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A CONDIÇÃO HUMANA

Arendt (CH:C2.6) – estatística

Capítulo II - 6 O advento do social

sexta-feira 15 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

[ARENDT  , Hannah. A Condição Humana.Tr. Roberto Raposo. Rio de Janeiro: Forense, 2020 (epub)]

Tradução

As leis   da estatística são válidas somente quando se lida com grandes números e longos períodos de tempo, e os atos ou eventos só podem aparecer estatisticamente como desvios ou flutuações. A justificativa da estatística é a de que os feitos e eventos são ocorrências raras na vida cotidiana e na história. Contudo, o pleno significado das relações cotidianas revela-se não na vida do dia-a-dia, mas em feitos raros, tal como a importância de um período histórico é percebida somente nos poucos eventos que o iluminam. Aplicar à política ou à história a lei dos grandes números e dos longos períodos equivale a obliterar voluntariamente o próprio objeto dessas duas; e é uma empresa inútil buscar o significado na política ou a importância na história quando tudo o que não é comportamento cotidiano ou tendência automática é descartado como irrelevante.

Não obstante, como as leis   da estatística são perfeitamente válidas quando lidamos com grandes números, é óbvio que cada aumento populacional significa um aumento da validade e uma nítida diminuição dos “desvios” Politicamente, isso significa que, quanto maior é a população de qualquer corpo político, maior é a probabilidade de que o social, e não o político, constitua o domínio público. Os gregos, cuja cidade-Estado foi o corpo político mais individualista e menos conformista que conhecemos, tinham plena consciência do fato de que a pólis, com a sua ênfase na ação e no discurso, só poderia sobreviver se o número de cidadãos permanecesse restrito. Grandes números de pessoas amontoadas desenvolvem uma inclinação quase irresistível na direção do despotismo, seja o despotismo de uma pessoa ou do governo da maioria; e embora a estatística, isto é, o tratamento matemático da realidade, fosse desconhecida antes da era moderna, os fenômenos sociais que possibilitaram esse tratamento – grandes números justificando o conformismo, o behaviorismo e o automatismo nos assuntos humanos – eram precisamente o que, no entendimento dos gregos, distinguia da sua a civilização persa.

A triste verdade acerca do behaviorismo e da validade de suas “leis  ” é que, quanto mais pessoas existem, maior é a possibilidade de que se comportem e menor a possibilidade de que tolerem o não-comportamento. Estatisticamente, isso resulta em um declínio da flutuação. Na realidade, os feitos terão cada vez menos possibilidades de opor-se à maré do comportamento, e os eventos perderão cada vez mais a sua importância, isto é, a sua capacidade de iluminar o tempo histórico. A uniformidade estatística não é de modo algum um ideal científico inócuo; é sim o ideal político, não mais secreto, de uma sociedade que, inteiramente submersa na rotina da vida cotidiana, aceita pacificamente a concepção científica inerente à sua própria existência.

Original

The laws   of statistics are valid only where large numbers or long periods are involved, and acts or events can statistically appear only as deviations or fluctuations. The justification of statistics is that deeds and events are rare occurrences in everyday life and in history. Yet the meaningfulness of everyday relationships is disclosed not in everyday life but in rare deeds, just as the significance of a historical period shows itself only in the few events that illuminate it. The application of the law of large numbers and long periods to politics or history signifies nothing less than the wilful obliteration of their very subject matter, and it is a hopeless enterprise to search for meaning in politics or significance in history when everything that is not everyday behavior or automatic trends has been ruled out as immaterial.

However, since the laws   of statistics are perfectly valid where we deal with large numbers, it is obvious that every increase in population means an increased validity and a marked decrease of “deviation.” Politically, this means that the larger the population in any given body politic, the more likely it will be the social rather than the political that constitutes the public realm. The Greeks, whose city-state was the most individualistic and least conformable body politic known to us, were quite aware of the fact that the polis, with its emphasis on action and speech, could survive only if the number of citizens remained restricted. Large numbers of people, crowded together, develop an almost irresistible inclination toward despotism, be this the despotism of a person or of majority rule; and although statistics, that is, the mathematical treatment of reality, was unknown prior to the modern age, the social phenomena which make such treatment possible—great numbers, accounting for conformism, behaviorism, and automatism in human affairs—were precisely those traits which, in Greek self-understanding, distinguished the Persian civilization from their own.

The unfortunate truth about behaviorism and the validity of its “laws  ” is that the more people there are, the more likely they are to behave and the less likely to tolerate non-behavior. Statistically, this will be shown in the leveling out of fluctuation. In reality, deeds will have less and less chance to stem the tide of behavior, and events will more and more lose their significance, that is, their capacity to illuminate historical time. Statistical uniformity is by no means a harmless scientific ideal; it is the no longer secret political ideal of a society which, entirely submerged in the routine of everyday living, is at peace with the scientific outlook inherent in its very existence.


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