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Da essência da informática

de Castro (SEI): essência do matemático

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Heidegger  , no livro “O Sofista   de Platão” (1992/1997), curso dado? em 1924-1925, levantava também um pensar? sobre a matematização. No par?ágrafo §15 (pág. 69) desta obra?, no qual examina a essência da matemática de acordo? com Aristóteles, começa afirmando que o conhecimento? matemático tem como tema? aquilo que mostra a si mesmo?, por ser resgatado de algo e especificamente daquilo que é imediatamente dado. O matemático é o assim extraído daquilo que mostra a si mesmo de modo? imediato?.

Esta extração, separação ou abstração está conectada com a chora?, lugar?; e, este lugar pertence aos entes eles mesmos. O matemático toma algo de seu próprio lugar, embora o matemático não esteja em um local? (topos?). Em termos modernos? isto soa paradoxal, mas esta separação é para Aristóteles o modo como o matemático ele próprio se torna objetivo?.

Segundo Heidegger  , Aristóteles enfatiza que o objeto? matemático está em “local algum”. O local (topos) deve ser algo, como, por exemplo?, quando temos água em uma jarra e esvaziamos, passando agora? a ser preenchido por ar?, o local, onde havia água e agora tem ar, sempre esteve lá independente? do conteúdo. O não-local não significa o topos como algo separado do que nele se encontra, mas como distinto. O local tem assim certo poder (dynamis?), implicando que o local pertence ao ente ele mesmo; o local constitui precisamente a possibilidade? da presença própria do ente em questão. Deste modo, pode afirmar que cada ente tem seu local.

Em um curso apresentado em 1935-1936, Heidegger   (1962/1971) afirma que a essência das matemáticas (o que se poderia chamar o matemático) evocava na Grécia antiga a li?ção, o ato? de aprender (mathesis?) e o que se poderia aprender e, portanto, ensinar (mathemata).

Isto, por sua vez?, se enquadrava dentro de um contexto amplo onde os gregos distinguiam vários tipos? de realidade?: ta physika (as coisas? que surgem e se produzem delas mesmas); ta poiomena (as coisas instituídas pela mão ou ofício do homem?); ta chremata (as coisas na medida? em que estão em uso?); ta pragmata (as coisas que lidamos para trabalhá-las ou transforma-las), ta mathemata (as coisas na medida em que podemos aprendê-las).

Este aprender significa “apropriar-se o uso de”, ou seja, o aprender é uma forma? de apreender?. Por outro? lado, aprender é sempre aprender a conhecer?, tomar conhecimento. “As mathemata são as coisas na medida em que tomamos conhecimento delas”. Neste sentido?, é que a sentença no portal da Academia? platônica (“que ninguém entre que não seja geômetra”) deve ser entendida, segundo Heidegger  , não como uma exigência de formação em geometria? ou matemáticas, mas como a compreensão “que a condição fundamental de possibilidade de um justo saber? é o saber das pressuposições fundamentais de todo saber, e a atitude? que tal saber sustenta”.

Deste modo, o sentido do aprender é fixado ontologicamente: o aprender é reconhecimento? do ser sempre já conhecido da coisa?. O aprender tem assim o caráter? de antecipação. Recolhemos a possibilidade de conhecer na coisa mesmo. Segundo Milet (2000) a originalidade? de Heidegger   é de incluir todas as ordens de coisas na perspectiva? matemática [1], em particular? as pragmata, onde aprender um instrumento? é se reapropriar de uma familiaridade latente?. “É a reapropriação daquilo que está pré-revelado no saber inerente ao instrumento que torna possível a aprendizagem? de sua natureza?, e com a aprendizagem, a produção, o exercício, e o uso”.

Deste modo, Heidegger   determina a essência da matemática em seis pontos capitais:

  • A matemática é um projeto? que “salta” por cima das coisas em direção a sua “coisidade”; ela abre um espaço de “mostração” das coisas, que é o domínio dos “fatos?”;
  • Nesse projeto é posto também aquilo pelo qual as coisas são dadas, ou seja, as modalidades segundo as quais elas são estimadas de antemão; os axiomas são proposições de fundamento?, princípios;
  • Como axiomática, o projeto matemático, retomando a essência das coisas, traça ao mesmo tempo? seu esboço de construção e sua estrutura? de relações;
  • Ela define? desta maneira um domínio, onde a axiomática se aplica, que é a natureza (conectividade espaço-temporal? dos movimentos nos quais as coisas são determinadas como corpo? e nada? mais);
  • O gênero do projeto matemático demanda primitivamente uma matemática precisa, da mensuração sob distintas formas.

A metafísica moderna nasce do projeto matemático, na medida em que visando o ente em sua totalidade? deve fatalmente buscar seu solo matemático, até encontrar algo inabalável.

A “matemática” só se torna decisiva para a metafísica com a mudança da veritas para o certitudo. A matemática não é contudo aí apenas um modelo? de conhecimento “maximamente rigoroso”. Ao contrário, o elemento matemático — o estar?-certo — caracteriza o modo fundamental do ser enquanto a re-presentacionalidade.

O problema? é que este papel? da matemática precisa fracassar logo que o estar-certo enquanto subjetividade? torna-se mais nítido para si e a autoconsciência, sobretudo enquanto incondicionada, mostra-se como um âmbito, cuja dimensionalidade nunca é alcançada através do elemento “matemático” de um modo sintônico com sua essência. Este elemento permanece na circunscrição da grandeza? e isto significa da consciência imediata e de seu cálculo. (Heidegger  , 2000, pág. 160-161)


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Qu’est-ce qu’une chose?. Paris: Gallimard, 1962/1971

HEIDEGGER, Martin. Que é uma coisa ?. Trad. Carlos Morujão. Lisboa: Edições 70, 1987/1992

HEIDEGGER, Martin. Plato’s Sophist. Trad. Richard Rojcewicz e André Schuwer. Bloomington: Indiana University Press, 1992/1997

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Trad. Marcos Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000


[1A nossa expressão “o matemático” tem sempre dois sentidos: significa, em primeiro lugar, o que se pode aprender do modo já referido e somente desse modo; em segundo lugar, o modo do próprio aprender e do proceder. O matemático é aquilo que há de manifesto nas coisas, em que sempre nos movimentamos e de acordo com o qual as experimentamos como coisas e como coisas de tal gênero. O matemático é a posição-de-fundo em relação às coisas na qual as coisas se nos pro-põem, a partir do modo como já nos foram dadas, têm de ser dadas e devem ser dadas. O matemático é, portanto, o pressuposto fundamental do saber acerca das coisas. (Heidegger, 1987/1992, pág. 81-82)