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A CONDIÇÃO HUMANA

Arendt (CH:C3.16) – Trabalho, Intrumentos e Ferramentas

Capítulo III - 16 Os instrumentos da obra e a divisão do trabalho

sexta-feira 15 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

[ARENDT  , Hannah. A Condição Humana.Tr. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense, 2020 (epub)]

Tradução

É verdade que o enorme aperfeiçoamento de nossas ferramentas de trabalho – os robôs mudos com os quais o homo faber acorreu em auxílio do animal laborans, em contraposição aos instrumentos humanos dotados de fala (o instrumentum vocale, como eram chamados os escravos no lar, entre os antigos), os quais o homem de ação tinha de dominar e oprimir sempre que desejava liberar o animal laborans de sua sujeição – tornou o duplo trabalho da vida, o esforço de sua manutenção e a dor de gerá-la, mais fácil e menos doloroso do que jamais foi antes. Isso, naturalmente, não eliminou a compulsão da atividade do trabalho, nem a condição de sujeição da vida humana à carência e à necessidade. Mas, ao contrário do que ocorria na sociedade escravista, na qual a “maldição” da necessidade era uma realidade muito vívida porque a vida de um escravo testemunhava diariamente o fato de que a “vida é escravidão” essa condição já não é hoje inteiramente manifesta; e, por não aparecer tanto, torna-se muito mais difícil notá-la ou lembrá-la. O perigo aqui é óbvio. O homem não pode ser livre se ignora estar sujeito à necessidade, uma vez que sua liberdade é sempre conquistada mediante tentativas, nunca inteiramente bem-sucedidas, de libertar-se da necessidade. E, embora possa ser verdade que seu impulso mais forte na direção dessa liberdade é sua “repugnância à futilidade” é também possível que o impulso enfraqueça à medida que essa “futilidade” parece mais fácil e passa a exigir menor esforço. Pois é ainda provável que as enormes mudanças da revolução industrial, no passado, e as mudanças ainda maiores da revolução atômica, no futuro, permaneçam como mudanças do mundo, e não mudanças da condição básica da vida humana na Terra.

As ferramentas e instrumentos, que podem suavizar consideravelmente o esforço do trabalho, não são produtos do trabalho, mas da obra; não pertencem ao processo do consumo, mas são parte integrante do mundo de objetos de uso. Não importa quão relevante seja o papel que desempenham no trabalho de qualquer civilização dada, jamais pode atingir a importância fundamental das ferramentas para todo tipo de obra. Nenhuma obra pode ser produzida sem ferramentas, e o nascimento do homo faber e o surgimento de um mundo de coisas feito pelo homem são, na verdade, contemporâneos da descoberta de ferramentas e de instrumentos. Do ponto de vista do trabalho, as ferramentas reforçam e multiplicam a força humana até quase substituí-la, como ocorre em todos os casos nos quais as forças naturais, como os animais domésticos, a força hidráulica ou a eletricidade, e não meras coisas materiais, são domadas pelo homem. Da mesma forma, as ferramentas aumentam a fertilidade natural do animal laborans e produzem uma abundância de bens de consumo. Mas todas essas mudanças são de natureza quantitativa, ao passo que a qualidade das coisas fabricadas, desde o mais simples objeto de uso até a obra-prima de arte, depende profundamente da existência de instrumentos adequados.

Além disso, as limitações dos instrumentos no tocante à suavização do trabalho da vida – o simples fato de que os serviços de um único criado jamais podem ser inteiramente substituídos por uma centena de aparelhos na cozinha ou por meia dúzia de robôs no subsolo – são de natureza fundamental. Um testemunho curioso e inesperado desse fato é que ele pôde ser previsto milhares de anos antes de se dar o fabuloso desenvolvimento moderno de instrumentos e de máquinas. Em tom meio fantasioso e meio irônico, Aristóteles   imaginou, certa vez, aquilo que se tornou realidade tempos depois, ou seja, que “cada ferramenta fosse capaz de executar sua própria obra quando se lha ordenasse (...) como as estátuas de Dédalo ou as trípodes de Hefesto que, segundo diz o poeta, ‘ingressaram por conta própria na assembleia dos deuses’” Assim, a “lançadeira teceria e o plectro tocaria a lira sem que uma mão os guiasse” E prossegue afirmando que isso significaria realmente que o artífice já não necessitaria de assistentes humanos, mas não que os escravos domésticos pudessem ser dispensados. Pois os escravos não são instrumentos para fabricar coisas, ou para a produção, mas para a vida, que constantemente consome os seus serviços. [1] O processo de fabricação de uma coisa é limitado, e a função do instrumento atinge um fim previsível e controlável no produto acabado; o processo vital que exige o trabalho é uma atividade interminável, e o único “instrumento” à sua altura teria de ser um perpetuum mobile, isto é, o instrumentum vocale, tão vivo e ativo quanto o organismo a que serve. “Dos instrumentos domésticos nada resulta além do uso da própria posse”; e é precisamente por isso que eles não podem ser substituídos pelas ferramentas e instrumentos do artífice, “dos quais resulta algo além do mero uso do instrumento” [2].

