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A CONDIÇÃO HUMANA

Arendt (CH:C4.20) – automação

Capítulo IV - 20 A instrumentalidade e o animal laborans

sexta-feira 15 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

[ARENDT  , Hannah. A Condição Humana.Tr. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense, 2020 (epub)]

Tradução

Como tão frequentemente ocorre com os desdobramentos históricos, parece que as verdadeiras implicações da tecnologia, isto é, da substituição de ferramentas e utensílios pela maquinaria, só vieram à luz em seu derradeiro estágio, com o advento da automação. Para nossos propósitos talvez seja útil lembrar, mesmo brevemente, os principais estágios do desenvolvimento da moderna tecnologia desde o início da era moderna. O primeiro estágio, a invenção da máquina a vapor, que levou à Revolução Industrial, era ainda caracterizado pela imitação de processos naturais e pelo uso de forças naturais para finalidades humanas, que, em princípio, ainda não diferia do antigo uso das forças da água e do vento. A novidade não era o princípio da máquina a vapor, mas sim a descoberta e o uso das minas de carvão para alimentá-la. [1] As ferramentas-máquina [machine tools] desse primeiro estágio refletem essa imitação de processos conhecidos naturalmente; elas também imitam e intensificam o vigor das atividades naturais da mão humana. Mas hoje nos é dito que “a maior armadilha a evitar é a suposição de que a finalidade do desenho seja reproduzir os movimentos da mão do operador [operator] ou trabalhador” [2].

O próximo estágio é caracterizado principalmente pelo uso da eletricidade, e realmente a eletricidade continua a determinar o estágio atual de desenvolvimento técnico. Esse estágio já não pode ser descrito em termos de uma gigantesca ampliação e continuação dos antigos ofícios e artes, e é somente a este mundo que as categorias do homo faber, para quem todo instrumento é um meio de atingir um fim prescrito, já não se aplicam. Pois agora já não usamos o material como a natureza nos fornece, matando processos naturais, interrompendo-os ou imitando-os. Em todos esses casos, alteramos e desnaturalizamos a natureza para nossos próprios fins mundanos, de sorte que o mundo ou o artifício humano, de um lado, e a natureza, de outro, permanecem como duas entidades nitidamente separadas. Hoje, passamos a “criar” por assim dizer, isto é, a desencadear por nossa própria iniciativa processos naturais que jamais teriam ocorrido sem nós; e, ao invés de envolver cuidadosamente o artifício humano com defesas contra as forças elementares da natureza, mantendo-as tão distante quanto possível do mundo feito pelo homem, canalizamos essas forças, juntamente com o seu poder elementar, para o próprio mundo. Isso resultou em uma verdadeira revolução no conceito de fabricação: a manufatura, que sempre havia sido “uma série de passos separados” tornou-se “um processo contínuo” o processo da esteira transportadora ou da linha de montagem. [3]

A automação representa o estágio mais recente desse desenvolvimento, e realmente “ilumina toda a história do maquinismo [machinism]” [4]. Sem dúvida, permanecerá o ponto culminante do desenvolvimento moderno, ainda que a era atômica e uma tecnologia baseada em descobertas nucleares ponham um fim um tanto rápido nela. Os primeiros instrumentos da tecnologia nuclear – os vários tipos de bombas atômicas que, se deflagradas em quantidades suficientes, que não precisam ser muito grandes, poderiam destruir toda a vida orgânica da Terra – apresentam uma evidência suficiente da enorme escala em que tal mudança poderia ocorrer. Nesse caso, já não se trataria de desencadear e liberar processos naturais elementares, mas de manejar na Terra e na vida cotidiana energias e forças que só ocorrem fora da Terra, no universo – o que já é feito, mas somente nos laboratórios de pesquisas dos físicos nucleares. [5] Se a atual tecnologia consiste em canalizar forças naturais para o mundo do artifício humano, a tecnologia do futuro pode vir a consistir em canalizar forças universais do cosmo que nos rodeia para a natureza da Terra. Resta ver se essas técnicas futuras transformarão o lar da natureza, tal como o conhecemos desde o começo de nosso mundo, na mesma medida ou ainda mais do que a atual tecnologia alterou a mundanidade do artifício humano.

