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Da essência da informática

de Castro (SEI): era da informação — era da representação

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência   da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento   de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

      

A problemática da representação em si e no tocante a representação de fenômenos, através de discursos descritivos, dados quantitativos, modelos matemáticos e estatísticos, cartas e mapas, imagens de satélites, reúne por si só temas de reflexão   que acumularam e ainda acumulam uma imensa bibliografia. Tanto mais pela importância, e, em grande parte, pelo natural modismo da simulação e do virtual, em uma pretensa Era da Informação, que se revela em plena sintonia com a metafísica [1] dos Tempos Modernos, ou, melhor dizendo, com a Weltanschauung moderna.

Na dita qualificação informacional de nossa era, ganha um significado todo especial a problemática da representação. Primeiro, porque demanda uma maior abertura de todos os interessados na informatização da sociedade, para a necessária reflexão   das questões pertinentes à representação digital de qualquer ente  . É da maior importância a crítica de instrumentos como a tecnologia da informação, presumivelmente capaz de modelar e analisar os fenômenos, sob a forma digital.

Segundo, porque na própria aplicação da informática, ou seja, no dar-se e propor-se da informática sobre um engenho de representação, constata-se um estranho jogo   de diferentes representações. Um jogo em grande parte análogo àquele que Foucault   (1966) reconhece em sua analise do quadro Las Meninas, que efetivamente “representa o mundo das representações disposto de maneira ordenada”.

Para Foucault, neste quadro reúnem-se os principais elementos   da representação: o pintor produzindo a representação, o objeto representado e a visão   da representação que tem um espectador   qualquer. No entanto, por um enigmático paradoxo, o quadro também evidencia a impossibilidade de se representar o ato de representação.

Ou seja, o que não é representado é justamente o sujeito unificador e unificante que posiciona e integra esses elementos da representação, os tornando objetos para si mesmo  . Para Foucault, essa experiência é como um prenúncio da episteme   moderna, que irá inventar e fundamentar o homem   como sujeito, e, ao mesmo tempo  , objeto de estudo (Dreyfus   & Rabinow, 1983).

Seguindo essa rica analogia  , apresentada por Foucault, verifica-se que uma aplicação qualquer da informática parece indicar também um deslocamento na fundamentação do sujeito unificador e unificante. No dar-se e propor-se da informática, é concedido ao engenho o lugar privilegiado de sujeito, na constituição da representação final, pois sob seu comando são conjugados os elementos deste dar-se e propor-se, de modo a se ter como resultado a representação que se vê na tela do engenho.

Mas isto é, no mínimo, uma tese provocante, que merece uma argumentação maior, pois poderia, quem sabe, romper em definitivo com a quimera   da “inteligência artificial”, e de seu sustentáculo o engenho de representação, que se re-velaria como sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais. Além de por em questão a pretensa neutralidade dos instrumentos disponibilizados pela Técnica Moderna.

Em termos bem concretos, na aplicação do engenho em um processo de informatização, desponta o modelo informacional digital como paradigma   na construção da representação de um fenômeno. Como um elemento fundamental deste novo Discurso do Método, este modelo informacional, exógeno à qualquer disciplina que dele faça uso, determina uma forma digital para a representação de um fenômeno.

Esse método informacional-comunicacional, que define a forma digital de representação de um fenômeno, ou seja, o que o engenho irá doravante pro-por e dis-por, é uma metáfora do fenômeno visado, segundo alguns autores. Ao se preencher o modelo informacional do engenho, com dados simbólicos referentes a propriedades de qualquer fenômeno, sobre o qual dirigiu-se um olhar objetivante, já se deu partida a uma sequência de traduções que transformam sucessivamente um modelo conceitual em outro, uma metáfora em outra. Razão pela qual, estudiosos do processo cognitivo dão a este método a denominação de “transformação   metafórica” [2].

Ou seja, no simples ato de alimentar com dados um engenho está sendo reproduzida a transformação fundamental de uma sucessão de traduções, que já havia começado no momento da idealização, dentro de uma perspectiva científica, de um modelo do fenômeno visado, passou-se pelos modelos textuais, tabulares e analógicos de configuração de dados simbólicos disponíveis para este modelo ideal, chegando enfim ao modelo informacional digital. Com efeito, neste último fundamenta-se um marco, formalizando bases de dados digitais sobre as quais uma nova sucessão de transformações metafóricas vai poder se realizar, na medida em que se exercitem as funções de analise e síntese do engenho.

