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Da essência da informática

de Castro (SEI): o que é a informática? Primeiros passos...

Técnica e informática a partir do pensamento de M. Heidegger

segunda-feira 18 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

DE CASTRO  , Murilo Cardoso. Sobre a essência da informática. Técnica e Informática a partir do pensamento de M. Heidegger  . Tese (Doutorado em Filosofia) – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, p. 189. 2005.

Na obra de Heidegger  , o pensar sobre a questão da técnica abre sentidos e desígnios, cujo entendimento pressupõe um “ser capaz” para tal. Para sustentar a “questão da informática” é preciso mais que um saber, é preciso um ser capaz de manter esta questão viva. O desafio da questão não está apenas no entendimento da meditação encaminhada por Heidegger  , da essência da técnica enquanto com-posição [1] (Ge-stell) e metafísica da Modernidade, mas em ser capaz de enfrentar esta questão diante do próprio predomínio da técnica moderna.

Mas a pergunta nunca chega tarde e atrasada se nos sentirmos propriamente, como aqueles, cujas ações e omissões se acham por toda parte desafiadas e pro-vocadas, ora às claras ora às escondidas, pela com-posição. E sobretudo nunca chega tarde e atrasada a questão se e de que modo nós nos empenhamos no processo em que a própria com-posição vige e vigora. (Heidegger  , 1954/2002, pág. 27)

Como diz um provérbio chinês, “uma longa jornada inicia-se com um primeiro passo”. Assim, o primeiro passo dado para compreender e responder a questão “o que é a informática?”, será a investigação da natureza desta técnica, da tecnologia da informação. Dessa natureza cuja vigência [2] se encontra velada pelo deslumbramento ordinário com seus propalados prodígios.

A questão sobre a essência da técnica vai orientar esta caminhada como um farol indicando a passagem segura, porém a questão sobre a natureza da tecnologia da informação vai ocupar os passos iniciais em sua direção. Natureza entendida no sentido do conjunto de condições originais latentes na informática, emergentes na vigência da tecnologia da informação.

Começando então pela identidade e diferença entre técnica e tecnologia, identificam-se dois termos que estranhamente intercambiaram suas noções desde o século XVIII. O termo tecnologia, que originalmente se referia ao “discurso da técnica”, veio indicar o instrumental ou o processo de aplicação deste instrumental em um “fazimento”, enquanto o termo técnica passou a se referir aos procedimentos de realização, no sentido de “tornar real”, e também ao discurso específico sobre estes procedimentos.

Neste último sentido, hoje em dia, usa-se muito o termo técnica, afinado com sua noção original de arte, de savoir-faire ou de “fazimento”. É justamente a técnica sob esta noção de fazimento, que Darcy Ribeiro (1983) cunhou para os fazeres indígenas, que norteia este pensar em direção à técnica mais moderna, a informática. Onde um fazimento original que era, ao mesmo tempo, desencobrimento, se distancia mais e mais do homem, como adverte Heidegger  : “Sendo desencobrimento da dis-posição, a técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem” (Heidegger  , 1954/2002, pág. 22).

Por outro lado, artefato, dispositivo, instrumento, ferramenta, utensílio são termos cada vez mais presentes no discurso contemporâneo, ganhando uma designação pomposa sob o termo único de tecnologia. Hoje em dia, em qualquer coisa designada por um deles, se reúne não apenas uma técnica, ou procedimento ou fazimento, mas uma coalescência de diferentes técnicas, representantes de diferentes fazimentos, em uma espécie de “discurso prático da técnica”, a tecnologia.