A canalização de forças naturais para o mundo humano estilhaçou o próprio caráter propositado do mundo, o fato de que os objetos são os fins para os quais os instrumentos e ferramentas são projetados. É característico de todos os processos naturais o fato de surgirem sem o auxílio do homem e de que as coisas naturais não são “produzidas” mas vêm a ser por si mesmas aquilo em que se tornam. (É esse também o significado autêntico de nossa palavra “natureza” quer a derivemos da raiz latina nasci, nascer, quer a remetamos à sua origem grega, physis, que vem de phyein, surgir de, aparecer por si mesmo.) Ao contrário dos produtos de mãos humanas, que têm de ser feitos passo a passo e para os quais o processo de fabricação é inteiramente distinto da existência da coisa fabricada, a existência da coisa natural não é separada, mas, de certa forma, idêntica ao processo através do qual ela passa a existir: a semente contém e, em certo sentido, já é a árvore, e a árvore deixa de viver se o processo de crescimento através do qual passou a existir for interrompido. Se observarmos esses processos contra o pano de fundo dos propósitos humanos, que têm um começo voluntário e um fim definido, eles assumem um caráter de automatismo. Chamamos de automático todo movimento autopropulsado e, portanto, fora do alcance da interferência voluntária ou intencional. Na modalidade de produção introduzida pela automação, a diferença entre a operação e o produto, bem como a precedência do produto sobre a operação (que é apenas o meio para produzir o fim) perdem seu sentido e tornam-se obsoletas. [6] As categorias do homo faber e do seu mundo não se aplicam aqui, como jamais poderiam aplicar-se à natureza e ao universo natural. Por sinal, é por isso que os modernos defensores da automação geralmente se opõem tão firmemente à noção mecanicística da natureza e ao utilitarismo prático do século XVIII, tão eminentemente característicos do modo unilateral e determinado da orientação do homo faber para a obra.

A discussão de todo o problema da tecnologia, isto é, da transformação da vida e do mundo pela introdução da máquina, vem sendo estranhamente desencaminhada por uma concentração demasiado exclusiva no serviço ou desserviço que as máquinas prestam ao homem. A premissa é de que toda ferramenta e todo utensílio destinam-se basicamente a tornar mais fácil a vida do homem e menos doloroso o trabalho humano. Sua instrumentalidade é concebida exclusivamente nesse sentido antropocêntrico. Mas a instrumentalidade das ferramentas e dos utensílios relaciona-se muito mais intimamente com o objeto que eles se destinam a produzir, e o seu mero “valor humano” limita-se ao uso que deles faz o animal laborans. Em outras palavras, o homo faber, o fazedor de ferramentas, inventou as ferramentas e utensílios para construir um mundo, e não – pelo menos não principalmente – para servir ao processo vital humano. Assim, a questão não é tanto se somos senhores ou escravos de nossas máquinas, mas se estas ainda servem ao mundo e às coisas do mundo ou se, pelo contrário, elas e o movimento automático de seus processos passaram a dominar e mesmo a destruir o mundo e as coisas.

Uma coisa é certa: o contínuo processo automático da manufatura eliminou não apenas a “premissa injustificada” de que “mãos humanas guiadas por cérebros humanos constituem a eficiência ótima” [7] mas também a outra premissa, muito mais importante, de que as coisas do mundo que nos rodeiam devem depender do projeto humano e ser construídas segundo padrões humanos de utilidade ou de beleza. Em lugar de utilidade e beleza, que são padrões do mundo, passamos a projetar produtos que ainda exercem certas “funções básicas” mas têm sua forma determinada primordialmente pela operação da máquina. As “funções básicas” são, naturalmente, as funções do processo vital do animal humano, visto que nenhuma outra função é basicamente necessária; o próprio produto, porém – e não apenas suas variantes, mas inclusive a “mudança total para novo produto” –, dependerá inteiramente da capacidade das máquinas. [8]

