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Da essência da informática

de Castro (SEI): da noção de mundo à noção de meio

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

terça-feira 19 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Segundo Françoise Dastur (1998), Heidegger   pensou o mundo inicialmente como resultado da projeção do Dasein, em “Ser e Tempo”. Já, na “Carta sobre o Humanismo” (GA9), o mundo foi então pensado como “clareira do ser”, identificado ao próprio ser mesmo, o que implica não haver nada além dele. Para finalmente em sua conferência “A Coisa” (GA7), e outros textos da mesma época, defini-lo como Geviert, como quadro ou União dos Quatro (terra, céu, deuses e mortais).

O mundo circundante cotidiano, apresentado em “Ser e Tempo”, configura-se segundo uma atitude determinada pela relação entre Dasein e ente intramundano, a ocupação (Besorgen). A ocupação é então um conceito ontológico à partir do qual se pode entender o comportamento prático, que constitui o modo de acesso básico ao ente intramundano, que não é assim o simplesmente dado, mas o instrumento aqui à mão fazendo parte inseparável de um todo instrumental. Após mais de trinta páginas consagradas a apreender o mundo enquanto mundo, Heidegger   (GA2MSC, pág. 87) conclui: “Nestas análises, expôs-se apenas o horizonte em que se pode buscar o mundo e a mundanidade”.

Na elaboração posterior, em “Sobre a Essência do Fundamento” (ESHeidegger  ), Heidegger   reconhece em uma nota, que sua análise do mundo circundante em “Ser e Tempo” seria uma primeira determinação do fenômeno, com valor apenas preparatório face à investigação necessária sobre o que é mundo. Seus avanços posteriores no pensar e expor esta questão, denunciam os limites da ontologia instrumentalista na definição do mundo circundante.

O aprofundamento e a abertura dada por Heidegger   à noção de mundo são suficientes para demonstrar um outro caminho, oposto, seguido na trajetória adotada pelo Dasein na aplicação do instrumento informático, constringindo o mundo circundante [1] ao meio técnico-científico-informacional. Fica evidente a redução significativa imposta pela ocupação informacional-comunicacional pro-posta no uso da tecnologia da informação, na constituição deste novo meio.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


DASTUR, Françoise. « Le concept de monde chez Heidegger après Être et Temps », in ALTER Revue de Phénoménologie, n.6/1998. Fontenay-Saint-Cloud, ALTER, 1998

GRANEL, Gérard. Traditionis traditio. Paris: Gallimard, 1972


[1Como Um-weltlichkeit, como circum-mundanidade e circa-mundanidade – sistema não aparente de “entornos” (circum) nos quais o ente é praticado “com vista à” (circa) – a mundanidade se anuncia somente como o cerne que assombra da maneira mais próxima, quer dizer também a mais inaproximável, o Dasein. Dito de outra forma, como sistema de ligação do ente que se retira enquanto totalidade “ela mesma” e só deixa discernir, no brilho desta retirada, conjuntos de ligações que ainda não são o mundo – ou que já são o não-ainda do mundo. (Granel, 1972, pág. 148)