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Da essência da informática

de Castro (SEI): cibernética – arqué da informatização

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência   da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento   de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

      

No olho do furacão da informatização que varre atualmente a cultura ocidental repousa uma Scienza Nuova, a cibernética. A exemplo da física-matemática que dominou a Modernidade esta nova ciência lança um novo Discurso do Método, como afirma Gilbert Simondon   (1958, pág. 104). Desde o final dos anos 1940 ela vem se afirmando como uma filosofia, uma epistemologia e uma metodologia para as demais ciências.

Não é necessário ser profeta   para reconhecer   que as modernas ciências que estão se instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética.

Esta ciência corresponde à determinação do homem   como ser ligado à práxis na sociedade. Pois ela é a teoria   que permite o controle de todo o planejamento possível e de toda organização do trabalho   humano. A cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens. As artes tornam-se instrumentos controlados e controladores da informação.

O desdobramento da Filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da Filosofia. Na época presente   a Filosofia chega a seu estágio terminal. Ela encontrou seu lugar no caráter científico com que a humanidade se realiza na práxis social. O caráter específico desta cientificidade é de natureza cibernética, quer dizer técnica. Provavelmente desaparecerá a necessidade   de questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no Planeta   e o posto que o homem nele ocupa.

As ciências interpretarão tudo o que em sua estrutura   ainda lembra a sua origem   na Filosofia, segundo as regras de ciência, isto é, sob o ponto de vista da técnica. As categorias das quais cada ciência depende para a articulação e delimitação da área de seu objeto, a compreendem de maneira instrumental, sob a forma de hipóteses de trabalho.

A verdade   destas hipóteses de trabalho não será apenas medida nos efeitos que sua aplicação traz para o progresso da pesquisa. A verdade científica é identificada com a eficiência destes efeitos.

Aquilo que a Filosofia, no transcurso de sua história, tentou em etapas, e mesmo nestas de maneira insuficiente, isto é, expor as ontologias das diversas regiões do ente   (natureza, história, direito, arte), as ciências o assumem como tarefa sua. Seu interesse   dirige-se para a teoria dos, em cada caso necessários, conceitos estruturais do campo   de objetividade aí integrado.

"Teoria" significa agora: suposição de categorias a que se reconhece apenas uma função cibernética, sendo-lhe negado todo sentido ontológico. Passa a imperar o elemento   racional e os modelos próprios do pensamento   que apenas representa e calcula. (Heidegger  , 1999, pág. 97)

Essa longa citação de uma das raras, mas profunda referência, feita por Heidegger, a emergente cibernética dos anos 50, é necessária para dar o tom desta breve análise de um dos fundamentos da informática. A própria noção   de informação herdou da cibernética todas as conotações singulares que enfatiza através da tecnologia que a sustenta e dissemina, nos termos desta apropriação.

A cibernética não foi apenas uma mutação na história das técnicas, uma invenção. Trata-se de teoria aplicada “às máquinas e aos seres vivos”, conforme proposta por Wiener, que se dispõe a renovar a concepção geral da natureza, do animal  , do homem e da tecnologia, a partir de modelos operatórios. A cibernética representa, filosoficamente um duplo movimento   de tecnicização da natureza e de naturalização da técnica que constitui, de fato, um pensar experimental nutrido por modelos, simuladores suscetíveis de serem codificados e integrados a uma lógica   tecnológica unitária (Beaune  , 1980, pág. 308).

Neste somatório de influências que governou o destino da informática coube ainda à cibernética uma contribuição ímpar: na concepção dos primeiros computadores, na fundação das bases da inteligência artificial, na introdução dos conceitos e do formalismo lógico-matemático nas neurociências, e mais que tudo, na disseminação de um complexo   de ideias, conjugando as noções de sistemas, de informação, de comunicação e de cálculo (Dupuy  , 1995).

O movimento fundador da Cibernética nasceu em 1943, com a publicação de dois   artigos clássicos. Primeiro, o artigo Comportamento  , meta e teleologia, do matemático Norbert Wiener  , do fisiologista Arturo Rosenbluth e do engenheiro eletrônico Julian Bigelow, sobre uma possível base de analogia   entre os seres vivos e as máquinas, a partir da qual seria possível explicar o comportamento animal pela causalidade circular que religa os organismos e seu ambiente (o famoso feed-back). O artigo foi consagrado pois se acreditava então, que finalmente o inextricável problema da teleologia do ser vivo começava a ter uma solução   mecanicista.

