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Da essência da informática

de Castro (SEI): informatização

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência   da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento   de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

      

A apelidada “Era da Informação” assenta-se sobre o pressuposto de um processo aparentemente inexorável, qual seja, a informatização tanto da Sociedade quanto da Natureza. Ou, mais corretamente, a informatização de todas as atividades humanas na Sociedade e de todos os meios de conhecimento   da Natureza.

Embora a informática tenha surgido no cenário científico-tecnológico, após a Segunda Grande Guerra  , a informatização [1] tem seus princípios em elaboração desde a Renascença, de forma subjacente e singular ao Ocidente. Muitas iniciativas sinalizam este processo avançando a passos largos pela Modernidade. Coube, por exemplo, ao imaginário iluminista alimentar a quimera   de uma linguagem universal   (Eco, 1994; Rossi  , 1993) e lançar os fundamentos intelectuais para a reflexão   sobre os engenhos capazes de reproduzir, de algum modo, o pensar humano.

A tecnologia da informação “reflete e recolhe”, pelo retirar-se   do homem   enquanto seu periférico operativo, no dar-se e propor-se da informática, os outros três modos   mencionados de responder e dever   de sua manifestação   como engenho de representação. O logos   informacional-comunicacional é o novo “Discurso do Método”, e funda-se no fazer aparecer do ente  , através de seu fantasma informacional-comunicacional, no dar-se e propor-se da informática.

As três causas (materialis, formalis e finalis) de responder devem ao reflexo na tecnologia, o fato e o modo em que aparecem e entram no jogo   de produção que caracteriza o dar-se e propor-se da informática, cuja realidade   revela, por sua vez, a realização   da informatização.

Esse processo de informatização é de tal modo abrangente e profundo que é capaz de fazer prevalecer em sua esteira, um meio, um mundo circundante reduzido à realidade do engenho de representação e o que ali se reflete. Na feliz expressão   do geógrafo Milton Santos   (1995), um meio técnico-científico-informacional.

Neste meio emergem e proliferam de maneira dominante, outras dis-posições e dis-positivos correlatos que dão abrigo e fazem circular entre si fantasmas informacionais-comunicacionais. Estes são como cópias ou mimeses virtuais dos entes intramundanos, ou seja, representações projetadas sobre o virtual, de uma apropriação, segundo o modo informacional-comunicacional, destes entes, operados pela razão e registrados pela memória, em “dis-ponibilidade para exploração”.

Justamente por emergir desse meio humano, a tecnologia da informação, guarda   em si, por mais avançada que seja sua base tecno-científica, uma dimensão humana e social. A mesma que a fez nascer, sustenta sua operação e garante sua reprodução.

A aplicação indiscriminada da informática, diante de uma participação   humana cada vez mais reduzida ao operacional e periférico da técnica, dissemina uma multidão crescente de fantasmas informacionais, em fluxo contínuo  , que se faz reproduzir pela teia (web) que conecta os engenhos de representação. A informatização segue sua realização a partir das formas capturadas e recodificadas da razão e da memória.

Com efeito, esses fantasmas informacionais uma vez capturados no formato digital das tecnologias da informação e da comunicação, se reproduzem segundo padrões ditados pelo próprio   engenho, à medida que vão sendo metamorfoseados por suas linguagens de programação e estruturas de armazenamento de dados simbólicos.

Apreendidos assim em bases de dados, pela malha cada vez mais fina de sistemas classificatórios distintos e processos sofisticados de digitalização, estes fantasmas ganham consistência e se materializam sob a técnica da informação, perambulando soltos na névoa dos chamados sistemas de informação e na teia da Internet.

