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O Conceito de Amor em Santo Agostinho

Arendt (CASA:89-93) – Agostinho, concepção de mundo

1 - O Criadro compreendido como origem da criatura

sexta-feira 15 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

[ARENDT  , Hannah. O Conceito de Amor em Santo Agostinho  . Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 89-93]

Constatámos no início desta passagem que encontramos em Santo Agostinho   uma concepção dupla, absolutamente heterogênea, do mundo. A vida, considerada no seu estado de criatura e na sua mortalidade concreta, é compreendida como vida no mundo e com o mundo, do qual, num primeiro tempo, já não é mais independente (no regresso do mundo à origem, por exemplo) do que o mundo dela; pelo contrário, ela participa na constituição do mundo onde [89] vive. Para esta vida, há um princípio e um fim, enquanto ela é chamada no mundo e à existência, enquanto ela os exclui e perde. Pouco importa aqui que o mundo seja tomado no sentido daqueles que amam o mundo (dilectores mundi) ou da criação de Deus (fabrica Dei). Porquanto mesmo se a criatura constitui o mundo, constitui-o sempre fundando-se na fabrica Dei, no mundo tal qual como ela o encontra já aí, criado, e somente daí resulta a possibilidade de constituir uma vez mais o mundo num sentido explícito. Na morte, deixa-se a fabrica Dei tanto como o mundo. Visto que é efêmero, o homem tanto perde este mundo onde foi introduzido como também aquilo que ele próprio criou no amor do mundo (dilectio mundi).

A parte do todo é, enquanto parte, mutável e intermutável. O todo que a engloba mantém-se indiferente ao seu olhar. Na sua simultaneidade e na sua universalidade, o todo é, contudo, um ser imutável (incommutabile) com o qual o homem se refere. Mas isto também possibilita uma dupla interpretação; segundo a tradição grega, o ser não é propriamente Criador, mas sim o eterno conjunto estruturado do cosmos. Na mimesis, a própria essência do ser toma parte no ser eterno. O regresso a si já não significa que seja preciso deixar o mundo. Já existia a imitação de Deus (imitatio) quando a parte se inscreveu no seu lugar certo na ordem do mundo, com o homem perfeitamente ordenado (forno ordinatissimus) que se dispõe exactamente no todo que o encerra, em função do qual só ele é aquilo que é, isto é, parte. Mas se o ser imutável se distingue por princípio do ser do mundo, [90] enquanto antes, se não está incluído no conceito de mundo mas transcende-o enquanto origem do mundo  , o regresso (reditus) adquire o seu sentido original de regresso. Mas, na medida em que aquilo com que se relaciona, o próprio ser, é tomado como o que nunca muda, o ser permanece, tanto antes como depois, o englobante, englobando a sua eternidade também a temporal idade. No final, ele é tal como era no princípio. Aquilo para o qual a vida se precipita é idêntico à sua origem. Compreendemos no presente o sentido da dupla acepção do fim. Referir-se ao fim num sentido único, enquanto Santo Agostinho   tinha unicamente em vista o tender-para-o-ser (tendere esse), para o qual o fim é ao mesmo tempo a origem, o ser englobante, a eternidade. No seu sentido habitual de fim da vida, o fim só pode adquirir este segundo sentido devido ao conceito de ser que se apodera novamente do ser na sua transcendência, mas que, enquanto tal, o faz englobar o mundo e a vida. Mostrando à criatura o seu nada, o que ela não pode fazer se o homem for entendido como parte, a morte indica-lhe a sua origem e uma maneira possível de escapar ao nada, e, logo, de escapar à morte. Sendo este ser imutável, o próprio homem torna-se nele. A vida, englobada pela eternidade, toca aí o seu princípio e o seu fim. O carácter original de limite que tinham o princípio e o fim quando eram o limite último face ao ainda-não ou ao já-não, limite que, por si só, levava à procura de si (se quaerere), é invertido ao longo dessa procura; princípio e fim são limitados pela eternidade. Este duplo aspecto da vida, que simultaneamente limita e engloba, perde o seu carácter de limite; vir do [91] nada e para aí se precipitar já nada significam. A própria morte perdeu o seu sentido. A vida adquire o carácter que lhe é específico quando é tomada a partir do ser que a engloba.

É necessário, portanto, compreender o duplo antes (ante) a partir do duplo sentido de fim e da premissa de que o ser é um ser-sempre. Mas, para que a morte possa tornar-se num antes, é preciso, desde logo, que a vida descubra a sua função; a morte faz descobrir a futilidade (vaidade) da vida, e através disso remete para a origem. Através desta função, a morte isola a vida do mundo, fazendo aparecer claramente a futilidade do ser-no-mundo. Esta futilidade consiste precisamente no tornar-se não-ser a partir do ser. A vaidade específica da vida é anulada, também ela, a partir do momento em que a morte se torna o princípio de uma eternidade onde a vida se encontra inscrita; torna-se o momento positivo da paragem. Mas, à primeira vista, o desenrolar factual da vida já não é a passagem única, irremediável e irreversível do ser para o não-ser. A vida vai até ao ser no ser, até à eternidade na eternidade. Destruindo deste modo o significado do fim, é ao mesmo tempo o desenvolvimento da vida que está nivelado, na medida em que o princípio e o fim já não estão absolutamente separados, mas, englobando-os, tornam-se idênticos. A questão sobre o próprio ser, que justamente dá ao ser específico da vida uma importância tão decisiva, mesmo quando ela é vista na sua vaidade, é aqui suprimida. O desenrolamento concreto da vida já não tem importância. Se a morte unicamente comunica o ser novo, que é o ser original, a existência é nivelada, e pouco importa se é breve ou longa. «De tal maneira [92] que a duração desta vida não é absolutamente nada senão uma corrida para a morte, ao longo da qual ninguém pode parar um pouco ou abrandar a marcha de tempos a tempos, mas onde todos se precipitam ao mesmo ritmo e seguem na mesma peugada. Aquele que viveu menos tempo não passou o dia mais rapidamente do que o que morreu mais velho (...) Aquilo que uma duração mais longa conduz até à morte não viaja mais tempo mas percorre mais caminho.» A intermutabilidade do princípio e do fim da vida fá-la surgir como um simples trajecto que perde toda a importância qualitativa. A própria existência perdeu um sentido que só pode ter por e para ela própria na sua extensão temporal. A morte torna idem desvalorizando a vida enquanto tal, se já não entendermos a vida a partir de antes da morte (ante mortem) mas de depois da morte (post mortem).


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