Esse amálgama entre as noções de técnica e de tecnologia é muito bem formulado por François Sigaut, ao apontar diferenças entre estes termos, no prefácio de um livro de ensaios do etnólogo André-Georges Haudricourt:

Se os dois termos podem ser tomados um pelo outro, é porque qualquer um dos dois não tem um sentido bem preciso para nossos contemporâneos. Porque, contrariamente a uma opinião bastante corrente, nossa vida quotidiana é cada vez menos marcada, menos formada e menos estruturada pela técnica. A técnica supõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam mais e mais deste contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas são excluídas) aporte qualquer compensação. O que cria esta ilusão, é que o capital de saber técnico acumulado em nossa sociedade é hoje em dia infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parte de cada um de nós neste capital jamais foi tão desprezível. (apud Séris, 1994, pág. 4, itálico meu)

Quanto ao qualificador complementar “informação”, na expressão “tecnologia da informação”, temos aí o caso de uma noção que se libertou de seu cadinho semântico medieval ganhando nosso imaginário no final do século XX, envolta em uma nuvem de sentidos, aparentemente claros e óbvios. Justamente esta aparência de clareza de sentido, onde todos creem compartilhar um entendimento óbvio do que é informação, torna-se um dos desafios na investigação filosófica sobre a informática enquanto tecnologia da informação.

O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação.

Capurro (2003) lembra que foi após a segunda grande guerra que o termo “informação” ganhou presença na linguagem científica fixando sua noção em 1948, através da cibernética de Norbert Wiener   (1894-1964) e do trabalho de Claude Shannon (1916-2001) sobre comunicação [3]. A partir de seu sentido cibernético e informacional-comunicacional, foi elaborado nos anos 1950 pela nascente Ciência da Informação, firmando a noção de “conhecimento comunicado” [4].

Ou seja, através da cibernética e da teoria da informação pensou-se encontrar a fórmula de materialização de algo denominado “conhecimento” que pode enfim ser transmitido como informação entre pessoas e máquinas, indiscriminadamente. Como afirmaria Heidegger  , uma “dis-ponibilidade do des-encobrimento exploratório” da razão e da memória humanas, pela técnica moderna da informação.

A moderna noção de informação, especialmente na expressão “tecnologia da informação”, refere-se àquilo que se constitui na e pela tecnologia como uma representação digital de entes, atos ou fatos humanos, sob a configuração final de algoritmos operando sobre dados simbólicos. Esta configuração é assim capaz de “in-formar” uma representação do real em pessoas ou em outras tecnologias similares.

Essa representação armazenada nos circuitos eletrônicos de uma tecnologia da informação se constitui a partir da dissolução do objetivado em um conjunto de atributos que o definem como dados numéricos ou categorizados, ou, como se costuma denominar, como dados simbólicos, passíveis de serem operados por algoritmos que completam a re-presentação dos atos ou fatos humanos, objetivados.

Esse sentido de informação, como uma representação constituída artificialmente, é um perigoso simulacro do sentido original de informação. Escamoteia todo esse processo metodológico de apreensão e de dissolução do objetivado em um conjunto de dados simbólicos, que doravante passa a ser o modo de acesso a qualquer ente. Pior ainda, escamoteia também o “meio” imediato onde impera o “método” que faz o visado, o objetivado, dissolver-se e coagular-se em representação, sob a forma de dado simbólico. Este meio é o chamado “meio técnico-científico-informacional” (Santos, 1995), que Heidegger   pressentia o predomínio em 1966: “Não vivemos a não ser em condições técnicas” (apud Milet, 2000).

Segundo sua nova versão cibernética e comunicacional, a noção de informação aparenta ser um conceito neutro e simplório daquilo que se dá na relação entre pessoas e máquinas. Juntamente com esta noção, adota-se também o comportamento singular de intercambiar, na referência a pessoas ou máquinas, termos de aplicação exclusiva a seres humanos, como linguagem, memória, cálculo, interpretação, símbolo, etc. Tudo indica que a reificação do humano no “cérebro eletrônico” ou na moderna “inteligência artificial” obedece à busca por um denominador comum, onde aquilo que se dá na interação entre máquinas, a simples troca de mensagens, é este denominador.

Neste percurso de investigação e de reflexões, a leitura de Heidegger  , em particular de seu pensar sobre a questão da técnica orienta as primeiras observações sobre a informática enquanto “técnica da informação”. No contraponto com a leitura de Heidegger  , busca-se, por outro lado, entender o “dar-se e propor-se da informática” na realização do processo moderno de informatização, ou de “maquinação informacional-comunicacional”; maquinação (Machenschaft) entendida como “o acabamento incondicionado do ser enquanto vontade de poder” (Heidegger  , 2000, pág. 156), como “a absolutização da vontade no interior do espaço de realização da metafísica da técnica e a assunção da instrumentalização como virtude fundamental desta vontade”.

