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Da essência da informática

de Castro (SEI): informatização — referências teóricas

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

A informatização contemporânea orienta-se segundo três referências teóricas que chegaram à maturidade por volta das décadas de 30 e 40 deste século. A primeira? foi a de linguagem? ou sistema? formal?. Noção central da lógica matemática, criada por Frege, Russell   & Whitehead  , Hilbert, e, em sua configuração atual?, resultante dos trabalhos? realizados por Gödel, Tarski, Church e outros nos anos 1930.

Um sistema formal é uma espécie de jogo? de construção compreendendo diferentes categorias? de peças. Por um lado estas peças se reúnem segundo regras relativas a sua forma?. Por outro, cada peça é um símbolo, isto é, guarda? certo sentido?. E o jogo é concebido de modo? que, quando peças são reunidas em virtude? de sua forma, elas constituem um símbolo composto?, que guarda um sentido que justamente resulta da combinação apropriada dos sentidos de seus componentes. Assim sendo?, um sistema formal funciona segundo dois? níveis, o da forma (nível sintático) e o do sentido (nível semântico), e seu interesse? está no paralelismo que se estabelece entre estes dois níveis.

Formalizar a razão e a memória humanas comprometidas com atos? e fatos? não é apenas “ficcionar a facticidade?: é ficcionar — produzir? sob condições puramente técnicas — a abertura à si da facticidade, sua dimensão hermenêutica” (Milet, 2000, pág. 207).

É ficcionar a transcendência, no sentido que a entende Heidegger  : não somente a abertura ontológica ao ente — enquanto ela inclui a teoria?, e todas as variedade de explicitação do ente — mas a facticidade desta abertura, a qual se manifesta através de todas as formas do senso comum?: o discernimento?, a visão de conjunto à luz? da qual ela se exercita, o golpe de vista? que toma a dimensão de uma situação... tudo que se deixa reunir sob o título de techne?. É ficcionar a explicitação (a abertura doa como tal) que se deixa declinar? em: abertura hermenêutica (o entender ante-predicativo?) e explicitação apofântica (fixando o próprio em um enunciado?). E por conseguinte, produzir a techne sob condições puramente técnicas, é — por hipótese? — conceber? e construir maquinas de pensar?. A possibilidade? de uma tal automatização repousa sobre a possibilidade de “formalizar o comportamento?”. (ibid, pág. 207)

A segunda referência teórica é a teoria da informação. A teoria matemática que Claude Shannon expõe em 1948, apoiando-se sobre ideias? que já circulavam há uns vinte anos, formaliza um dualismo, o significado? e seu suporte? material?, rompendo com a estrutura? clássica de forma-matéria. Seu objetivo? é dar uma solução matemática e estatística à transmissão ou comunicação de mensagens? por canais imperfeitos, garantindo sua conservação na passagem de um suporte físico para outro. Deste modo, define?-se a informação, sem qualquer consideração sobre o sentido que possa ter, mas apenas como algo calculado; algo que defina estatisticamente a capacidade? de transporte de um canal? de transmissão.

Os modernos? suportes ou mídias da informação acentuam este movimento?, que da escritura ideográfica à escritura alfabética, afastaram o signo? do sentido. Com o alfabeto? as letras só ganham sentido pela combinação em palavras?, e este sentido ainda assim precisa de um ato de leitura e de interpretação. Esta passagem do ideográfico ao alfabético reduziu o número de signos de milhares a dezenas. A informática vai radicalizar este movimento, se contentando com apenas dois signos de um sistema binário.

A escolha? fundamental da informatização, enquanto “maquinação [1] informacional-comunicacional”, foi precisamente de tornar absoluta esta noção reduzida de informação. As peças ou símbolos dos sistemas formais considerados pela informatização não guardam em si um significado, no sentido habitual, mas são apenas informações, compreendidas objetivamente, quer dizer, apreendidas como um objeto? ou um estado? de fato, e assim capazes de maquinação.

A terceira referência é a máquina universal? de Turing  . Trata-se de um gênero abstrato? do computador digital?, que em um processo? de informatização se apresenta sob quatro? aspectos essenciais?: como máquina, isto é, objeto potencialmente material, e obedecendo enquanto tal apenas às leis? da física; como autômato, pois se posto em movimento, percorre seu percurso sem intervenção exterior?; como operador sobre símbolos de um cálculo.

Mais adiante essas referências serão retomadas e devidamente apreciadas.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel et all. A Máquina e seu Avesso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987

LÉVY, Pierre. La Machine Univers. Paris: La Découverte, 1987

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000

SCHÜRMANN, Reiner. Le principe d’anarchie. Heidegger et la question de l’agir. Paris: Seuil, 1982


[1Na Machenschaft, a maquinação, fusionam a mechane, a maquina, e o machen, o fazer. A palavra designa portanto, no sentido mais amplo, a fabricação, poiesis, a manobra como manejo e manipulação. No sentido mais especificamente moderno, designa o caráter global do fazer, a manobra como conjunto de manejos contra “a terra”. Mas no sentido mais estreito, a maquinação, é a maquinalização. A fusão do “manual” e do “mecânico, é a automatização. (Schürmann, 1982, pág. 223)