Até alcançar este marco fundamental, é importante reconhecer esta série de transformações, que apreendem, segundo um “olhar científico”, o fenômeno sendo investigado, enquadrando-o como uma metáfora de nossa percepção e de nossa idealização do mundo, e conduzindo-o através de sucessivas metáforas, até alcançar o conceito também metafórico, de “modelo do domínio   de pesquisa”. Desta estrutura   conceitual abstrata, em sua escala específica de investigação, procede-se à transformação em outra metáfora, pelo levantamento dos dados simbólicos disponíveis para o fenômeno visado dentro deste domínio; dados geralmente reconhecidos em seus formatos já reduzidos a modelos textuais (textos digitais), modelos tabulares (tabelas de dados) e modelos analógicos (imagens).

Finalmente, a partir desse conjunto   de modelos textuais, tabulares e analógicos da realidade  , pratica-se mais uma transformação em outra metáfora, o modelo informacional digital do engenho, que se configura, por sua vez, nas bases de dados digitais armazenadas no engenho. Chega-se, deste modo, ao ponto onde se reúnem quase todas as condições de possibilidade para o tratamento informacional-comunicacional que habilitará o engenho, a desempenhar sua funcionalidade.

À semelhança   da “produção do pintor”, que é um dos elementos da problemática da representação, conforme indicado por Foucault em sua analise do quadro Las Meninas, toda esta sucessão de transformações segue uma metodologia teleológica. Pari passu, sempre sob o comando do engenho, atuando à semelhança do “sujeito unificador” de toda esta sucessão de transformações metafóricas, vai se chegar a metáfora final, o modelo informacional digital, a partir do qual, através do poder de analise e de representação do engenho, pode ser produzida uma variedade de presentações virtuais, na tela do computador ou em papel.

Funções de programação disponíveis no engenho completam as condições de possibilidade, que assim facultam a última transformação metafórica do modelo informacional digital, em modelo virtual do fenômeno. Modelo virtual capaz de ser apresentado em diferentes imagens digitais, no espaço delimitado do monitor (vídeo) de um micro ou da folha de papel de uma impressora. Imagens estas que podem ser vistas por um espectador, outro elemento da problemática da representação, segundo a interpretação   dada por Foucault do quadro Las Meninas.

Sobre esse modelo virtual é possível se aplicar todas as funções de manipulação, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de imagens de todo o gênero  , sejam em forma de tabelas, gráficos, figuras, etc. As funções disponíveis no engenho de representação regem a interação   usuário-computador, assumindo o papel de sujeito unificador e deixando o usuário como mero espectador, aparentemente ativo pelo simples fato de “comandar” o engenho.

O cálculo desempenhado pelo engenho, como re-presentação, "ficciona" imagens de atos e fatos humanos, tornando-os além de fictícios, manipuláveis. Estas imagens são “ficções calculadas” e como tal são antecipações construídas sem referência integral a qualquer aspecto pré-dado, pois seria impossível açambarcar todas as referências necessárias à conjuntura dos atos e fatos. O cálculo, portanto, revoluciona o estatuto da imagem de um ato ou fato, que deixa de ser o que é para se tornar algoritmo.

É interessante notar que, para alguns teóricos do engenho deveria se instalar pela interface oferecida pelo engenho, uma interação de co-responsabilidade   complexa com o usuário do engenho. Ou seja, seria necessário nesta interação, um nível de competência equivalente entre as partes envolvidas, usuário e engenho, para se acompanhar e controlar o conjunto de transformações metafóricas entre: modelos mentais, na cabeça   da pessoa  ; modelos informacionais digitais, enquanto programas e base digital de dados; e, modelos virtuais, apresentados na interface homem-máquina  .


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


DREYFUS, Hubert L. & RABINOW, P.. Michel Foucault - Beyond Structuralism and Hermeneutics, 2nd edition. Chicago: Chicago University Press, 1982

FOUCAULT, Michel. Les Mots et les Choses. Paris, Gallimard, 1966

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1954/2002

LAKOFF, George & JOHNSON, Michael. Les Métaphores dans la Vie Quotidienne. Paris: Les Editions de Minuit, 1985

LAKOFF, George. Women, Fire, and Dangerous Things: What Categories Reveal about the Mind. Chicago: University of Chicago Press, 1987


[1Em que medida isso surge da metafísica moderna? À medida que se pensa a entidade dos entes enquanto vigência para a representação seguradora. Entidade é agora objetividade. A questão da objetividade, da possibilidade de oposição (a saber, do re-presentar que assegura e calcula) é a questão da possibilidade de conhecer. (Heidegger, 1954/2002, pág. 64)

[2Segundo George Lakoff (1985 e 1987), um dos principais teóricos citados pelos estudiosos, o sistema conceitual, que permite pensar e agir, é de natureza fundamentalmente metafórica, ou seja, a maior parte dos conceitos, que fundamentam o pensamento e a ação, são em grande parte compreendidos em termos de outros conceitos, assim formando uma cadeia que se sustenta, em ultima instância, na corporalidade.