A informatização não é, pois, simples efeito da informática e sua expansão. A informática é que nasceu da informatização. O que está em jogo é um processo totalitário de realização. Neste nível abre-se todo um outro horizonte para se pensar o vigor histórico da informatização em sua essência de poder, tanto para a libertação como para a dominação. É o horizonte da realidade em movimento de realização. Aqui no palco da história, o real se faz espetáculo e demonstra o potencial de suas virtualidades de ser e parecer, de não ser e vir a ser. (Carneiro Leão  , 1991, pág. 95)

Essa realização da informatização, no dar-se e propor-se da informática, sinaliza, mais uma vez, o meio, enquanto um “mundo reduzido” onde este “dar-se” realiza-se, torna-se real. As reflexões de Heidegger   sobre “ser-no-mundo”, instrumento, “mundo circundante” e mundanidade, já indicam, de algum modo, este “meio da manualidade informacional”.

As condições de possibilidade do dar-se da informática, no e pelo meio que garante sua manifestação e proliferação, leva a confirmação da ontogenia comum da tecnologia da informação e deste meio técnico-científico-informacional, no processo global da informatização, cujos qualificadores serão adiante elaborados.

Quem reflete sobre este processo reconhecerá logo que a proposta, sempre repetida, da técnica dominada pelo homem procede de um modo de representação que se move apenas nas zonas fronteiriças daquilo que é atualmente. Superficial também é a observação que o homem de hoje em dia se tornou escravo das maquinas e dos aparelhos. Pois é uma coisa fazer tais observações, mas é totalmente outra sobre isto refletir e pesquisar, não somente em que medida o homem de nossa época está submetido à técnica, mas ainda em que medida ele deve se conformar à essência da técnica, em que medida se prenunciam, nesta conformidade, possibilidades mais originais tocando uma existência (Dasein) livre do homem. A construção do mundo pela técnica e a ciência estende suas próprias pretensões até o enquadramento de todas as dis-ponibilidades (Bestand) que em um tal mundo se esforçam por vir a luz. (Heidegger  , 1957/1962, pág. 75)

Com essa noção de meio, muito própria desta reflexão, devidamente estabelecida, cabe o estudo da informatização agindo como principal catalisador deste meio, orientando em sua ontogenia o engenho de representação no dar-se e propor-se da informática. A informatização reúne e dispõe a “matematização”, a “logicização” e a “industrialização da memória” (Stiegler  , 1994 e 1996), na manifestação da tecnologia da informação.

Neste percurso vislumbra-se a morfogênese da tecnologia da informação enquanto fenômeno essencial dos Tempos Modernos. Uma tecnologia cuja natureza se assemelha mais e mais a um “dis-positivo geral de representação”, ou melhor, a um “engenho universal de representação”, em perfeita consonância com a metafísica da Modernidade; definida esta metafísica através de uma acepção do ente e de uma explicação da verdade, peculiar dos Tempos Modernos.

Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que vale consequentemente recolher e ter diante de si, aspirando assim fixá-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. “Weltbild”, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa, portanto uma ideia de mundo, mas o mundo ele mesmo apreendido como aquilo aquilo do qual se pode “ter ideia”. O ente em sua totalidade é, portanto, tomado agora de tal maneira que só é verdadeiramente e somente ente na medida que é detido e fixado pelo homem na representação e na produção. Com o advento da “Weltbild” se realiza uma intimação decisiva quanto ao ente em sua totalidade. O ser do ente é doravante pesquisado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger  , 1949/1962, pág. 117).

A ultima parte desse estudo analisa, portanto, a questão da representação, como a própria razão de ser da informática, enquanto tecnologia da informação, buscando a possível identidade da essência da técnica moderna com a essência da metafísica moderna, à medida que o “processo fundamental dos Tempos Modernos é a conquista do mundo enquanto imagem concebida”; onde a representação é a pedra de toque capaz de converter o real em objeto informacional-comunicacional.

