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Da essência da informática

de Castro (SEI): a informática, um engenho de representação

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Martin Heidegger  , em um de seus ensaios, “A época das concepções do mundo?” (1949/1962, pág. 99-146), faz uma longa meditação sobre a essência da Modernidade?, ou dos Tempos Modernos, a partir do questionamento? a respeito? da “concepção moderna do mundo”. A metafísica funda uma era? ao meditar sobre a essência de um ente, estabelecendo uma interpretação determinada do ser e do ente, e, ao mesmo? tempo?, ao decidir por uma acepção da verdade?, fixando o modo? pelo qual ela advém.

Meditando sobre fenômenos característicos de uma era, pode-se entrever aspectos da metafísica que a orienta. No caso da Modernidade, entre os fenômenos onde os “sinais do Tempo” são vestígios seguros da metafísica que a sustenta encontram-se: a ciência, a técnica, a arte?, a cultura?.

Sobre as condições de possibilidade? da ciência e técnica modernas, Heidegger   tem uma tese? fundamental: essas condições são de natureza? metafísica. “A técnica mecanizada é até aqui o prolongamento mais visível da essência da técnica moderna, a qual é idêntica a essência da metafísica moderna” (Heidegger  , 1949/1962, pág 69). Portanto, parece existir? entre engenho? de representação, enquanto natureza da informática, e a metafísica moderna, uma perfeita? sintonia.

Metafísica aqui é tomada por Heidegger   num sentido? bastante particular? e determinado, que só pode ser esclarecido pela totalidade? de sua filosofia?. Segundo as indicações de Jean Ladrière   (sem data?), a metafísica é, para Heidegger  , uma maneira de determinar o ente.

Para Ladrière  , o que Heidegger  , chama de ente [1], em conformidade com toda a tradição filosófica ocidental, é tudo aquilo que de uma maneira ou de outra pode servir de sujeito? ao verbo? ser na terceira pessoa? do singular?. Por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer titulo, pode ingressar no campo? da experiência, quer se trate da percepção, da imaginação, do sentimento?, do pensamento? especulativo, da experiência poética ou da experiência mística.

Heidegger   entende que cada época da história ocidental caracteriza-se por uma metafísica. O que interessa especificamente referenciar aqui é a metafísica que domina a chamada “Modernidade”, isto é, a época da Ciência e da Técnica Modernas. Ou seja, a metafísica que norteou o que se denomina a Modernidade em sua determinação do ser, do ente e da verdade. “Tentando expressar aquilo que universalmente pode ser dito? de todo ente como tal, a metafísica se inaugura como uma lógica do ente, uma teoria? de seus predicados?, de sua essência, de sua entidade?, enfim uma onto-logia” (Taminiaux, 1983, pág. 264).

A metafísica dos Tempos Modernos, imanente? à concepção moderna de mundo, distingue-se daquela que sustentava a concepção medieval de mundo e a concepção antiga de mundo, na medida? em que, nestas últimas, o homem? não representa o mundo, ou melhor, não faz o mundo se apresentar diante de si por meio? de uma representação, princípio dominante na metafísica da Modernidade.

Entendendo representação [2] como uma espécie de imagem? do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger   conclui que só a partir do final da Renascença se constitui efetivamente este tipo? de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto? e do mundo um espetáculo separado.

Vale dizer que para Heidegger  , uma concepção do mundo deve ser entendida como uma “imagem [3] do mundo” (Weltbild), onde o termo? mundo apresenta-se como uma denominação do ente em sua totalidade. O mundo não se reduziria, por conseguinte, ao Cosmos? ou a Natureza, pois a História dele faz parte?. Mesmo assim, Natureza e História se penetrando reciprocamente, não esgotam o Mundo, pois esta designação “entende também e, sobretudo, o Mundo em seu princípio”.

Como indica Heidegger  , o que faz da concepção do mundo dos Tempos Modernos, algo totalmente distinto das concepções do mundo medieval e antiga, é “que o ente se torne ente na e pela representação”. É preciso cautela neste entendimento?. Não foi o Mundo, enquanto imagem concebida que se tornou moderno, deixando de ser medieval. Com efeito?, o que caracteriza e distingue os Tempos Modernos é justamente o Mundo ter? se tornado uma imagem concebida.

Segundo Heidegger   teria havido, em relação ao ente, uma atitude? inteiramente distinta a partir dessa época. Neste sentido, uma metafísica distinta daquela da Idade Média e daquela da Antiguidade grega?. Ele a chama de “metafísica da representação”. Onde o termo representação se baseia numa metáfora, na verdade, numa dupla? metáfora: falamos de representação para caracterizar o estatuto? de um representante, de algo que age em nome? de outro; mas, também falamos de representação para designar a realização efetiva de um espetáculo, onde o espectador é um puro? olhar? abstrato?, e o espetáculo está presente? diante do espectador, como objeto?.

