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Da essência da informática

de Castro (SEI): matematização – ideia mentora da informatização

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Sob a informática direta ou indiretamente associada à explosiva e crescente formalização deste instrumental, subjaz a matemática ou a lógica-matemática, imanente? a esta mediação, como “princípio, meio? e fim?” das ciências.

Encontramos aí um traço eminentemente fundamental da concepção científica moderna?: o conhecimento? científico se move no domínio da representação; contudo, o meio por excelência dessa representação é a matemática. O verdadeiro? paradigma? de todo objeto? é o objeto matemático. O que não deixa de ser bastante paradoxal, porque, no final das contas?, o objeto matemático é construído: não nos é dado? à maneira dos objetos naturais?. É muito difícil a questão de sabermos como exatamente ele é construído. Sobre essa questão, não possuímos ainda, no momento? atual?, uma clareza satisfatória. Em todo caso, é certo que não descobrimos o objeto matemático na percepção: ele é elaborado passo a passo, por atos? específicos de abstração e de tematização. Por outro lado, porém, uma vez? construído, impõe-se a nós como o objeto que existe nele e por ele mesmo?. Foi isto que levou alguns grandes matemáticos a considerar que a realidade? matemática existe em si, fora? do espírito? humano? e a pensar? que, ao construirmos um objeto matemático, nada? mais fazemos, de fato?, senão descrever uma realidade que existe fora de nós e independentemente de nós. (Ladrière  , sem data, pág. 21)

Husserl   (1976), em seu texto? A Crise da humanidade? europeia e a filosofia?, apresenta uma análise fenomenológica do que denomina cientificidade, e particularmente sua significação positivista?, ou seja, redução da ciência apenas ao conhecimento dos fatos. Para ele esta tendência domina todas as ciências e denota uma crise profunda do estatuto? da cientificidade. Em suas palavras?: “o positivismo decapita a filosofia” (pág. 7-8), e “puras ciências positivas fazem homens puramente positivos”. O positivismo [1] promove o fetichismo? do fato e não permite que se questione o olhar? sobre os fatos, ou seja, o ato ou o vivido? pelo qual temos acesso? aos fatos.

Segundo Kolakowsky (1976, pág. 10), “o positivismo é uma posição filosófica relativa ao saber? humano, (…) constitui um conjunto de regras e de critérios de juízo sobre o conhecimento humano”. Entre estas regras para enunciação de juízos válidos sobre o mundo?, a primeira? é a do “fenomenalismo?”: não há diferença real? entre a ‘essência’ e o ‘fenômeno’; temos o direito? de registrar o que se manifesta efetivamente na experiência, porém as opiniões sobre substância, formas? substanciais, qualidades? ocultas sob a experiência não são dignas de fé. O corolário desta regra? é o “nominalismo?”: regra pela qual fica interdito supor? que um saber qualquer, formulado em termos gerais, tenha na realidade outros equivalentes que os objetos concretos singulares.

“Um fato é um fato”, eis a máxima positivista. O que leva seus seguidores a enfatizar apenas o fato com tal, deixando de lado o modo? de acesso ao fato, o como do olhar que constitui o fato. Deste modo um positivista não admite refletir sobre seus atos vividos e tende a fazer? abstração de sua subjetividade? e do sentido? que impõe a qualquer fato. Deixando de lado sua constituição do fato, portanto o sentido que este tem para si, o positivista deixa de lado também os problemas? vitais, o que leva Husserl   a afirmar: “esta ciência não tem nada a nos dizer (…). As questões que exclui por princípio são precisamente as questões que são as mais relevantes para nossa época infeliz, para uma humanidade abandonada aos desarranjos de seu destino?: estas são as questões que tratam sobre o sentido ou a ausência de sentido de toda esta exist?ência humana” (Husserl  , 1976, pág. 10).

Para Husserl  , o risco? positivista que incorrem as ciências tem uma dupla? consequência. Por um lado, a atenção do cientista é polarizada sobre o estudo? do fato, por outro lado, este privilégio acordado à pura observação dos fatos leva à cegueira? da instância subjetiva ela mesma. Este desinteresse do cientista por sua própria subjetividade, em ação na démarche científica que adota, é a condição maior para a crise atual das ciências. Ou seja, a falta? de reflexividade na pesquisa? científica, a não atenção dada ao “enigma da subjetividade” que nela opera, leva ao “objetivismo?”, sinônimo de positivismo, segundo Husserl  .

Esse? objetivismo nasce com Galileu   e a matematização da natureza, de acordo? com Husserl  . As geometrias platônicas e euclidianas conservam uma ligação estreita com o sensível no modo como figuram, de maneira geométrica, os números compreendidos como ideias?, e se aplicam assim a produzir? uma cópia sensível das ideias inteligíveis. Ao contrário, a geometria? do século XVII se constitui como uma disciplina? bem mais abstrata?. Ela deseja romper deliberadamente com o referente? sensível. Se nomeando “geometria analítica”, ela adota a linguagem? abstrata da álgebra. Desde então, a natureza, idealizada em fórmulas algébricas, se torna uma “multiplicidade? matemática”, ou seja, um domínio possível do conhecimento, regido por uma teoria? que o determina exaustivamente quanto a sua forma, segundo Husserl  .

Rompidas suas ligações com a realidade sensível, esta nova geometria algebrizada se elabora como um domínio formal? autônomo, tendo suas regras e seus procedimentos próprios. Matematizar a natureza é, por conseguinte, torná-la um objeto abstrato regido por leis? universais?, e desconectado da diversidade? do sensível e do individual?. Assim estabelecem-se as condições para nascimento de uma “física matemática”, onde a natureza, physis? grega?, recebe o nome? de física e todo um novo sentido. Com a matematização da natureza, ou seja, com o início da física como disciplina científica nasce também um tipo? de espírito focalizado sobre seu objeto, a natureza física, consequentemente cego em relação a si mesmo enquanto sujeito? operante.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. History of the Concept of Time. Trad. Theodore Kisiel. Bloomington: Indiana University Press, 1979/1985

HUSSERL, Edmund. La crise des sciences européennes et la phénoménologie transcendantale. Paris: Gallimard, 1976

KOLAKOWSKY, Leszek. La philosophie positiviste. Paris: Denoël, 1976

LADRIÈRE, Jean. Os Desafios da Racionalidade. Petrópolis: Vozes, 1979


[1Todas as disciplinas científicas estão sob o domínio do positivismo, a tendência para o positivismo, onde “positivo” é compreendido em termos de fatos, e fatos são compreendidos em termos de uma interpretação particular da realidade. Fatos são fatos apenas se podem ser enumerados, pesados, medidos, e experimentalmente determinados. (Heidegger, 1979/1985, pág. 15)