A cibernética, tal como se vê antecipada no artigo de 1943, trata inegavelmente seus objetos de estudo como dispositivos que transformam mensagens de entrada (input) em mensagens de saída (output). Esta é uma definição que encontraremos ainda com todas as letras na obra tardia de Wiener, God   and Golem, Inc. (1964). O que a impede, porém, de se reduzir a um mero behaviorismo que obedeça a um esquema estímulo-resposta   é precisamente a noção de feedback, retro-alimentação. Graças a esse dispositivo, o objeto é capaz de mudar   a relação   que estabeleceu entre input e output, entre estímulo e resposta. Para o observador que optou por permanecer no exterior   do objeto, tudo se passa como se este tivesse a capacidade de modificar a sua resposta a um estímulo dado, e isto a fim de alcançar determinado objetivo. Tudo se passa, pois, aparentemente, como se o objeto fosse capaz de perseguir   uma finalidade dada, aprendendo a ajustar seu comportamento em vista dos erros que comete. (Dupuy, 1995, pág. 47)

A tecnologia da informação é, portanto, uma máquina   cibernética, um conjunto   auto-regulado de instrumentos de representação, composto por uma “memória” (um órgão interno de armazenamento), um “cérebro  ” (um órgão interno de cálculo e decisão  ) e uma interface de periféricos de entrada e saída de informações. Esta é a forma que a tecnologia da informação adotou desde o primeiro computador, na trilha dos trabalhos de Turing  , Wiener, Shannon, McCulloch e von Neumann  .

A tecnologia da informação é uma máquina de pensar “à imagem” do homem, mas não “a sua semelhança  ”. Pois, segundo este texto fundador na sua constituição, segue o princípio de deixar de lado o conteúdo, a natureza humana, pela abstração   da “forma racionalizante” desta natureza. Apreende-se esta forma racionalizante em um dis-positivo de representação, observando o homem em seu exercício mais elementar da razão, como uma “caixa preta” de entrada e saída de mensagens. Esta é a conclusão do artigo de “que uma análise comportamental uniforme é aplicável ao mesmo tempo   às máquinas e aos organismos vivos”.

O segundo artigo foi Um cálculo das ideias imanente à atividade   nervosa, do neuropsiquiatra Warren McCulloch e do matemático Walter Pitts. No qual se identifica o sistema nervoso a uma máquina lógica e se demonstra que uma rede de neurônios formais (simplificados) possui o mesmo poder de cálculo que uma “máquina universal  ”. Sua ambição filosófica é, portanto, considerável, já que orienta a busca de uma base neurológica para a razão e a memória humanas, fundamentando uma “neurologia da mente  ”. Acredita-se que estão aí fixados os primeiros critérios que doravante irão determinar o estudo do processo cognitivo.

Esse artigo de McCulloch e Pitts radicaliza o procedimento de Wiener e de seus colaboradores em dois planos. Enquanto estes últimos tratam a mente como uma caixa-preta da qual interessa a funcionalidade, McCulloch parte em busca dos mecanismos que encarnam a mente.

Sem dúvida, o "conteúdo" daquilo mesmo que é capaz de comportamento é agora considerado pertencendo à esfera   de um procedimento científico, mas esse conteúdo se descreve a si próprio   em termos de comportamentos de unidades menores, no "interior" das quais não se pode pensar em penetrar e que só são consideradas em suas relações com seu ambiente, ou seja, como operadores que transformam inputs em outputs: os neurônios. Portanto, não se deve falar de oposição, mas sim de radicalização, pois a abordagem comportamental e comunicacional é transposta para um nível lógico inferior  . (Dupuy, 1995, pág. 53)

"Quanto mais aprendemos sobre os organismos, mais somos levados a concluir que eles não são simplesmente análogos às máquinas, mas são máquinas". Por esta citação de McCulloch pode-se sentir uma radicalização da proposta cibernética enunciada por Wiener. Uma radicalização que soou forte   no impulso da cibernética enquanto princípio filosófico da “Era da Informação”.

Para Herbert Simon, um dos teóricos da informática moderna, somos máquinas de Turing, pois esta máquina formal pode alcançar os mesmo resultados que toda démarche intelectual rigorosa. A tecnologia da informação é assim, em seu berço teórico, uma maquina universal imitando o cérebro humano ao nível das operações formais e das funções de tratamento da informação, ou seja, simulando de modo isomórfico operações lógico-matemáticas de processamento de símbolos.

Em 1955, Allen Newell e Herbert Simon, trabalhando na Rand Corporation, acreditaram estar estabelecendo as provas definitivas de que os computadores poderiam fazer muito mais do que computar. Demonstraram que computadores são sistemas de processamento de símbolos, cujos símbolos tratados poderiam ser qualquer coisa, inclusive propriedades dos entes, dos atos e fatos humanos, enfim do mundo. E cujos programas seriam algoritmos para manipular estes mesmos símbolos, permitindo anima  -los e relaciona-los entre si. Deste modo, poderiam ser usados como engenhos capazes de emular certos aspectos importantes da inteligência humana.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


BEAUNE, Jean-Claude. L’automate et ses mobiles. Paris: Flammarion, 1980

DUPUY, Jean-Pierre. Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo: UNESP, 1995

HEIDEGGER, Martin. Heidegger. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Nova Cultural, 1999

SIMONDON, Gilbert. Du Mode d’Existence des Objets Techniques. Paris: Aubier, 1958/1989