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Da essência da informática

de Castro (SEI): industrialização da memória

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência   da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento   de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

      

Ao longo desta investigação o termo memória foi usado inúmeras vezes. Para que seu sentido fique bem claro e se possa falar de uma “industrialização da memória” é necessário elaborar o termo e a noção  .

Na tradição   ocidental, o termo memória teve o privilégio de ser referência a um titã da mitologia grega, Mnemósina (Mnemosine). Heidegger   recupera seu sentido original ao se referir a um poema de Hölderlin  , e articular este sentido ao pensar  :

Mnemósina, a filha do Céu e da Terra  , se torna, como esposa   de Zeus  , durante nove noites a Mãe   das Musas  . Jogo   e Musica, Dança e Poesia pertencem ao seio de Mnemósina, à Memória. É claro que este termo designa outra coisa que a única faculdade, determinável pela psicologia, de reter o passado   na representação. Memória pensa naquilo que tem de ser pensado. Mas, sendo o nome da Mãe das Musas, “Memória” não significa um pensar qualquer de não importa que pensável. Memória é o recolhimento do pensar sobre aquilo que em tudo desejaria ser já guardado no pensar. Memória é o recolhimento do pensar fiel. Ela protege próximo a ela e ela guarda   consigo aquilo que é necessário pensar de antemão de tudo aquilo que é e que se revela à nós como o ente  , como sendo o recolhimento do ser (als Wesendes, Gewesendes). Memória, a Mãe das Musas! O pensar fiel àquilo que demanda ser pensado é no fundo de onde soa a poesia. A poesia são então as águas, que por vezes escoam às avessas em direção   à fonte  , em direção ao pensar como pensar fiel. Tanto quanto crermos poder alcançar da lógica   um esclarecimento sobre isto que é a poesia, tanto quanto não poderemos nos por a pensar à maneira pela qual toda poesia repousa no pensar fiel. Tudo que encanta na poesia brota do “recolhimento junto a...” que é aquele do pensar fiel. (Heidegger, 1954/1959, pág. 29-30)

Ao longo do ensaio, “O que se chama pensar?”, Heidegger alerta para a perda deste sentido profundo da Memória, em sua articulação com o pensar. No exame   da questão, a partir “daquilo que nos faz mais pensar em nosso tempo   que nos faz pensar é que não pensamos ainda”, Heidegger acompanha a máxima de Nietzsche   “O deserto   cresce...” para concluir que “a desolação é, na cadência máxima, o banimento de Mnemósina” (ibid, pág. 36).

Por conseguinte, poderia ser que aquilo que faz mais pensar fosse alguma coisa do alto, talvez mesmo o mais alto que seja para o homem, se pelo menos o homem habite este ser que ele é enquanto pensa, quer dizer enquanto é requerido pelo pensado, pois, com efeito, sua essência   repousa na Memória. (Heidegger, 1954/1959, pág. 37)

Que distância guarda a Memória da memória informacional-comunicacional tratada nesta investigação, embora a mesma denominação pareça indicar uma proximidade, algo em comum que na Memória se re-vela e na memória se vela de todo. Pois, nesta última, o que se tem é a mimese da Memória, capturada naquilo que tem mais próximo de um registro de símbolos, palavras ou imagens, que representam um ato ou um fato. Uma mimese onde prevalece de pronto a interpretação   da Memória como apenas um depósito de símbolos armazenados na mente  , referentes a atos ou a fatos, e passíveis de serem codificados em dados simbólicos, a serem armazenados em um suplemento artificial de memória, componente da tecnologia da informação.

Esta interpretação da Memória como simples depósito de palavras ou imagens, por sua vez, se aproxima em certo sentido, da memória informacional, guardando, no entanto, certa distancia de todos os esforços realizados desde a Antiguidade   por estabelecer uma “arte da memória”. Pelo contrário, aproxima-se muito da evolução desta arte da memória e de suas técnicas aperfeiçoadas através da Idade Média e da Renascença, como muito bem indica Frances Yates   (1966) em seu clássico, “The Art of Memory”.

Aquilo que se busca pela arte da memória e aquilo que se constrói pela memória informacional-comunicacional é, no primeiro caso, um artifício de Memória, enquanto no segundo, uma memória artificial. A diferença   significativa é que na arte da memória, ainda se guardam os princípios enunciados por Heidegger de uma Memória, essência do homem, e se elaboram técnicas para o pensar, com base em linguagem, imagem, tropos  , figuras e esquemas, que não visam a mimese, mas as condições de possibilidade do pensar, do meditar. Enquanto na memória artificial, só interessa a codificação, o registro, o armazenamento, a ordenação, a classificação, a busca e a recuperação como instrumentos de dis-ponibilidade da memória para sua exploração.