Como afirma Carneiro Leão   (1991, pág. 93), “a provocação para pensar que nos traz hoje a avalanche da informática, reside na ambivalência vespertina, concentra-se na ambiguidade transitiva da informatização”. A questão da técnica formulada por Heidegger   torna-se hoje a questão da informática. A essência da informática é a Gestell não apenas como vislumbrada por Heidegger   na técnica moderna, mas acima de tudo como realidade de nosso cotidiano.

Conceber a sua essência enquanto o que dá à técnica moderna das máquinas a verdade e a necessidade internas; portanto não segundo um conceito (uma representação universal) do fato agora justamente dado que denominamos “técnica”; também não o que pensa na mesma direção, esta “técnica” enquanto fenômeno da “cultura”; pois a “cultura” mesma pertence a essência técnica concebida metafisicamente. Esta é a verdade da subjetividade, subjetividade concebida enquanto entidade do ente.

Consequência desta “técnica” essencial é o matemático das ciências, o “sistema”, a “dialética”.

Portanto também não buscar algo como o “elemento técnico” (de maneira meramente adequada aos aparelhos e ao funcionamento) em meio às ciências, à arte, à política, como se estas ainda fossem além disto propriamente algo diverso. O outro e o próprio é exatamente o “elemento técnico” compreendido metafisicamente, sim histórico-ontologicamente. A “técnica” assim compreendida encontra-se em conexão com a techne que emerge da physis e pressupõe e propaga o encobrimento desta última. (Heidegger  , 2000, pág. 156)


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


CAPURRO, Rafael. “The Concept of Information”, in Annual Review of Information Science and Technology Ed. B. Cronin, Vol. 37 Chapter 8, pp. 343-411, 2003

CARNEIRO-LEÃO, Emmanuel. Aprendendo a pensar. Volume II. Petrópolis: Vozes, 1991.

DUPUY, Jean-Pierre. Nas Origens das Ciências Cognitivas. São Paulo: UNESP, 1995 (original)

HEIDEGGER, Martin. Chemins qui ne mènent nulle part. Trad. Wolfgang Brokmeier. Paris: Gallimard, 1949/1962

HEIDEGGER, Martin. Le principe de raison. Trad. André Préau. Paris: Gallimard, 1957/1962

HEIDEGGER, Martin. Nietzsche. Metafísica e Niilismo. Trad. Marcos Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000

HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Trad. Emmanuel Carneiro Leão, Gilvan Fogel e Marcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 1954/2002

MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: Hucitec, 1995

SERIS, Jean-Pierre. La Technique. Paris, PUF, 1994

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La désorientation. Paris: Galilée, 1996


[1Em todo o site, enfatiza-se a brilhante tradução do Prof. Carneiro Leão dos termos baseados no radical “stell”.

[2É do verbo "we-sen", viger, que provém o substantivo vigência. Wesen, essência, em sentido verbal de vigência, é o mesmo que "wahren", durar e não apenas no sentido semântico, como também na formação fonológica. Já Sócrates e Platão pensaram a essência de uma coisa, como a vigência, no sentido de duração. (Heidegger, 1954/2002, pág. 33)

[3É bem verdade que essa questão (a origem da informação) pouco preocupa os cibernéticos, mas isso precisamente porque, desde o começo, pelo menos no que diz respeito a Wiener e aos que o seguem, eles fizeram da informação uma grandeza física, tirando-a do domínio das transmissões de sinais entre humanos. Se todo organismo é cercado de informações, isso acontece porque há organização em toda parte ao seu redor, e essa organização, em razão até de sua diferenciação, contém informação. A informação está na natureza, e a sua existência é, portanto, independente da atividade desses doadores de sentido que são os intérpretes humanos. (Dupuy, 1995, pág. 157)

[4A característica mais importante de um organismo vivo é sua abertura ao mundo exterior. Isso significa que ele é dotado de órgão de acoplamento que lhe permite recolher as mensagens do mundo exterior, as quais decidem a sua conduta futura. É instrutivo considerar isto à luz da termodinâmica e da mecânica estatística. (Dupuy, 1995, pág. 151)