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Da essência da informática

de Castro (SEI): meio e informática: ontogenia comum?

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

quarta-feira 20 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Retomando a intenção inicial, ao compor este longo discurso? sobre o engenho?, o meio? técnico-científico-informacional e o dar-se e propor-se? da informática, a conclusão esperada é a afirmação de uma ontogenia comum? dos mesmos. Esta conclusão baseia-se no entendimento? de que o engenho é, entre tantos outros, um dis-positivo? de representação de natureza? técnica-científica-informacional, por conseguinte, ideal? e substancialmente vinculado ao referido meio, que o produz originalmente.

Por outro lado, a informática, que se dá e se propõe a partir da coalescência dos elementos? pessoa?, engenho, problema? e meio, reproduz em uma escala micro o meio, na medida? que manifesta, sob a regência do engenho, os princípios e estruturas epistêmicas ou de conhecimento? que a informática porta em gérmen do próprio meio que a produziu originalmente, sob a égide da com-posição, a essência da técnica moderna?.

Estas estruturas epistêmicas ou de conhecimento que respondem originalmente à essência da ciência e da técnica modernas, determinam, por sua vez?, a própria representação digital? do meio no dar-se e propor-se da informática. Ou seja, estruturas epistêmicas que o meio adotou em sua própria conformação à metafísica da Modernidade, garantem assim sua reprodução digital neste simples? dar-se e propor-se em distintas situações de aplicação das tecnologias da informação e da comunicação.

O décor tecnológico que nos cerca dá lugar a um verdadeiro? fenômeno de indução existencial?. Essa indução é uma espécie de transferência do modo? de ser inscrito no décor tecnológico ao modo de ser do próprio homem?. O ser humano é, de certa forma?, modelado segundo a imagem? dos objetos? técnicos. Na verdade?, ele deve ser considerado, nesse contexto, não mais como o sujeito? puro? (como o era? na filosofia? da representação), mas como "existente", como relação viva com o mundo?. Trata-se do ser humano tal como a fenomenologia? contemporânea tentou descrevê-lo: do ser humano que está em questão para si mesmo?, enquanto está em suspenso diante de si; do ser humano que se descobre responsável por si mesmo no meio de um mundo no qual é lançado. Para ele, este mundo é, ao mesmo tempo?, desafio e apoio, um campo? infinito? aberto? à sua exploração questionante e um limite?. Considerado como "existente", o ser humano nunca é transparente a si mesmo. No entanto, não lhe falta? clareza sobre si próprio.

A indução existencial é uma espécie de reverberação do meio ambiente? e da metafísica que lhe é subjacente sobre o existente humano imerso nesse meio. É uma espécie de transformação interior? que afeta o ser mesmo do homem e que constitui exatamente o oposto de uma conversão. Trata-se da passagem daquilo que era uma plenitude? de existência para um estado? que, em última análise, não é mais do que um simples mecanismo?. O termo? "indução existencial" se refere a fenômenos extremamente concretos. Quando começamos a tratar o ser humano segundo os critérios da cientificidade, que são os da pesquisa? "objetiva" (como descritos acima), transformamos efetivamente o ser humano em objeto e, por conseguinte, o suprimimos enquanto ser humano. (Ladrière  , sem data?, pág. 27)

Para um melhor entendimento da morfogênese da tecnologia? no meio técnico-científico-informacional é necessário resgatar a visão morfológica proposta por Goethe  . Mais antiga que a sistêmica, esta visão teve um forte impulso? no final do século XVIII, dentro do Romantismo? alemão. Em um estudo? sobre o pensamento? morfológico de Goethe  , a filósofa portuguesa Maria Filomena Molder (1993 e 1995), oferece uma interpretação ímpar desta visão da Natureza, unificando todos os fragmentos científicos e filosóficos dispersos pela imensa obra? de Goethe  . Para Molder, a observação da metamorfose? não era nova, aliás, a originalidade? é um valor? fraco para Goethe  , para quem “a história do conhecimento humano repõe ciclicamente os próprios motivos do conhecimento, englobando os seus próprios alvos e correspondendo às solicitações próprias daquilo que é para ser conhecido”. Entre várias referências mais antigas à esta temática da morfogênese, poderia se citar o próprio Lineu, que dedicou um ter?ço da sua obra Philosophia? Botanica à Metamorphosis vegetabilis. Molder reconhece no pensamento morfológico de Goethe   um relançamento de temas? metafísicos, obrigatório em todas as investigações de natureza organicista, levantando questões relativas à metamorfose (em que cada forma é formação), à forma em si, à formação em si, à visibilidade e invisibilidade da forma (vide? seu tratado sobre as cores), ao ciclo das formas (nascimento-crescimento-morte?). Questões, que segundo Molder, nos exigem uma tarefa? de compreensão maior da “epifania diferenciada e unificável daquilo que há enquanto há”. Não se trata em geral? da redução indeterminada da multiplicidade? à unidade?, mas de no terreno concreto? das formas singulares, consideradas nos seus pormenores, não perder de vista? à redução que está ocorrendo, ousando determiná-la a cada vez. Em Goethe   reúnem-se, por conseguinte, os dois? grandes movimentos conceituais que Platão e Aristóteles levaram a cabo: por um lado, a procura de um modelo? origin?ário, de um arquétipo? das morfologias visíveis, por outro, a ideia? de um propósito imanente? à forma, uma enteléquia, onde se levantam questões de teleologia?, expressas através da compreensão da uniformidade dos corpos? dos seres, pela descoberta? de similitudes estruturais.