Por memória artificial, na teoria   da informação moderna, entende-se a forma de sua codificação para armazenamento e recuperação, assim como o suporte material, a mídia, onde podem-se inscrever os dados simbólicos como sequências de 0 e 1, de acordo   com o código binário. Esta memória, seja como disco rígido, disquete, CD-ROM, etc., é o suplemento de memória dis-posto pela tecnologia da informação, para armazenamento daquilo que é representável de atos e fatos na Memória. Guarda assim uma analogia   com aquilo que a escrita representou no passado remoto enquanto um suplemento [1].

Toda memória requer um suporte, uma mídia, e desde o passado mais remoto o homem buscou a forma ideal desta mídia, apesar da injunção de “esquecimento   e perda de memória” que em Platão paira como uma ameaça à adoção de diferentes mídias, como suplementos da memória.

Desde o uso da voz e de gestos, como mídias baseadas na intimidade do próprio   corpo, mas capazes de registrar e transmitir a memória individual ou comunal, até a mais completa externalização desta memória através da arte e da escrita, manifesta-se a necessidade   de memorização e transmissão, ou em um único termo, a necessidade de “tradição”.

As mídias foram variadas segundo o “fazimento poético” até se alcançar a mídia padrão dis-posta no registro digital, onde voz, ou imagem, ou escrita são configuradas segundo uma única língua técnica. Na língua franca da informática o suplemento de memória é um traço   já materializado e não apenas uma entidade formal. A lógica do suplemento é “tecno-lógica”.

Todo suplemento é técnica, é prótese, no sentido de “posto-lá-diante”, de “pro-posição  ”, onde a técnica é o que nos é pro-posto, segundo um saber originário, uma mathesis que “nos pro-põe as coisas”. E toda técnica suplementar é um suporte de memória exteriorizando um programa, um hábito  . Mas todo suplemento técnico não é por sua vez uma técnica de memorização.

Como afirma Stiegler   (1994), se o homem também se define pela memória genética e pela memória epigenética, isto quer dizer que o processo de externalização e suplementação da memória, é uma ruptura que indica o advento   de uma terceira memória, epifilogenética. Esta memória essencial ao humano, é técnica, inscrita no instrumental, que se torna transmissível e acumulável, constituindo uma tradição, um patrimônio, uma herança.

A epifilogênese, acumulação recapitulativa, dinâmica e morfogenética (filogênese) da experiência individual (epi), designa a aparição de uma nova relação entre o organismo e seu meio, que é também um novo estado da matéria: se o indivíduo   é uma matéria orgânica e portanto organizada, sua relação ao meio (a matéria em geral, orgânica e inorgânica), quando se trata de um quem, é mediatizada por esta matéria organizada embora inorgânica que é o organon  , o instrumento com seu papel instrutor (seu papel de instrumento), o que. É neste sentido que o que inventa o quem ao mesmo tempo em que é por ele inventado. (Stiegler, 1994, pág. 185)

Por outro lado, para Stiegler, o que antecipa, quer, pode, pensa e conhece, é o quem. O suplemento do quem, sua prótese, é seu que. O quem não é nada sem o que pois estão em relação transdutiva [2] no processo de exteriorização na vida. Há uma dinâmica do que, irredutível a do quem, na medida em que a lógica do suplemento é “tecno-lógica”, mas que depende da dinâmica do quem como poder de antecipação  . Poder este que depende, por sua vez, do “já-aí” [3] do que lhe pro-põe seu passado não vivido. Na “negociação transdutiva dos termos, há co-individuação”.

Se a memória pode industrializar-se é porque é tecno-logicamente sintetizada, e esta síntese é originária, na co-invenção do “quem” e do “que”, na constituição do suplemento requerido diante da limitação  , do esquecimento, da falta, que demanda um suporte, instrumento e meio de conservação e condições de elaboração.