Cada vez mais circulamos em circuitos integrados de larga escala. O cilício, que hoje nos ameaça, é de silício. O desafio, que hoje nos atinge, provém de uma autocracia informacional. A informática se torna um rolo compressor. Em seu tropel a sociedade rola de alto a baixo. Tudo se processa. Por toda a parte opera um micro. Nenhuma força de tradição   parece poder resistir à atropelada da computação. As novas gerações de computadores prometem interface para tudo. Aumenta sem cessar o número   de periféricos. Pois o grande periférico visado é o homem que espera o inesperado. Pois neste caso nada poderá fugir   a informatização. (Carneiro Leão, 1992, pág. 93)

A atual pujança dessa informatização, especialmente nos países economicamente desenvolvidos, permite afirmar   que seu poder não nasce de um simples modismo contemporâneo, mas de um processo com fortes e profundas raízes na Modernidade, ou melhor, na metafísica da Modernidade. Um processo no qual a tecnologia da informação, enquanto instrumental por excelência   desta Modernidade, se apresenta apenas como epicentro de algo muito maior: o olho de um furacão em movimento  , que por onde passa pulveriza sob a forma digital todos os objetos ou fenômenos que encontra.

Sob essa manifestação mais visível   da informática, e sob suas atualizações múltiplas em sistemas que vão desde os jogos de entretenimento até os chamados sistemas especialistas ou inteligentes, se anunciam os vetores de sua morfogênese na Modernidade; “ideias-mentoras”, em contínuo movimento de associação e de desdobramento, têm como resultado imediato, o estímulo à composição de sucessivos híbridos digitais e a reprodução do meio que os integra.

Mas o que é isso, informatizar?

Para o Pensamento, informatizar não é o verbo   que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A informatização não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de sorte que a totalidade resultante fosse o todo de uma parcialidade geral. A informatização não se reduz a transferir determinada integração de ciência e técnica, de conhecimento e ação para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o processo metafísico de Fim da História do poder ocidental. Na informatização e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A dicotomia de teoria   e prática, de mundo paciente de objetos e mundo agente   dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa equivalência de constituição recíproca, o sujeito e o objeto, o espírito   e a matéria, a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas. A luta entre materialismo e idealismo se torna, então, uma brincadeira de criança  . O pessimismo e o otimismo se transformam em categorias inofensivas para classificar irmãos de uma mesma família. Sendo um verbo de essência  , informatizar nos precipita na avalanche de um poder histórico de realização. Por isso não indica primordialmente o processamento automático de conjunturas, mas um processo autocrático de estrutura  ção, que tudo aplana, tudo controla, tudo contrai numa, composição onipotente. A terra   e o mundo, a história e a natureza, o ser e o nada se reduzem a componentes de compatibilidade universal. A informatização é uma voracidade estrutural em que todas as coisas, todas as causas e todos os valores são acolhidos, são defendidos, são promovidos, mas ao mesmo tempo   perdem sua liberdade e fenecem em criatividade. (Carneiro Leão, 1992, pág. 94)

A informatização é uma dessas ideias-mentoras da Modernidade que configura assim um dos principais processos que são sustentados e que, ao mesmo tempo, sustentam o meio técnico-científico-informacional. As relações homem-homem e homem-natureza encontram-se, cada vez mais, condicionadas e mediadas por tecnologias da informação e da comunicação, que, ao mesmo tempo, constituem e são constituídas pelo meio técnico-científico-informacional que abriga progressivamente a vida humana.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel. Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis: Vozes, 1992.

ECO, Umberto. La recherche de la langue parfaite dans la culture européenne. Paris: Seuil, 1994

ROSSI, Paolo. Clavis Universallis. Arts de la mémoire, logique combinatoire et langue universelle de Lulle à Leibniz. Grenoble: Millon, 1993.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1995


[1Em nossas peregrinações de ser, não ser e vir a ser, sentimos, a cada passo, uma diferença entre realidade e realização. Não se trata de fato entre fatos, nem de coisa entre coisas, seja dada, feita ou pronta, seja deste ou de outro mundo. Trata-se da estranheza constitutiva e do desafio próprio da existência histórica dos homens. A realidade é sub-reptícia. Sua vigência nunca é direta. Seu impacto é sempre oblíquo. A realidade se dá, como realização, na medida e enquanto se retrai, como subtração. Ora, dar-se enquanto se retrai, apresentar-se na ausência, manter-se vigente na falta, é o vigor próprio da realidade. Questionar os desafios da informática exige pensar o vigor da realidade realizando-se na informatização. (Carneiro Leão, 1992, pág. 91, grifo meu)