Cada forma é algo em aproximação histórica de si própria e da nossa possibilidade? de a conhecer?, reconhecendo-se através das suas transformações. Apenas na sua efectividade se capta, portanto, a essência de uma coisa?, através de um movimento?, de um impulso configurativo da história completa das suas acções. A essência de uma coisa apreende-se na medida em que conseguirmos recolher uma imagem sinóptica das sua formas manifestadas, tal como o caráter de um homem unicamente pela reunião expressiva das suas acções e realizações se pode descrever. (Molder, 1993, pág. 17-18)

Mais recentemente, no inicio deste século XX, D’Arcy Thompson retomou o pensamento de Goethe  , se contrapondo à forma simplista do transformismo? pregado pela teoria? evolucionista de Darwin. Depois de argumentar em prol do resgate da ideia de causa final, ou de teleologia, D’Arcy afirma e tenta comprovar em todo seu trabalho?, que a forma de qualquer porção de matéria, viva ou morta, e as mudanças de forma, que são aparentes em seus movimentos e em seu crescimento, podem ser descritas em todos os casos como devidas à ação de forças “invisíveis”.

Em resumo, a forma de um objeto é um ‘diagrama de forças’, neste sentido?, pelo menos, de que através dela podemos fazer? um juízo ou deduzir? as forças que estão agindo ou agiram sobre ele: neste sentido estrito? e particular?, é um diagrama - no caso de um sólido, das forças que foram imprimidas sobre ele quando sua conformação foi produzida, junto com aquelas que permitiram a ele reter esta conformação; no caso de um liquido (ou de um gaz), das forças que estão no momento? agindo sobre ele para restringir ou equilibrar sua mobilidade inerente. Em um organismo? grande ou pequeno, não é apenas a natureza dos movimentos da substância viva que devemos interpretar em termos de força (de acordo? com a cinemática), mas também a conformação do organismo ele próprio, cuja permanência ou equilíbrio é explicado pela interação ou equilíbrio de forças, como descrito na estática. (Thompson, 1966, pág. 11)

Concluindo, nada? melhor que outra imagem do artista plástico M. C. Escher (1898-1972) que parece retratar esta conclusão de morfogênese da informática segundo o meio e reprodução deste segundo a tecnologia da informação. Nesta litogravura, duas mãos (uma desenhando outra) emergem do mesmo papel?, como por encanto. Deste mesmo papel, deste mesmo meio, cada uma empunhando um lápis, um mesmo instrumento?, uma mesma técnica, desenha a forma da outra. A emergência das mãos, sua centralidade na imagem e sua ação mutuamente determinante, fazem lembrar uma observação de Heidegger   sobre as mãos:

[...] Só um ser que fala?, quer dizer que pensa, pode ter uma mão e realizar em uma manipulação o trabalho da mão. [...] Mas os gestos da mão transparecem na linguagem?, e isto na maior pureza quando o homem fala em se calando. No entanto, é na medida que o homem fala que ele pensa e não o contrário, como a Metafísica ainda crê. Cada movimento da mão em cada uma de suas obras é conduzido pelo elemento do pensar?, ele se comporta neste elemento. Toda obra da mão repousa no pensar. Por isto o pensar ele mesmo é o para o homem o mais simples, e no entanto o mais difícil trabalho da mão, quando vem o momento no qual ele deve ser expressamente realizado. (Heidegger, 1954/1959, pág. 90)


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


GOETHE, Johann Wolfgang von. A metamorfose das plantas. Tradução, introdução, notas e apêndices de Maria Filomena Molder. Lisboa: INCM, 1993.

HEIDEGGER, Martin. Qu’appelle-t-on penser ? Trad. Gérard Granel. Paris: PUF, 1954/1959.

LADRIÈRE, Jean. Ética e Pensamento Científico. São Paulo: Letras & Letras, sem data.

MOLDER, Maria F.. O Pensamento Morfológico de Goethe. Lisboa: Imprensa Nacional, 1995

THOMPSON, D’Arcy Wentworth. On Growth and Form. Cambridge: Cambridge University Press, 1966