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Santo Agostinho. Uma Biografia.

Peter Brown (SAB:110-113) – Agostinho e os "platônicos"

Parte II.9

quinta-feira 14 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Brown, Peter Robert Lamont. Santo Agostinho  , uma biografia. Tr. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 110-113

      

Um século antes, havia-se redescoberto a doutrina   autêntica de Platão  : as nuvens se haviam desfeito e este, que era o ensinamento “mais refinado e esclarecido” da filosofia, pudera reluzir com todo o seu brilho nos textos de Plotino   — uma alma   tão próxima de seu antigo mestre que, nele, Platão parecia reviver. Esses homens chegavam mesmo a ter sonhos em que os filósofos lhes expunham “máximas platônicas” durante seu sono. Damos a esse movimento   o nome de “neoplatonismo”, porém os participantes davam-se o nome de “platônicos” — Platonici puros e simples, ou seja, herdeiros diretos de Platão.

Plotino, um grego egípcio, havia lecionado em Roma e falecido em 270. Seus discursos difíceis e alusivos, hoje conhecidos como Enéadas, foram organizados por seu discípulo Porfírio  , também grego, proveniente de Tiro. Eram dois   homens muito diferentes. Plotino fora um amador: um homem   sumamente intuitivo, que debatia com intensidade mas de maneira obscura entre acadêmicos estéreis. Aborrecia seus alunos ao insistir em esquadrinhar cada problema por seus próprios méritos, à medida que ele surgia, durante dias a fio, se necessário, em vez de lhes dar a série costumeira de aulas prontas sobre os sistemas filosóficos. Sendo homem de extremo desprendimento  , um dia Plotino havia chocado e encantado seus escrupulosos amigos ao lhes dizer, a propósito de um festejo religioso, que “Cabe a esses seres virem a mim  , e não a mim ir até eles”.

Porfírio, ao contrário, era um acadêmico de formação rigorosa, a quem Agostinho sempre chamou de “doctissimus” e de “o mais notável dos filósofos pagãos”. Porfírio transformou a descoberta plotiniana de Platão em manuais didáticos e construiu a partir deles um sistema coerente, intensamente religioso e extramundano. Foi o primeiro teólogo sistemático na história do pensamento  . O título de um de seus livros perdidos, que gozava de grande popularidade na época, “De Regressu Animae”, “Ο retorno da alma (ao Paraíso)”, bem podería ser o lema da vida religiosa de Milão: trata-se de um lema resumido num verso que Mânlio Teodoro escreveu para sua irmã, uma freira sepultada na Basílica Ambrosiana: “Alguém que, não tendo um só pensamento sobre coisas mortais   em sua mente   mortal, sempre amou a estrada que conduz ao Paraíso.”

[111] Diversamente de Plotino, Porfírio era um homem inquieto e inconstante. Sentira-se atraído pelo cristianismo e, mais tarde, escrevera Contra os cristãos, livro pelo qual ganhara má fama no século seguinte. Aos 70 anos, esse autor de um tratado Sobre a abstinência, que um dia “concebera um ódio pelo corpo humano”, de repente desposara uma viúva, mãe   de oito filhos. Durante sua vida inteira ele se incomodara com a insuficiência de uma busca puramente racional de Deus  . Estudara informalmente uma coletânea de enunciados de médiuns, os chamados “oráculos caldeus”, e, em certa época, tivera a esperança de encontrar, em fenômenos tão distintos quanto sessões de espiritismo e iogues indianos, um “caminho   universal  ” que viesse a libertar a alma.

Voltando os olhos para esses dois homens, Agostinho viu em Plotino um espírito grandioso e impessoal, “que extraiu o sentido oculto   de Platão”. Ele e seus contemporâneos, tanto pagãos quanto cristãos, sentiam-se muito mais próximos das inquietações de Porfírio. Este parecia ser um microcosmo das tensões dos intelectuais pagãos sérios. Agostinho o apresentaria como uma figura semelhante a Fausto, com um sentimento   premente da necessidade   de um libertador divino da alma, o qual estivera na má companhia do fascínio pelo oculto.

Mas os novos conhecidos de Agostinho pertenciam a uma era diferente da desses dois gregos pagãos. Em Milão, grande parte do platonismo desenvolto e elegante era cristão. Essa mudança, sumamente significativa, tivera início em Roma, em meados do século. Ali, um professor africano de retórica, Mário Vitorino, ligara-se subitamente à Igreja   cristã. Havia também traduzido Plotino e outros escritos neoplatônicos para o latim. Assim, os livros que a tradução colocara à disposição   de homens menos instruídos, como Agostinho, tinham sido fornecidos por um homem que sabidamente morrera como cristão. Vitorino havia inclusive conhecido um padre milanês, Simpliciano, que a essa altura era um homem idoso e experiente. Como Simpliciano parecia haver orientado os estudos teológicos de Ambrósio, o bispo católico da cidade tinha ficado ao alcance desse movimento, e Simpliciano, como “pai espiritual” de Ambrósio, passara a funcionar como a eminência parda de uma tentativa extremamente audaciosa de combinar o platonismo com o cristianismo.

Como todos os movimentos instigantes e autoconfiantes, esses platônicos cristãos tinham sua própria visão do passado  , uma visão que, em [112] retrospectiva, parece ingênua e bizarra, mas que foi capaz de descortinar horizontes intrigantes para Agostinho. Após uma longa vida esotérica, a filosofia de Platão, reconciliada com a de Aristóteles  , havia despontado como “a única cultura filosófica absolutamente verdadeira”. Para um platônico cristão, a história do platonismo parecia convergir muito naturalmente com o cristianismo. Ambos apontavam na mesma direção. Ambos eram radicalmente extramundanos. Cristo   dissera: “Mew Reino não é deste mundo”·, Platão dissera a mesma coisa sobre seu reino das ideias. Para Ambrósio, os seguidores de Platão eram os “aristocratas do pensamento”.

Era nesse movimento que Agostinho estava prestes a ingressar. Tratava-se de um movimento com traços distintivos entre os que falavam latim. No Ocidente, o platonismo tornara-se uma filosofia para amadores: muitas vezes, as obras dos platônicos eram lidas apenas em traduções, como viria a fazer Agostinho. Vitorino e Agostinho tinham semelhanças notáveis: ambos eram produto de uma cultura exclusivamente literária; para ambos, a filosofia era um interesse   “externo”, que se aprofundava pari passu com seu interesse pela religião. Aos dois faltavam a cautela e a exclusividade dos professores estabelecidos de filosofia, como os que continuavam a existir em Atenas e Alexandria. Como fizera Cícero   antes deles, esses amadores latinos nunca se comprometiam por completo com as ideias que manipulavam. Sentiam, por mais que isso lhes fosse obscuro  , que havia mais na vida do que os sistemas metafísicos, e, tal como Cícero, quer fossem católicos, quer pagãos, tentavam conciliar as ideias que haviam recolhido nos gregos com a religião tradicional de seus ancestrais.