Projetar objetos para a capacidade operacional das máquinas, ao invés de projetar máquinas para produzir certos objetos, equivaleria, de fato, a inverter completamente a categoria de meios e fim, se essa categoria ainda tivesse algum sentido. Mas mesmo o fim mais geral, a liberação de força humana [manpower], geralmente atribuído às máquinas, é tido agora como secundário e obsoleto, inadequado e uma potencial limitação para um “espantoso aumento de eficiência” [9]. Nas condições atuais, tornou-se tão insensato descrever este mundo de máquinas em termos de meios e fins como sempre o foi indagar da natureza se ela produziu a semente para produzir uma árvore ou a árvore para produzir a semente. Por isso mesmo é bastante provável que o contínuo processo que busca canalizar para o mundo humano os processos infindáveis da natureza, embora possa perfeitamente destruir o mundo qua mundo como artifício humano, provavelmente será capaz de atender às necessidades vitais da espécie humana com a mesma confiabilidade e amplitude com que a própria natureza o fez, antes que os homens construíssem na Terra o seu lar artificial e erguessem uma barreira entre a natureza e eles mesmos.

Para uma sociedade de trabalhadores, o mundo de máquinas tornou-se um substituto para o mundo real, embora este pseudomundo seja incapaz de realizar a mais importante tarefa do artifício humano, que é a de oferecer aos mortais uma morada mais permanente e estável que eles mesmos. Em seu contínuo processo de operação, este mundo de máquinas está perdendo inclusive aquele caráter mundano independente que as ferramentas e utensílios e a primeira maquinaria da era moderna possuíam em tão alto grau. Os processos naturais de que se alimenta o relacionam cada vez mais com o próprio processo biológico, de sorte que os aparelhos, que outrora manejávamos livremente, começam a mostrar-se como se fossem “carapaças integrantes do corpo humano tanto quanto a carapaça é parte integrante do corpo da tartaruga” Do ponto de vista desses desdobramentos, a tecnologia realmente já não parece ser “produto de um esforço humano consciente no sentido de ampliar a força material, mas sim um desdobramento biológico da humanidade no qual as estruturas inatas do organismo humano são transplantadas, em uma medida sempre crescente, para o ambiente do homem” [10].

Original

As is so frequently the case with historical developments, it seems as though the actual implications of technology, that is, of the replacement of tools and implements with machinery, have come to light only in its last stage, with the advent of automation. For our purposes it may be useful to recall, however briefly, the main stages of modern technology’s development since the beginning of the modern age. The first stage, the invention of the steam engine, which led into the industrial revolution, was still characterized by an imitation of natural processes and the use of natural forces for human purposes, which did not differ in principle from the old use of water and wind power. Not the principle of the steam engine was new but rather the discovery and use of the coal mines to feed it. The machine tools of this early stage reflect this imitation of naturally known processes; they, too, imitate and put to more powerful use the natural activities of the human hand. But today we are told that “the greatest pitfall to avoid is the assumption that the design aim is reproduction of the hand movements of the operator or laborer.”

The next stage is chiefly characterized by the use of electricity, and, indeed, electricity still determines the present stage of technical development. This stage can no longer be described in terms of a gigantic enlargement and continuation of the old arts and crafts, and it is only to this world that the categories of homo faber, to whom every instrument is a means to achieve a prescribed end, no longer apply. For here we no longer use material as nature yields it to us, killing natural processes or interrupting or imitating them. In all these instances, we changed and denaturalized nature for our own worldly ends, so that the human world or artifice on one hand and nature on the other remained two distinctly separate entities. Today we have begun to “create,” as it were, that is, to unchain natural processes of our own which would never have happened without us, and instead of carefully surrounding the human artifice with defenses against nature’s elementary forces, keeping them as far as possible outside the man-made world, we have channeled these forces, along with their elementary power, into the world itself. The result has been a veritable revolution in the concept of fabrication; manufacturing, which always had been “a series of separate steps,” has become “a continuous process,” the process of the conveyor belt and the assembly line.

Automation is the most recent stage in this development, which indeed “illuminates the whole history of machinism.” It certainly will remain the culminating point of the modern development, even if the atomic age and a technology based upon nuclear discoveries puts a rather rapid end to it. The first instruments of nuclear technology, the various types of atom bombs, which, if released in sufficient and not even very great quantities, could destroy all organic life on earth, present sufficient evidence for the enormous scale on which such a change might take place. Here it would no longer be a question of unchaining and letting loose elementary natural processes, but of handling on the earth and in everyday life energies and forces such as occur only outside the earth, in the universe; this is already done, but only in the research laboratories of nuclear physicists. If present technology consists of channeling natural forces into the world of the human artifice, future technology may yet consist of channeling the universal forces of the cosmos around us into the nature of the earth. It remains to be seen whether these future techniques will transform the household of nature as we have known it since the beginning of our world to the same extent or even more than the present technology has changed the very worldliness of the human artifice.

