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Da essência da informática

de Castro (SEI): informação — fluído da informatização

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Os teóricos da informática fazem uma distinção entre? dado?, informação, conhecimento? e até incluem em suas elucubrações a sabedoria?. Imaginam uma espécie de escala do mais elementar, o dado, ao mais complexo?, a sabedoria. Cada escalão parece ter? uma substancialidade?, que depende do simples? acumulo quantitativo? da substância do escalão abaixo, e de uma intensificação das relações internas desta substância, neste acumulo.

Evidentemente esta escala só foi conjecturada no século XX, quando os termos e as noções de dado e de informação, passaram a ser utilizados com frequência na literatura científica, ganhando a partir desta uma vulgarização inigualável, a ponto? de serem considerados termos dominantes? ultimamente. Dominantes e supostamente entendidos por todos, desde sua elaboração científica no domínio da telecomunicação.

Sigamos o caminho? histórico das bases da informática moderna?, conforme proposto por Dupuy   (1995).

Após sustentar em 1938, uma tese? sobre a aplicação da álgebra de Boole , aos circuitos de comutação elétrica, o engenheiro e matemático Claude Shannon, juntamente com seu colega dos laboratórios Bell nos Estados Unidos, Warren Weaver, formulou, ao longo dos anos 40, a chamada “Teoria? da Informação”.

Nesta teoria, o termo? informação era? conceituado como o indicador da organização em uma mensagem?, sem qualquer conotação com o significado? da mesma mensagem; ou seja, a partir de conceitos? aportados e adaptados da Termodinâmica, se definia informação, pela primeira? vez?, como um termo científico, estabelecendo ainda, através de fórmulas estatísticas e matemáticas, como poderia ser medida?.

A teoria de Shannon, prescrita face a um problema? comunicacional que preocupava a emergente indústria das telecomunicações, determinou, além de seu campo? imediato? de aplicação, toda uma conceituação e nomenclatura, ao fixar componentes em um modelo? voltado para o estudo? de mensagens transitando em uma estrutura? comunicacional, e promoveu desde então uma visão materialista e mecanicista da informação.

Mantido o modelo de Shannon, mas retirado qualquer suporte? material? para o canal? de comunicação, por onde trafegam as mensagens entre emissor e receptor?, passou a ser também celebrado um novo modelo, mais audacioso, no qual sujeito? e objeto? podem assumir respectivamente o lugar de receptor e de emissor, e a informação, além de designar uma espécie de fluxo místico entre ambos, se constitui em ente informacional, representando algo do receptor ou do emissor.

Este novo modelo, endossando e endossado por movimentos históricos, como o capitalismo, o cientificismo e o tecnicismo?, fomenta a tradução de qualquer objeto sens?ível ou não, que seja de interesse?, de estudo, de pesquisa?, de gestão ou de possível comercialização, em um conjunto suficiente de dados que o representem sob a forma? de dados simbólicos, capazes de serem capturados, armazenados, processados e distribuídos, segundo procedimentos operacionais, também passíveis de serem codificados como algoritmos.

Por esta arriscada senda, desbravada por anos de especulação científica (lógico-matemática, teoria da informação, cibernética, teoria da complexidade) e de práxis (em pesquisa, em organização e em informatização), avança o processo? de informatização: os objetos se desvanecem sob mediações informacionais-comunicacionais, e passam a ter sua “sombra?” digital?, computacional, tratada e manipulada por meio de sistemas? formais, formulados em algoritmos; ou seja, o mundo? se transfigura em dados simbólicos operados por instrumentos informacionais-comunicacionais. Progressivamente, os suportes e os produtos do trabalho? humano? são desconstruídos-reconstruídos segundo seus atributos informacionais-comunicacionais.

Cego?, portanto, e cego de cegueira radical, é quem, vendo apenas formas processadas, não pode perceber? a mesma realização superando as dicotomias pré-cibernéticas nas próprias diferenças cibernéticas. Trata-se do tipo? de cegueira que o efeito? de distorção da informatização espalha por toda parte? nas sociedades informatizadas. De tanto processamento automático já não se consegue ver? os processos essenciais?. Tudo perde substância e profundidade, tudo se dimensiona em formas com funções politônicas, sejam binárias, sejam terciárias. A funcionalidade se torna um destino? histórico de toda a humanidade?. (Carneiro Leão  , 1992, pág. 97)

