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Da essência da informática

de Castro (SEI): a informática e seu meio

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

terça-feira 19 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

Na análise do pensamento? de Heidegger   sobre a questão da técnica, a referência à técnica moderna? parece indicar três sentidos? correlacionados? entre si: primeiro?, tecnologias, dispositivos, sistemas? e processos? produtivos usualmente associados com o “industrialismo”; segundo, a visão de mundo? racionalista, científica, utilitarista, antropocêntrica e secular? usualmente associada com a “modernidade”; e, terceiro, o atual? modo? de compreensão e desencobrimento que torna possível tanto os processos de produção contemporâneos, a poiesis? moderna, como a visão de mundo moderna que a sustenta (Zimmerman, 1990).

Sustentando a reflexão sobre o terceiro sentido, Heidegger   entende que o primeiro e o segundo sentidos são de fato? sintomas do modo contemporâneo de se acercar das coisas? como dis-posições e dis-positivos; um modo de compreensão que assim as des-encobrem para exploração. Este des-encobrimento unidimensional das coisas como recursos, não resulta apenas de uma decisão humana, mas de desdobramentos dentro? de uma “história do ser” no pensamento ocidental, a investigar?.

O atual estágio tecnológico desta história transformou de tal maneira como as coisas são vistas e compreendidas que faz sentido falar? e pensar? em um meio? que coopta pessoas? a operar com tecnologias, segundo a ordem? e a visão de homem? e de mundo que, do próprio meio, emerge e domina.

Ao refletir sobre a questão da técnica Heidegger   conduz, por um longo e árduo processo de pensar sua essência, desvendando as condições necessárias dessa experiência unidimensional das coisas como dis-posições e dis-positivos. No reconhecimento? da com-posição no fundamento? do que é a técnica, pensada desde sua origem? grega?, espera-se alcançar? a possibilidade? de uma redenção, na confrontação com o perigo e a salvação, imanentes à essência da técnica.

Heidegger   parece sustentar que as atividades? humanas não são de uma maneira geral? referentes ou originárias de um indivíduo? em si mesmo?, mas sim guiadas e configuradas por um jogo? histórico de linguagem? e conceitos? fora? do controle individual?. Este jogo define? as categorias? que configuram as possibilidades da ação humana, do conhecimento? e da crença, em épocas históricas determinadas. Estes movimentos conceituais e ontológicos que se manifestam em diferentes épocas históricas, parecem indicar, por sua vez?, meios onde uma “imagem? de mundo e de homem” é dominante, ordenando e balizando o jogo permitido em termos de linguagem e conceitos.

A informática dá-se e propõe-se na informatização, segundo a regência e a vigência de quatro? modos de dever? e responder, diferentes entre si, porém pertencentes um ao outro na unidade? de uma coerência. Esta unidade de coerência responde pelo dar-se e propor-se? da informatização, entendida como a vigência de algo que está em vigor? em um meio fundado na Modernidade.

O pleno advento da informatização em nossos dias indica, por sua vez, que este deixar-viger dos quatro modos de dever e responder que levam a tecnologia? da informação a aparecer? e a conduzem à posição de destaque tecnológico de uma pretensa Sociedade? da Informação, mobilizam muito mais que um simples? instrumento? para o homem. “Rigorosamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre pertence a seu ser” ([Heidegger  , 2015, pág. 116).

A morfogênese da tecnologia da informação, enquanto engenho? de representação, ocorre segundo os princípios ontogênicos de um meio, de natureza? técnica-científica-informacional. Através desta morfogênese reúnem-se e dispõem-se instrumentos que representam a razão e a memória humanas, em um único engenho, constituído em conformidade aos desígnios da técnica moderna e à rede de remetimentos a outros instrumentos deste meio, ou ainda melhor, segundo a com-posição que perfaz as dis-posições e dis-positivos deste meio.

Este engenho, por sua adoção individual e pelo decorrente agenciamento social? que pratica, elevado à potência pelo dar-se e propor-se da informática, se torna concomitantemente constituído e constituinte deste mesmo meio, assegurando sua sustentabilidade e reprodução.

Heidegger   já alertava, desde sua analítica do Dasein?, que aquilo que lhe é mais próprio encontra-se “à distancia”, considerado de fato como “estranheza” (segundo a tradução dada por Martineau de Unheimlichkeit) a ponto? que o indivíduo, o sujeito? mundano, antropológica e historicamente sobre a insígnia do Ge-stell? toma por si mesmo e como familiar?, o que é apenas herdado da estrutura? coercitiva do meio, do “mundo circundante” (Umwelt).

A investigação, nas considerações que seguem, se orienta pelas seguintes questões:

  • Quais as relações que existem entre meio técnico-científico-informacional, engenho, e dar-se e propor-se da informática??>
  • Qual seria o sentido, se existe algum, de se reunir meio, engenho e dar-se e propor-se da informática, em uma mesma investigação?

Assim sendo? a estrutura proposta para este capítulo é:

  • Primeiro, entender o meio como o modo atual de redução da mundanidade do “mundo circundante” no dar-se e propor-se da informática;
  • Segundo, entender os qualificadores técnico, científico e informacional, que atribuem propriedades específicas a este meio; e,
  • Terceiro, e como conclusão, compreender? o dar-se e propor-se da informática, como constituído em e por este meio; e, o que é mais importante, do ponto de vista? da natureza da informática, sob a luz deste meio, que reflete a própria essência da técnica moderna, a Ge-stell; deste modo, evidenciar que, sendo a tecnologia da informação produto deste meio, qualquer aplicação sua, enquanto dar-se e propor-se da informática, é um agente? “re-produtor” deste mesmo meio.

Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Tr. Márcia Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 2015

ZIMMERMAN, Michael E.. Heidegger’s Confrontation with Modernity. Technology, Politics, Art. Bloomington: Indiana University Press, 1990