Original

It is true that the enormous improvement in our labor tools—the mute robots with which homo faber has come to the help of the animal laborans, as distinguished from the human, speaking instruments (the instrumentum vocale, as the slaves in ancient households were called) whom the man of action had to rule and oppress when he wanted to liberate the animal laborans from its bondage—has made the twofold labor of life, the effort of its sustenance and the pain of giving birth, easier and less painful than it has ever been. This, of course, has not eliminated compulsion from the laboring activity or the condition of being subject to need and necessity from human life. But, in distinction from slave society, where the “curse” of necessity remained a vivid reality because the life of a slave testified daily to the fact that “life is slavery,” this condition is no longer fully manifest and its lack of appearance has made it much more difficult to notice and remember. The danger here is obvious. Man cannot be free if he does not know that he is subject to necessity, because his freedom is always won in his never wholly successful attempts to liberate himself from necessity. And while it may be true that his strongest impulse toward this liberation comes from his “repugnance to futility,” it is also likely that the impulse may grow weaker as this “futility” appears easier, as it requires less effort. For it is still probable that the enormous changes of the industrial revolution behind us and the even greater changes of the atomic revolution before us will remain changes of the world, and not changes in the basic condition of human life on earth.

Tools and instruments which can ease the effort of labor considerably are themselves not a product of labor but of work; they do not belong in the process of consumption but are part and parcel of the world of use objects. Their role, no matter how great it may be in the labor of any given civilization, can never attain the fundamental importance of tools for all kinds of work. No work can be produced without tools, and the birth of homo faber and the coming into being of a man-made world of things are actually coeval with the discovery of tools and instruments. From the standpoint of labor, tools strengthen and multiply human strength to the point of almost replacing it, as in all cases where natural forces, such as tame animals or water power or electricity, and not mere material things, are brought under a human master. By the same token, they increase the natural fertility of the animal laborans and provide an abundance of consumer goods. But all these changes are of a quantitative order, whereas the very quality of fabricated things, from the simplest use object to the masterwork of art, depends intimately on the existence of adequate instruments.

Moreover, the limitations of instruments in the easing of life’s labor—the simple fact that the services of one servant can never be fully replaced by a hundred gadgets in the kitchen and half a dozen robots in the cellar—are of a fundamental nature. A curious and unexpected testimony to this is that it could be predicted thousands of years before the fabulous modern development of tools and machines had taken place. In a half-fanciful, half-ironical mood, Aristotle   once imagined what has long since become a reality, namely that “every tool could perform its own work when ordered . . . like the statues of Daedalus or the tripods of Hephaestus, which, says the poet, ‘of their own accord entered the assembly of the gods.’” Then, “the shuttle would weave and the plectrum touch the lyre without a hand to guide them.” This, he goes on to say, would indeed mean that the craftsman would no longer need human assistants, but it would not mean that household slaves could be dispensed with. For slaves are not instruments of making things or of production, but of living, which constantly consumes their services.72 The process of making a thing is limited and the function of the instrument comes to a predictable, controllable end with the finished product; the process of life that requires laboring is an endless activity and the only “instrument” equal to it would have to be a perpetuum mobile, that is, the instrumentum vocale which is as alive and “active” as the living organism which it serves. It is precisely because from “the instruments of the household nothing else results except the use of the possession itself” that they cannot be replaced by tools and instruments of workmanship “from which results something more than the mere use of the instrument.”73


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[1Aristóteles, Política, 1253b30-1254a18.

[2Winston Ashley, The theory of natural slavery, according to Aristotle and St. Thomas, Capítulo 5.