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Da essência da informática

de Castro (SEI): meio informacional

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

terça-feira 19 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

O qualificador informacional para o meio?, sugere a presença crescente de sistemas? informáticos entre os elementos? deste meio, e o processo? de informatização ou de gradual sistematização e digitalização de todas as coisas?, passíveis de transcrição como dado? digital?, em seu “fantasma? informacional”.

Assim sendo?, uma contribuição para este entendimento? da natureza? informacional do novo meio deve começar? por uma tentativa de clarificar os termos específicos associados à questão informacional, quais sejam: informática, computador e informação.

Philippe Breton   (1990) afirma que estes são, de fato?, grandes termos “metatécnicos”, e não simples? termos operatórios. No sentido? que designariam uma ação definida dentro de um domínio específico, mas que servem, ao mesmo? tempo?, para se pensar? e se designar este domínio.

Em 1955, foi proposto, por Jacques Perret, professor da Sorbonne?, o termo? ordinateur (ordenador, em francês), a pedido da companhia IBM-France. Para Breton  , o objetivo? parece ter? sido de individualizar, por um nome? especial, as calculadoras eletrônicas digitais que a companhia produzia àquela época, ao mesmo tempo que pretendia indicar que estas calculadoras podiam preencher além das funções numéricas, funções sociais dentro das organizações e da própria sociedade?.

Sob este duplo? interesse?, se ocultava um jogo? geopolítico de afirmação da França, neste cenário emergente da informática, através da definição de uma linguagem? tecnológica própria, fundada na língua francesa.

Breton   faz notar? que a escolha? terminológica de Perret baseou-se, segundo uma carta do próprio Perret, no vocabulário religioso?, por mais distante? que este possa ser do objeto? designado? e de seu novo contexto técnico. Efetivamente, ordenador designa a função daquele que confere uma ordem? na Igreja. O ordenador é aquele que pratica a ordenação.

Mas ordenador é também um adjetivo?, em francês. Um qualificador de ordem e arranjo?. Desta maneira, este nome novo para a calculadora afigurava-se, desde o princípio, alinhado com o projeto? social? e cognitivo de uma emergente tecnologia? da informação. Embora seus progenitores, na década de 40, divergissem a principio sobre o destino? do computador: uma máquina de cálculo, para von Neumann  , ou uma máquina de comunicação, para Wiener.

O termo francês, ordinateur, prenuncia muito melhor a natureza desta máquina, que revolucionaria a sociedade neste final de século. A denominação em língua inglesa, inicialmente “calculador(a)”, e, logo em seguida, “computador”, vela sob seu pragmatismo?, o destino maior deste instrumento?. Embora se possa dizer que também se esconde sob a denominação computador, uma designação religiosa, a do computus latino, referindo-se ao método de computar as datas das festas móveis no calendário eclesiástico anual.

Com o avanço da teoria? da cibernética, nos anos 50 e 60, influenciando sobremaneira as demais ciências, e as técnicas em geral?, popularizou-se a ideia? de “máquina inteligente?”, de “cérebro eletrônico”. Uma nova geração de máquinas, utilizando mecanismos sofisticados de regulação, em hardware e em software, oferecia-se como substitutos do homem? em tarefas repetitivas, com mínima criatividade. A implementação do computador como componente destes sistemas, como seu centro de inteligência, seu “cérebro eletrônico”, deu um vigor? maior à terminologia? anglo-saxônica, em detrimento da francesa, ordinateur; ao mesmo tempo que se manifestava a hegemonia dos Estados Unidos neste cenário.

Quanto ao termo “informática”, mais novo (aparece em 1962) que “computador”, trata-se de uma concatenação de duas palavras? que o precederam. Sobre exatamente que palavras, ainda existe alguma controvérsia. Breton   nos informa sobre duas interpretações diferentes: para alguns, fusão de informação e automática; e, para outros, “tica” é um sufixo associado à informação, com o propósito de indicar um domínio científico ou técnico, como em linguística.

Qualquer que seja sua origem? prenuncia-se uma ciência ou uma técnica de tratamento da informação. Neste sentido, uma tecnociência com uma proposta de “método universal?” para operar com dados de qualquer campo? de estudo? ou de atividade? humanos. A questão crucial? vai ser justamente colocada, sobre a caracterização deste objeto a ser tratado pela informática: a informação. Uma vez? conceituada a informação, em qualquer disciplina? ou atividade, o passo seguinte é a adequação do método informacional a seu pleno uso?.

Segundo Breton  , desde 1966, Jacques Arsac, o primeiro? titular de uma cadeira de informática na França, já defendia uma conceituação precisa de informação, distinta de conhecimento?, definindo a informação como um simples suporte?, forma?, ou envelope, como se queira, que não deve ser confundida com seu conteúdo.

Essa conceituação, por si mesmo reveladora de uma intencionalidade?, é efetivamente uma das mais axiomáticas da informática, enquanto tecnologia da informação. Assim, de forma simples, mas pretensiosa, a informática se coloca como uma meta-tecnociência: um discurso? e um método tecnocientífico capaz de formalizar, sob a codificação digital única de cada ente informacional, associada a um conjunto finito? de operações lógicas sobre este mesmo ente, a linguagem perfeita? e universal de registro de tratamento e processamento dos conteúdos informacionais-comunicacionais, de qualquer disciplina ou atividade.

Reconhecer e redimir? este agravo à justa racionalidade?, é o maior desafio que vem sendo colocado pela chamada informatização da sociedade, a qual, em sua ação mais elementar, assemelha-se a um simples processo de operação sobre informações, de qualquer natureza, pela informática. No entanto, podemos dizer que a informatização, em sua idealização maior, configura-se de fato, como a mais recente manifestação do grande ideal? de uma clavis universalis [1].

Assim, informatizar é, um supermodo de organização. Tanto desencadeia as forças produtivas, como contém os modos? de produção no poder e não poder de uma ordem planetária de dominação. Os modos cibernéticos de organização recolhem em si as condições de toda a vigência social e de toda a causalidade? histórica. Ora, é no fluxo de uma socialização total, é na avalanche de uma historização que as ordens simbólicas se compõem com as ordens pragmáticas nas superestruturas da automação. Se pensarmos, portanto, em toda a envergadura o desafio da informatização, não há cegueira? que nos impeça ver? nela a realização da essência planetarizante da técnica moderna?. No poder dos chies de macro- e micro-bytes, Hegel   celebra com Marx   o sistema do absoluto?, quer em sua versão idealista, quer em sua versão materialista. É a composição final de todas as posições e de todas as oposições em sua dinâmica de locupletação. É a síntese escatológica de todas as teses e de todas as antíteses, em sua história de absolutização. (Carneiro Leão  , 1992, pág. 94)

Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


BRETON, Philippe. “Le sens des mots: l’apparition des termes ‘informatique’, ‘ordinateur’ et ‘information’”, in Frank Tinland (ed.), La techno-science en question. Seyssel: Champ Vallon, 1990.

CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel. Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis: Vozes, 1992.

ROSSI, Paolo. Clavis Universallis. Arts de la mémoire, logique combinatoire et langue universelle de Lulle à Leibniz. Grenoble: Millon, 1993.


[1“O termo clavis universalis foi empregado, entre os séculos XVI e XVII, para designar o método ou ciência geral que permite ao homem apreender, alem das aparências fenomenais ou das sombras das ideias, a estrutura ou trama ideal que constitui a essência da realidade.” (Rossi, 1993, p.13)