The channeling of natural forces into the human world has shattered the very purposefulness of the world, the fact that objects are the ends for which tools and implements are designed. It is characteristic of all natural processes that they come into being without the help of man, and those things are natural which are not “made” but grow by themselves into whatever they become. (This is also the authentic meaning of our word “nature,” whether we derive it from its latin root nasci, to be born, or trace it back to its Greek origin, physis, which comes from phyein, to grow out of, to appear by itself.) Unlike the products of human hands, which must be realized step by step and for which the fabrication process is entirely distinct from the existence of the fabricated thing itself, the natural thing’s existence is not separate but is somehow identical with the process through which it comes into being: the seed contains and, in a certain sense, already is the tree, and the tree stops being if the process of growth through which it came into existence stops. If we see these processes against the background of human purposes, which have a willed beginning and a definite end, they assume the character of automatism. We call automatic all courses of movement which are self-moving and therefore outside the range of wilful and purposeful interference. In the mode of production ushered in by automation, the distinction between operation and product, as well as the product’s precedence over the operation (which is only the means to produce the end), no longer make sense and have become obsolete. The categories of homo faber and his world apply here no more than they ever could apply to nature and the natural universe. This is, incidentally, why modern advocates of automation usually take a very determined stand against the mechanistic view of nature and against the practical utilitarianism of the eighteenth century, which were so eminently characteristic of the one-sided, single-minded work orientation of homo faber.

The discussion of the whole problem of technology, that is, of the transformation of life and world through the introduction of the machine, has been strangely led astray through an all-too-exclusive concentration upon the service or disservice the machines render to men. The assumption here is that every tool and implement is primarily designed to make human life easier and human labor less painful. Their instrumentality is understood exclusively in this anthropocentric sense. But the instrumentality of tools and implements is much more closely related to the object it is designed to produce, and their sheer “human value” is restricted to the use the animal laborans makes of them. In other words, homo faber, the toolmaker, invented tools and implements in order to erect a world, not—at least, not primarily—to help the human life process. The question therefore is not so much whether we are the masters or the slaves of our machines, but whether machines still serve the world and its things, or if, on the contrary, they and the automatic motion of their processes have begun to rule and even destroy world and things.

One thing is certain: the continuous automatic process of manufacturing has not only done away with the “unwarranted assumption” that “human hands guided by human brains represent the optimum efficiency,” but with the much more important assumption that the things of the world around us should depend upon human design and be built in accordance with human standards of either utility or beauty. In place of both utility and beauty, which are standards of the world, we have come to design products that still fulfil certain “basic functions” but whose shape will be primarily determined by the operation of the machine. The “basic functions” are of course the functions of the human animal’s life process, since no other function is basically necessary, but the product itself—not only its variations but even the “total change to a new product”—will depend entirely upon the capacity of the machine.

To design objects for the operational capacity of the machine instead of designing machines for the production of certain objects would indeed be the exact reversal of the means-end category, if this category still made any sense. But even the most general end, the release of manpower, that was usually assigned to machines, is now thought to be a secondary and obsolete aim, inadequate to and limiting potential “startling increases in efficiency.” As matters stand today, it has become as senseless to describe this world of machines in terms of means and ends as it has always been senseless to ask nature if she produced the seed to produce a tree or the tree to produce the seed. By the same token it is quite probable that the continuous process pursuant to the channeling of nature’s never-ending processes into the human world, though it may very well destroy the world qua world as human artifice, will as reliably and limitlessly provide the species man-kind with the necessities of life as nature herself did before men erected their artificial home on earth and set up a barrier between nature and themselves.

For a society of laborers, the world of machines has become a substitute for the real world, even though this pseudo world cannot fulfil the most important task of the human artifice, which is to offer mortals a dwelling place more permanent and more stable than themselves. In the continuous process of operation, this world of machines is even losing that independent worldly character which the tools and implements and the early machinery of the modern age so eminently possessed. The natural processes on which it feeds increasingly relate it to the biological process itself, so that the apparatuses we once handled freely begin to look as though they were “shells belonging to the human body as the shell belongs to the body of a turtle.” Seen from the vantage point of this development, technology in fact no longer appears “as the product of a conscious human effort to enlarge material power, but rather like a biological development of mankind in which the innate structures of the human organism are transplanted in an ever-increasing measure into the environment of man.”


