (Ge-stell) informacional-comunicacional

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Dentro? desse enredo multifacetado da transformação metafórica, as novas formas? de abordagem conceitual e de representação do ente, aportadas pelo engenho?, merecem uma critica radical. Primeiro?, porque descortinam uma perspectiva? sui generis para a compreensão do engenho, e a partir do dar-se e propor-se? da informática. Segundo, porque oferecem à reflexão uma série de problemas? filosóficos, cognitivos e técnicos que se dissimulam, sob dar-se e propor-se.

Segundo Hubert Dreyfus   (sem data?) está em jogo? o velho sonho? cartesiano? de que toda compreensão do ente consiste em formar e usar representações simbólicas, que se acreditava serem constituídas de descrições complexas construídas sobre ideias? primitivas ou elementos?. Kant   adicionou a ideia? importante de que conceitos? implicavam em regras. Frege demonstrou que as regras poderiam ser formalizadas de modo? a serem manipuladas sem intuição nem interpretação. A pesquisa? em informática só fez estender e implementar a proposta, concebendo no caminho? a possibilidade? de que a razão e a memória humanas poderiam ser codificadas como algoritmos e dados simbólicos.

No caso da informática, a abordagem conceitual do ente se assenta sobre os princípios do cognitivismo e a representação do ente, enfim sobre a noção de modelo?. A referência à matematização não concerne tanto o uso? de métodos matemáticos, mas geralmente a construção de modelos aptos à explicar? o ente em uma pluralidade? de situações. Neste sentido?, a representação informacional-comunicacional do ente visa aplicar uma espécie de filtro através de um modelo que “essencializa” o ente, possibilitando mimetizá-lo no que interessa manipulá-lo.

Isso por sua vez? implica uma atitude? do cognitivismo, de não querer? responder questões concernentes ao “que” ou ao “porque” do conhecimento?, sendo? seu único interesse? o “como”. Nas palavras? de Kremer-Marietti (1994, pág. 8): “Quanto à filosofia? cognitiva, que não concerne o ‘que’ do conhecimento, mas seu ‘como’, as questões ’como conhecemos?’, ‘como pensamos?’ visam tanto o estatuto? dos dados sensíveis como aquele das palavras da linguagem? ou dos signos em geral?. Estas questões convêm tanto à sensibilidade? quanto à inteligibilidade? e à atividade?” (apud, Lanciani, sem data).

Se o “como” se torna o único momento? de conhecimento digno de atenção, parece decorrer que só há um interesse pela realização concreta deste “como”, que assim justificaria as conquistas teóricas do cognitivismo. Por conseguinte, o momento da “informática”, onde se criam e se implementam concretamente dis-positivos de representação, é a apoteose da técnica, na concretude dos princípios e modelos cognitivistas. Mais que isto, a informática é a expressão clara e contundente da essência da técnica moderna?, a Ge-stell?.

Mais ainda, e isso é uma das teses principais do cognitivismo, se torna suficientemente claro que o papel? “performativo?” das tecnologias da informação implica na construção de dis-positivos que são a manifestação concreta da compreensão que se pode, ou não, ter? finalmente alcançado e representado de um ato? ou fato? humanos, ou de qualquer outro ente, dentro de um determinado domínio de estudo?: compreender? — na perspectiva cognitivista — equivale à reproduzir, à replicar, à mimetizar.

Assim sendo a tese? capital do cognitivismo, que provém diretamente do pensamento? cibernético, é que a vida? da mente?, do cérebro, e do pensamento, nada? mais é que um cálculo lógico, ou, para qualquer fim? que seja, pode-se representar? como tal. Um ato ou um fato humanos e o comportamento? humano? que os acompanham, podem ser representados por uma matematização massiva.

Esta tese, na fundamentação do cognitivismo [1], nunca é posta em discussão Admite-se apenas especulações sobre como interpretar e aplicar esta tese ao nível operacional, ou seja, ao nível dos algoritmos e estruturas tecnológicas que a concretizam. A tese é sempre confirmada por sua funcionalidade, e por anos de ciência moderna que sempre admitiu a possibilidade de superpor redes matemáticas sobre eventos do mundo? físico, representando-os de modo inquestionável (vide? de Castro (SEI): sistema formal e programa de computador (algoritmos + dados)).

A representação do “com-posto informacional-comunicacional” de razão e de memória humanas relativos? a um ato ou um fato, sob a forma de algoritmos operando sobre dados simbólicos, é um modelo informacional-comunicacional. Na perspectiva da física matemática o modelo guarda certa analogia? e pontos de referência com a realidade? física estudada, enquanto no cognitivismo efetua-se um salto?, por operações sucessivas de abstração. Embora válida a abstração em qualquer modelagem, neste caso o desígnio pragmático da abordagem cognitivista, permite falar? de uma radicalização da modelagem, na medida? em que o modelo é ao mesmo? tempo? absolutamente abstrato? e interessado apenas na capacidade? operativa e produtiva? do que representa.

A abordagem cognitivista da modelagem pode ser entendida como seguindo estrito? senso a metáfora? da “caixa preta”: dados entram na caixa - suas entradas — e após certa elaboração sai um conjunto de dados - suas saídas. Não interessa o que se passa dentro da caixa, importa apenas que as entradas (algoritmos e dados simbólicos) correspondam às representações de atos ou fatos que a caixa vai mimetizar, respondendo com saídas que também representam respostas similares ao comportamento humano diante dos mesmos atos ou fatos representados.

O modelo informacional-comunicacional, enquanto abstração do engenho de representação, comporta quatro? níveis como com-postos, como “bonecas russas”: o submodelo biológico, baseado nos mecanismos neurológicos que sustentam a cognição; o submodelo psicológico, baseado na modelagem dos modos de obtenção, armazenamento? e recuperação de informações; o submodelo computacional, representante da reprodução de maneira algorítmica das faculdades? cognitivas, segundo as premissas de que o cérebro é uma máquina de cálculo e pensar? é calcular; o submodelo matemático, onde se restringe a atuação dos submodelos anteriores garantindo a conversão da competência cognitiva e, a sequência lógica de procedimentos cognitivos. Razão e memória humanas são assim transformadas segundo um modelo capaz de representá-las enquanto fatos e atos virtuais.

Toda a operação de modelagem, de construção de uma representação da razão e da memória é uma operação de simbolização destinada a criar e nomear? objetos? a serem tratados por esta representação. Quer dizer, que cada modelo é dotado de símbolos mais ou menos relacionados aos entes objetivados de atos e de fatos existentes fora do modelo, através de dados simbólicos. O modelo representa assim um universo? com suas leis?, onde o símbolo deve se comportar enquanto operado pelas funções definidas no interior do modelo, da mesma maneira que os entes representados pelos dados simbólicos.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


DREYFUS, Hubert L. From Socrates to Expert Systems: The Limits and Dangers of Calculative Rationality, sem data

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, sem data

VARELA, Francisco, THOMPSON, Evan & ROSCH, Eleanor. L’inscription corporelle de l’esprit. Sciences cognitives et expérience humaine. Paris: Seuil, 1993


[1A intuição central do cognitivismo é que a inteligência – compreendida a humana – se assemelha de tal modo à computação em suas características essenciais que a cognição pode de fato se definir por computações sobre representações simbólicas. (Varela, Thompson & Rosch, 1993, pág. 73)