Na década de 50, o termo e noção de informação ganhou um novo impulso?, com a comercialização dos primeiros computadores de “uso? geral?” e a aparente? necessidade? de formalização de duas? ciências: da Computação e da Informação. A Ciência da Informação visava superar? as limitações originais da teoria de Shannon, e fundar um campo epistemológico tendo como objeto a “informação”, e um elenco? de questões sobre ela, tais como: uso; fontes; formas de extração, de representação e de processamento; atributos e sua mensuração; valor? e proteção (Stamper, 1985). Enquanto a Ciência da Computação reunia as formula?ções de calculabilidade, máquina de Turing  , etc. em um conjunto de princípios de constituição básica da tecnologia? da informação emergente.

A tendência a reificação da informação, adotada e celebrada também por biólogos? e cientistas? sociais, estatísticos e administradores, além de tornar o termo um equivalente de código ou dado simbólico, deixou de lado definitivamente, o significado original do termo informação. Segundo sua etimologia, o verbo? informar, de origem? latina, foi mais usado a partir do século XIV, e abrigou desde sua origem duas famílias de sentidos: primeiro, o sentido mais primordial, entre os gregos, de “dar uma forma a uma matéria”; passando a seguir, com a cultura? latina, a significar também “dar conhecimento de alguma coisa? a alguém”, à semelhança de dar forma ao conhecimento de alguém, como se conhecimento fosse uma substância, uma matéria. Este último sentido foi, por sua vez, privilegiado desde Descartes   (Lalande  , 1993).

Ao se tomar a informação como uma propriedade? intrínseca do dado simbólico, e este último, como o formato codificado de um atributo? da representação ideal? de um objeto qualquer, valoriza-se sobremodo a possibilidade? de coleta, captura, armazenamento? e acumulação de representações digitais dos entes que nos cercam, a organização de seus atributos em modelos de dados, o seu processamento e transformação em diferentes formas de apresentação, e a sua distribuição e comercialização, como um bem material.

A informação obtida na interação com tecnologias da informação é, portanto, uma espécie de enunciado? sobre algo, sobre uma coisa; um “dito? em direção à coisa” em uma modalidade? digital; uma categoria? no modo informacional-comunicacional. Este enunciado virtual? se dá pela prévia formulação algorítmica do sistema de programação de uma tecnologia da informação, na dis-posição dos dados simbólicos, armazenados na tecnologia e que representariam os atributos de algo sob uma codificação digital. Por conseguinte, este “dito em direção à coisa” só pode se realizar após uma sequência de procedimentos que garantem a dis-ponibilidade da razão e da memória humanas sob a forma digital para sua exploração.

Heidegger   indica caminhos por onde pensar? a informação, enquanto enunciado em seu questionamento? sobre “o que é uma coisa?”:

Característica, extensão, comparação, lugar, tempo?, são determinações que, em geral, são ditas da coisa. Estas determinações indicam em que perspectiva? as coisas? se nos mostram, quando, no enunciado, nos dirigimos a elas e falamos delas, indicam os caminhos-do-olhar? nos quais olhamos as coisas e a partir dos quais elas se nos mostram. Mas, na medida em que essas determinações são sempre colocadas sobre a coisa, a coisa é, de um modo geral e sempre, dita com elas, como aquilo que já está presente?. Aquilo que, em geral, é dito sobre cada coisa, a este «dito em direcção à coisa» e no qual a universalidade e a coisalidade da coisa se determinam, os Gregos chamam kategoria? (kata-agorenein). Mas o que é dito deste modo não visa senão o ser-de-um-certo-modo, o ser-extenso, o estar?-em-relação, o estar-ali, o estar-agora?, que é próprio das coisas enquanto entes. Não podemos trazer para diante do olhar, nem muitas vezes, nem com a penetração suficiente, este estado?-de-coisas agora evidenciado, nomeadamente o facto? de que as determinações que constituem o Ser do ente e, portanto, da própria coisa, retiram o seu nome? do enunciado acerca da coisa. Este nome para as determinações-de-ser não é uma designação como qualquer outra, mas, nesta designação das determinações-de-ser como modos da enunciabilidade, reside uma interpretação particular? do Ser. O facto de, desde há muito tempo, as determinações do Ser serem chamadas, no pensamento? ocidental, «categorias?» é a expressão mais nítida do que já acentuámos: o facto de a estrutura da coisa estar em relação com a estrutura do enunciado. O facto de outrora e ainda hoje a doutrina escolar acerca do Ser do ente, a «ontologia?», colocar? como objectivo? próprio a fixação de uma «doutrina das categorias», exprime a interpretação originária do Ser do ente, quer dizer, da coisalidade da coisa, a partir do enunciado. (Heidegger  , 1987/1992, pág. 70)