Stiegler avança assim a questão do tempo apreendido a partir da questão “tecno-lógica”, da memória artificial registrada no instrumento, que é sempre uma herança no “já-aí”, imanente, portanto, ao ser-no-mundo. As estruturas epifilogenéticas tornam possíveis o “já-aí” e sua apropriação, em uma “maiêutica instrumental”. “O paradoxo da exteriorização nos fez dizer que o homem e o instrumento se inventam um ao outro, como uma maiêutica tecnológica” (Stiegler, 1994, pág. 183).

Resgatando também o pensamento de Leroi-Gourhan  , Stiegler percorre esta memória em expansão, como verdadeira história da exteriorização da memória, que anuncia o quadro geral de uma história do suplemento do ponto de vista “tecno-lógico”. Por sua leitura do clássico de etnografia “A memória e os ritmos”, Stiegler reconhece os três níveis de memória (genética, epigenética e epifilogenética) como níveis programáticos, ou seja, como gramáticas. E vislumbra uma quarta memória advinda com a tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, atuando como “suporte gramatical” de todas, e base da industrialização da memória.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


DERRIDA, Jacques. A farmácia de Platão. Tr. Rogério da Costa. São Paulo: Iluminuras, 2005

HEIDEGGER, Martin. Qu’appelle-t-on penser ? Trad. Gérard Granel. Paris: PUF, 1954/1959

SIMONDON, Gilbert. Du Mode d’Existence des Objets Techniques. Paris: Aubier, 1989

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994

YATES, Frances. The Art of Memory. London: Penguin, 1966


[1Neste sentido de suplemento já era questionada nos diálogos de Platão: “E o rei replicou: ‘Incomparável mestre em artes, oh, Theuth [...], uma coisa é o homem capaz de trazer à luz a fundação de uma arte, outra aquele que é capaz de apreciar o que esta arte comporta de prejuízo ou utilidade para os homens que deverão fazer uso dela. Neste momento, eis que em tua qualidade de pai dos caracteres da escritura, atribuíste-lhes, por complacência para com eles, todo o contrário de seus verdadeiros efeitos! Pois este conhecimento terá, como resultado, naqueles que o terão adquirido, tornar suas almas esquecidas, uma vez que cessarão de exercer sua memória: depositando, com efeito, sua confiança no escrito, é do fora, graças a marcas externas, e não do dentro e graças a si mesmos, que se rememorarão das coisas. Não é, pois, para a memória, mas para a rememoração que tu descobristes um remédio. Quanto à instrução, é a aparência dela que ofereces a teus alunos, e não a realidade: quando, com efeito, com tua ajuda, eles transbordarem de conhecimentos sem terem recebido ensinamento, parecerão bons para julgar muitas coisas, quando, na maior parte do tempo, estarão privados de todo julgamento; e serão, além disso, insuportáveis, já que terão a aparência de homens instruídos em vez de serem homens instruídos!” (274 e-275 b.), apud Derrida (sem as transliterações do grego), 2005, p. 49)

[2“Entendemos por transdução uma operação, física, biológica, mental, social, pela qual uma atividade se propaga de próximo em próximo no interior de um domínio. fundando esta propagação sobre uma estruturação do domínio operado de lugar em lugar: cada região estrutura constituída serve à região seguinte de princípio e modelo, de gatilho de constituição, de tal maneira que uma modificação estenda-se assim progressivamente ao mesmo tempo que esta operação estruturante. (...) Existe transdução quando existe atividade partindo de um centro do ser, estrutural e funcional, e se estendendo em diversas direções à partir deste centro, como se múltiplas dimensões do ser aparecessem ao redor deste centro; a transdução é aparição correlativa de dimensões e de estruturas em um ser em estado de tensões pré-individuais, quer dizer em um ser que é mais que unidade e mais que identidade, e que ainda não se defasou a relação a si mesmo em dimensões múltiplas.” (Simondon, 1989, pág. 24-25)

[3O que Heidegger denomina o ”já-aí”, constitutivo da temporalidade do Dasein, este passado que não vivi e que no entanto é meu passado, sem o qual eu não teria jamais tido algum passado meu, esta estrutura de herança e de transmissão, que é a fundação da faticidade-mesma pois a tradição pode sempre me ocultar o sentido da origem que no entanto somente ela me transmite, supõe que o fenômeno da vida que é o Dasein se singulariza na história do vivente na medida em que nele, a camada epigenética da vida, longe de se perder com o vivente quando este morre, se conserva e se sedimenta, se lega à sobrevivência e à descendência como um dom assim como uma dívida, quer dizer como um destino [...]. (Stiegler, 1994, pág. 150)