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Da essência da informática

de Castro (SEI): com-posição — destino

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

terça-feira 19 de outubro de 2021

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005. (revisado)

O homem? encontra-se seduzido e tentado pela tecnologia? da informação, por sua engenhosidade representacional, por suas imensas possibilidades de exploração do resultado da codificação de sua razão e de sua memória, assim como da razão e da memória coletiva. “Assim desafiado e provocado o homem se acha imerso na essência da com-posição Ge-stell”. É seu destino?, mas não sua fatalidade? [1].

No auge da técnica moderna?, onde a tecnologia da informação se manifesta como forma? concreta da metafísica da Modernidade, permeando todas as atividades? humanas, o perigo é grande. Onde a essência da técnica moderna, a com-posição, revela-se no dar-se e propor-se? da informática, o perigo é intenso. Como sempre, abrem-se caminhos?, possibilidades diante de um perigo iminente, à medida? de uma autêntica aquiescência do que reina soberano.

Uma possibilidade? é seguir o curso ditado? pela essência da técnica, à qual o homem não apenas responde, mas “se com-põe”. A outra seria o esforço por despertar de sua sonolência, emaranhado em tantas dis-posições e dis-positivos, e buscar a “essência do que se des-encobre e seu desencobrimento, com a finalidade? de assumir, como sua própria essência, a pertença encarecida ao desencobrimento” (ibid, pág. 29).

Do mesmo? modo?, em que a natureza?, expondo-se, como um sistema? operativo e calcul?ável de forças pode proporcionar constatações corretas mas é justamente por tais resultados que o desencobrimento pode tornar-se o perigo de o verdadeiro? se retirar do correto.

O destino do desencobrimento não é, em si mesmo, um perigo qualquer, mas o perigo.

Se, porém, o destino impera segundo o modo da com-posição, ele se torna o maior perigo, o perigo que se anuncia em duas? frentes. Quando o descoberto já não atinge o homem, como objeto?, mas exclusivamente, como disponibilidade?, quando, no domínio do não-objeto, o homem se reduz apenas a dis-por da dis-ponibilidade? - então é que chegou à última beira do precipício, lá onde ele mesmo só se toma por dis-ponibilidade. E é justamente este homem assim ameaçado que se alardeia na figura? de senhor da terra?. Cresce a aparência de que tudo que nos vem ao encontro? só existe à medida que é um feito do homem. Esta aparência faz prosperar uma derradeira ilusão, segundo a qual, em toda parte?, o homem só se encontra consigo mesmo. Heisenberg   mostrou, com toda razão, que é assim mesmo que o real? deve apresentar-se ao homem moderno. Entretanto, hoje em dia, na verdade?, o homem já não se encontra em parte? alguma, consigo mesmo, isto é, com a sua essência. O homem está tão decididamente empenhado na busca do que a com-posição pro-voca e ex-plora, que já não a toma, como um apelo, e nem se sente atingido pela ex-ploração. Com isto não escuta nada? que faça sua essência ex-sistir no espaço de um apelo e por isso nunca pode encontrar-se?, apenas, consigo mesmo. (Heidegger, 1954/2002, pág. 30)

Outro exemplo? pode ilustrar sobejamente esta reflexão. No uso? de um Sistema de Informação Geográfico, como o indicado anteriormente, para análise de imagens? de satélite, o homem cria a ilusão de uma perspectiva? de “lugar algum” (de um deus??) de onde visualiza as imagens da Terra. Um lugar definido segundo os parâmetros do espaço e do tempo? [2], mas infinitamente distante? das proximidades e vizinhanças onde o homem habita.

Nesta posição, o homem é levado pela tecnologia a uma dis-posição privilegiada para fazer? diferentes juízos sobre o que vê; juízos estes determinados pela imagem do ente, ou melhor, pela ilusão geográfica, que lhe é dada pelo dis-positivo? de representação. A Terra se reduz a uma imagem artificial analisada e operada por um engenho? de representação que tem entres suas dis-posições e seus dis-positivos um ser humano “conectado”, que vive intensamente a quimera de ter? alcançado a situação de “mestre? e senhor da natureza”.

Mas como muito bem afirma Heidegger  , não são “as máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser mort?ífera”. A tecnologia da informação, ou mesmo qualquer sistema construído sobre ela não são um problema?, mas sim o “mistério de sua essência”, à qual o homem faz questão de ignorar, vetando um desencobrimento mais origin?ário. Abandona a experiência de uma verdade mais inaugural, em prol da exatidão da imagem do ente oferecida pela tecnologia, em prol da ilusão do virtual?.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1954/2002

HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1959/2003


[1A essência da técnica moderna repousa na com-posição. A com-posição pertence ao destino do desencobrimento. Estas afirmações dizem algo muito diferente do que a frase tantas vezes repetida: a técnica é a fatalidade de nossa época, onde fatalidade significa o inevitável de um processo inexorável e incontornável. (Heidegger, 1954/2002, pág. 28)

[2Embora na sua expansão como parâmetro espaço e tempo jamais admitam o encontro face a face de seus elementos, é precisamente quando espaço e tempo predominam como parâmetros para toda representação, produção e recomendação, ou seja, como parâmetros do mundo da técnica moderna, que eles alcançam de forma extraordinária o prevalecer da proximidade, ou seja, a proximitude dos campos do mundo. Quando tudo se dispõe em intervalos calculados e justamente em virtude da calculação ilimitada de tudo, a falta de distância se espraia e isso sob a forma de uma recusa da proximidade de uma vizinhança dos campos do mundo. Na falta de distância, tudo se torna indiferente em consequência da vontade de asseguramento e apoderamento uniforme e calculador da totalidade da terra. A luta pela dominação da terra entrou em sua fase decisiva. A exploração total da terra mediante o asseguramento de sua dominação só se instaura quando se conquista fora da terra a posição extrema para o seu controle. A luta por essa posição consiste no cálculo constante onde todas as referências entre todas as coisas se converte na ausência calculável de distância. Isso constitui a desertificação do en-contro face a face dos quatro campos de mundo, a recusa de proximidade. Nessa luta pela dominação da terra, espaço e tempo alcançam seu predomínio máximo enquanto parâmetros. Todavia, o seu poder irrefreado só é possível porque espaço e tempo já e ainda são outra coisa do que os bem conhecidos parâmetros. O caráter de parâmetro oblitera a essência do espaço e do tempo. 0 parâmetro encobre sobretudo a relação de sua essência com a essência vigorosa da proximidade. Mesmo sendo relações tão simples, elas se mantêm inacessíveis para o pensamento calculador. Onde elas se mostram, os hábitos representacionais impedem a sua visão. (Heidegger, 1959/2003, pág. 168)