O enunciado é um modo de discurso? segundo uma perspectiva. No caso da informação, do enunciado, do “dito em direção à coisa”, pela tecnologia da informação em interação com o homem, trata-se de um discurso informacional-comunicacional. Onde estes qualificadores denotam um método que inicia pela desconstrução do visado, segundo uma perspectiva informacional-comunicacional, em seus atributos e nos algoritmos que tratam estes atributos segundo uma mimese? do visado. A posterior codificação destes atributos em dados simbólicos, a captura destes dados simbólicos para a forma digital e seu armazenamento na tecnologia. Para então, consumindo o método, realizar a reconstrução do visado dis-posto para exploração em sua mimese digital.

O enunciado é um modo de legein - dirigir-se a qualquer coisa, enquanto qualquer coisa. Isto significa: acolher qualquer coisa como tal. Ter qualquer coisa como qualquer coisa e entrega-la como tal, diz-se, em latim, reor, ratio?: daí ratio se ter tornado a tradução de logos. O simples enunciado dá, ao mesmo? tempo, a forma fundamental em que visamos a coisa e pensamos algo acerca dela. A forma fundamental do pensamento e, em consequência, o pensar, é o fio condutor da determinação da coisalidade da coisa. As categorias determinam, em geral, o Ser dos entes. Perguntar pelo Ser dos entes, pelo que é e como é, em geral, o ente, é a primeira tarefa? da filosofia?; perguntar deste modo é filosofia do mais alto nível, é primeira e autêntica filosofia, proto philosophia?, prima philosophia.

Eis o que é essencial: o pensamento como simples enunciar?, o logos, a ratio, é o fio condutor para a determinação do Ser do ente, quer dizer, para a determinação da coisalidade da coisa. «Fio condutor» tem, aqui, o seguinte significado: os modos de enunciabilidade conduzem o olhar em direcção à determinação da presença, quer dizer, em direcção ao Ser dos entes. (Heidegger  , 1987/1992, pág. 71)

Pela descontrução-reconstrução do logos de uma coisa através da práxis informacional-comunicacional este “fio condutor” para determinação do ser do ente se perde. O que já se exigia de extra-ordinário nesta empreitada, se tornou agora impossível através da informatização. Resta apenas o contato com os fantasmas? informacionais que eventualmente são puras “ficções calculadas”. A tecnologia da informação, enquanto dis-positivo? de representação do logos apresenta-se como um sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais.

Comentando Rilke, Heidegger   apresenta a técnica moderna como produção de “ficções calculadas”. Heidegger   denomina “cálculo” o projeto?, próprio a vontade? de poder?, de “por em ordem?” a totalidade? do ente e a ordenar sobre os planos de uma representação sem consideração ao aspecto?, preexistente a todo projeto técnico, daquilo que se apresenta de si mesmo.

Para Milet (2000), a produção de ficções calculadas ameaça o “aberto?”, enquanto doação invisível que expõe os entes na ordem do visível, e assim os “põe em risco?”, ao mesmo tempo em que lhes assegura um lugar e um tempo onde podem manifestar sua estada. O risco é duplo.

Primeiro porque os entes aparecem assim como objetos para representação que se atém ao aparente e não a essência das coisas. Esta obliteração do invisível é que libera a possibilidade do projeto da tecnologia moderna da informação-comunicação. Segundo, porque a objetivação guarda ainda uma dependência, em seu fundo, da fenomenalidade? do objeto, que, de si mesmo, oferece sua própria entidade? à intuição. Assim as ficções calculadas anunciam o desenraizamento? da técnica em relação a este solo de evidências.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel. Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis: Vozes, 1992.

DUPUY, Jean-Pierre. Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo: UNESP, 1995

HEIDEGGER, Martin. Que é uma coisa ?. Trad. Carlos Morujão. Lisboa: Edições 70, 1987/1992 (GA41)

LALANDE, A.. Vocabulaire Technique et Critique da la Philosophie. Paris: PUF, 1993

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000

STAMPER, R.K.. “Information: Mystical Fluid or a Subject for Scientific Investigation?”, The Computer Journal 28 (3), 1985