A primeira? metáfora sugere a ideia? de algo que faz às vezes? de outrem ou de outra coisa?: a representação é uma espécie de transferência de atribuição em virtude? da qual uma pessoa pode agir? em nome e lugar de outra, servir de lugar-tenente para a pessoa que ela representa. A segunda metáfora, por sua vez, sugere a ideia de presentificação: a representação expõe diante de um espectador, sob uma forma? concreta, uma situação significante, figuras evocadoras, encadeamentos de ações exemplares; deste modo, torna presentes o destino?, a vida?, o curso do mundo, no que eles têm de visível, mas também em suas significações invisíveis.

Os dois sentidos metafóricos estão ligados: quando o destino se torna presente, por exemplo?, na tragédia, não é em pessoa, mas através de gestos e palavras? que nada? mais fazem que dar uma aparência concreta a situações imaginárias nas quais o espectador pode ver? a ação do destino; e, simetricamente, a representação que faz as vezes de outro tem sua eficácia pela presença real? do representante, que deve se mostrar em pessoa para preencher sua missão. Existe, portanto, na representação a superposição de dois tipos de presentação: por um lado, aquela efetiva e direta de uma pessoa, um ato, um fato?; por outro, aquela indireta, mediatizada pela primeira, de uma realidade? que não pertence ao campo da apreensão direta. A primeira desaparece de alguma forma sob a segunda, ela reduz sua eficácia ao se fazer? instrumento? da segunda, permitindo a realidade representada entrar em uma esfera? de apreensão, se tornando conhecida. Razão pela qual a representação tem uma importância epistemológica imensa.

Do ponto? de vista filosófico, a metáfora da representação é utilizada para significar que o ente é interpretado como um espetáculo dado a um espectador; e aquilo que é assim dado em espetáculo, desempenha o papel? de um substituto da realidade. Mas o espectador, na ocorrência, é de certa forma desvanecente: não é um ente ao lado dos outros, mas um puro olhar. Esse? puro olhar, este puro espectador, é o que a filosofia moderna chamou de "sujeito". Se acompanharmos a evolução da filosofia moderna em suas diferentes peripécias, perceberemos que a noção de sujeito cada vez mais se empobrece. Em Descartes  , o sujeito ainda é uma substância, uma "coisa pensante". Em seguida, porém, o conceito? de sujeito se purifica. O sujeito se torna, por assim dizer, uma pura função do olhar; converte-se nesta pura instância pela qual o mundo é constituído em espetáculo. A realidade se esgota no fato de ser para um sujeito; o ente é constituído em objeto e interpretado como tal. (Ladrière  , sem data, pág.19)


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Chemins qui ne mènent nulle part. Trad. Wolfgang Brokmeier. Paris: Gallimard, 1949/1962

INWOOD, Michael. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002

LADRIÈRE, Jean. Ética e Pensamento Científico. São Paulo: Letras & Letras, sem data.

TAMINIAUX, Jacques. « L’essence vrai de la technique », in Cahier de l’Herne, Heidegger. Paris: Livre de Poche, 1983


[1Trata-se de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, é; de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possui uma forma qualquer de realidade. Ao considerarmos um elemento da realidade como ente, nós o consideramos apenas na medida em que podemos aplicar-lhe este termo simples e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente indeterminado e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a “metafísica” é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. Não se trata, necessariamente, de uma espécie de visão intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um discurso sistemático sobre o ente. Sem dúvida, a compreensão do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A interpretação do ente é, primordialmente, uma atitude prática e efetiva em relação a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafísica é, primordialmente, uma determinação fundamental do ente que se constitui no implícito e que só é tematizada no discurso de modo secundário. (Ladrière, sem data, p. 18)

[2representação e ideia: Stellen é "localizar (algo), pôr de pé". A preposição vor significa "diante, em frente a etc." Portanto, vorstellen é "trazer, mover adiante; pôr algo em frente a algo"; assim "representar, querer dizer, significar" e "introduzir, apresentar uma pessoa" etc. O reflexivo sich vorstellen significa "apresentar-se, introduzir-se" - com um acusativo sich, e "representar para si mesmo, imaginar, conceber" - com um dativo sich. Vorstellung é uma "realização, apresentação, introdução" "ideia, concepção, imaginação etc." Vorstellung também compartilha da ambiguidade de várias palavras com -ung: ela pode significar o ato de "representar (vorstellen)" ou “o que é representado (Vorgestelltes)". (Inwood, 2002, pág. 161)

[3Quanto a palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um Weltbild seria portanto como um quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). (…) Fazer a ideia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. (…) Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa portanto uma ideia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-ideia”. O ente em sua totalidade é portanto tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo homem na representação e na produção. (…) O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger, 1949/1962, pág. 117)