Ver online : A CONDIÇÃO HUMANA


[1Uma das importantes condições materiais da Revolução Industrial foi a extinção das florestas e a descoberta do carvão mineral como substituto de madeira. A solução proposta por R. H. Barrow (em seu livro Slavery in the Roman Empire [1928]) ao “conhecido enigma, no estudo da história econômica do mundo antigo, de que a indústria se desenvolveu até certo ponto, mas deixou repentinamente de fazer o progresso que era de se esperar”, é bem interessante e bastante convincente nesse particular. Ele sustenta que o único fator que “impediu a aplicação das máquinas à indústria (...) [foi] a inexistência de combustível bom e barato (...), uma vez que não havia provisão abundante de carvão mineral à disposição” (p. 123).

[2John Diebold, Automation: the advent of the automatic factory (1952), p. 67.

[3Ibid., p. 69.

[4Friedmann, Problèmes humains du machinisme industriel, p. 168. Esta é realmente a mais óbvia conclusão a ser tirada do livro de Diebold: a linha de montagem é o resultado “do conceito da manufatura como um processo contínuo”, e se poderia acrescentar que a automação é o resultado da maquinização [machinization] da linha de montagem. À liberação da força de trabalho humana nos primeiros estágios da industrialização a automação acrescenta a liberação da força do cérebro humano, uma vez que “as tarefas de fiscalização e controle atualmente realizadas por seres humanos serão feitas por máquinas” (Automation: the advent of the automatic factory, p. 140). Tanto uma como outra libera trabalho, não obra. O operário ou “artífice dotado de respeito próprio”, cujos “valores humanos e psicológicos” (p. 164) quase todos os que escrevem sobre o assunto procuram desesperadamente salvar – certas vezes, com uma pitada de ironia involuntária, como quando Diebold e outros acreditam sinceramente que o trabalho de consertos, que talvez jamais venha a ser inteiramente automatizado, pode trazer a mesma satisfação que a fabricação e a produção de um objeto novo –, está fora de cogitação, pelo simples fato de ter sido eliminado das fábricas muito antes de se ouvir falar em automação. Os operários [workers] fabris sempre foram trabalhadores [laborers], e embora seu respeito próprio possa ter excelentes fundamentos, certamente não decorre da obra que executam. A única coisa que podemos esperar é que eles próprios se recusem a aceitar os substitutos sociais da satisfação e do respeito próprio que lhes são oferecidos pelos teóricos do trabalho, que entrementes realmente acreditam que o interesse na obra e a satisfação do artesanato podem ser substituídos por “relações humanas” e pelo respeito que os operários “granjeiam entre seus companheiros operários” (p. 164). Afinal, a automação deveria ter pelo menos a vantagem de demonstrar os absurdos de todos os “humanismos do trabalho”; caso se leve em consideração o significado verbal e histórico da palavra “humanismo”, a própria expressão “humanismo do trabalho” se revela uma contradição nos termos. (Para uma excelente crítica do modismo das “relações humanas”, cf. Daniel Bell, Work and its discontents [1956], cap. 5, e R. P. Genelli, “Facteur humain ou facteur social du travail”, Revue française du travail, v. VII, n. 1-3 [jan./mar. 1952], em que se encontra também uma firme denúncia da “terrível ilusão” da “alegria do trabalho”.)

[5Gunther Anders, em um interessante ensaio sobre a bomba atômica (Die Antiquiertheit des Menschen [1956]), sustenta, de modo convincente, que a palavra “experimento” já não se aplica aos experimentos nucleares envolvendo explosões das novas bombas. Pois era característico dos experimentos o fato de que o espaço no qual ocorriam era estritamente limitado e isolado do meio ambiente. Os efeitos das bombas são tão gigantescos que “seu laboratório tornou-se coextensivo com o globo” (p. 260).

[6Diebold, Automation: the advent of the automatic factory, p. 59-60.

[7Ibid., p. 67.

[8Ibid., p. 38-45.

[9Ibid., p. 110 e 157.

[10Werner Heisenberg, Das Naturbild der heutigen Physik (1955), p. 14-15.