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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:180-183) – resumo das proposições sobre consciência

Clareza e Obscuridade: um mito para compreender a consciência

domingo 10 de outubro de 2021

[FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 180-183]

Fazendo um retrospecto, para continuar, tínhamos destacado a princípio quatro resultados, dentre outros:

(1) Não podemos “perder” a consciência;

(2) A consciência é inalteravelmente transparente;

(3) Não há “estados de consciência”; e

(4) A intencionalidade? não é uma relação entre? a consciência e algum conteúdo ou coisa?;

aos quais acrescentamos os relativos? ao Erro? de Descartes   (5 a 7) e, agora?, podemos acrescentar os seguintes, também escolhidos dentre muitos outros:

( 5 ) Conheço x Não sou x

Em que a constante “Conheço” pode, por sua vez, funcionar como variável, cujo domínio são todas as “atitudes proposicionais”, percebo, vejo, creio, desejo? etc. Demonstrá-la, a essa altura, seria repetir tudo o que escrevi, ou dizê-lo sob outra forma?. Tratemo-la, portanto, como se fosse um axioma? (o leitor sabe que, se vê o livro que lê, isso implica logicamente que ele se distingue do livro). Mas se (5) é logicamente verdadeiro?, então é necessariamente verdadeiro, e não admite exceções. Ora, ponha-se o leitor, ele mesmo, no lugar? da variável ‘x’, e compreender?á imediatamente o Erro de Descartes  :

(6) (Tenho uma ideia? clara e distinta de que) (sou uma substância pensante) ➩ Sou uma substância pensante.

O primeiro parênteses encerra uma “atitude? proposicional”; o segundo, seu “objeto?”, ou “conteúdo”, e (6) é logicamente falso?. O que Descartes   deveria ter? pensado era:

(7) (Tenho uma ideia clara e distinta de que) (sou uma substância pensante) ➩ Não sou uma substância pensante.

(8) A consciência não “tem” um sujeito?;

(9) A consciência não “tem” um objeto;

(10) O que chamamos de “sujeito” é uma forma de inconsciência: o ponto? cego;

(11) O que chamamos de “objeto” é uma manifestação do inconsciente?: a aparência;

(12) A consciência não é uma relação entre sujeito e objeto;

(13) A consciência tampouco é uma “propriedade? intrínseca” de estados mentais (este assunto, que até [180] agora foi apenas “sugerido”, será investigado no próximo Capítulo);

(14) Ainda que a consciência seja tudo que verdadeiramente há, ela não tem uma sede, seja o Absoluto?, seja um Ego? transcendental?, ou seja, ela não é um “Eu”;

(15) O pensamento? e a mente? são estruturas geradoras de ilusões sistemáticas e aparentemente irresistíveis;

O que chamo de “Identificação”, já vimos, não é algo que a consciência “sofre”, não é algo que lhe “acontece”, pois o próprio tempo? é produzido pelas identificações. A consciência não é, por sua vez, uma forma, muito menos uma forma de “inconsciência de si”. A este equívoco eu mesmo já fui levado, pela ilusão transcendental de que as “formas de inconsciência”, ou seja, os estados mentais intencionais pressupõem necessariamente uma “consciência de si” (p. ex., a “unidade?” kantiana). Isto é falso. É uma ilusão das mais irresistíveis, pelo menos para um kantiano — que fui —, mas é, contudo, uma ilusão (esta ilusão levou Hegel   aos pináculos do absurdo?). Se a consciência é imperdível, não pode ter histórias evolutivas e involutivas, como se se perdesse a si mesma para depois se reencontrar (sic). Se alguém diz: “Fulano agora está bem! Acho que ele se reencontrou!”, repete, na linguagem? ordinária, o que Hegel   escreveu em muitos volumes. Mas se não há como alguém “encontrar-se?”, muito menos pode fazê-lo a consciência. Sei que também venho usando “metáforas”, mas prefiro as minhas. Na verdade?, é banalizar a Filosofia?, reduzi-la a metáforas: é isto que a ciência usa incessantemente. Em vez de “metáforas”, o filósofo usa mitos? (como Platão usou). Expliquei, no Capítulo 1, que o mito é o solo de estrutura?ção simbólica do filosofar autêntico. A Filosofia jamais se contrapõe ao mito. De modo? que o símile que escolhi, o Jogo? de Luz?, é um mito, não uma “metáfora”.

O vício da especulação é deixar-se levar pelo que se reflete no espelho. A palavra? “Si” pode levar o pensamento a uma fantástica estupidez. “O para-si? se funda”, observa Gois e Silva, em sua análise minuciosa do contorcionismo fenoemnológico-reflexivo de Sartre  , n’O Ser e o Nada?, “negando de si um si, o ser-em-si?. Mas o ser-em-si, assim manipulado, não pode ser, senão si, o em-si que sou. O para-si é presença a “siJ\ Mas esse? “si” não deve ser apreendido como se fosse um ser plenamente real?”... etc. [1] Sartre   aponta para um alvo errado — a Existência Humana — e erra o alvo errado, quando a define? como “falta? de coincidência com ela mesma” [2]. Em primeiro lugar, só se pode compreender o que está fora do Ser — a Existência — à luz do Ser, ou seja, se apontarmos para o alvo certo, o Ser. Em segundo lugar, se alguma coisa “define” a existência humana, é o contrário de uma “falta de coincidência com ela mesma”, ou seja, são as Identificações Primária e Secundária. (Sartre   dá a isso que são seus erros, o nome? de “fracasso”. O fracasso, evidentemente, é dele.) Quanto à consciência, tampouco ela pode ser um “para-si” — V. meus resultados, (1) a (5) ), acima. Sartre  , é claro, acerta em muitas outras coisas. Mas quando acerta em não identificar a consciência com o Ego, acerta pelas razões erradas [3]. Erra alvos errados e alvos certos. Sua melhor “jogada” é o jogo de palavras pelo qual o para-si é o que não é, e não é o que é. Mas quando chega a isto, não há mais alvo.

Como pode haver “consciência de si”, se todo objeto é uma opacidade e todo sujeito a sombra por ela projetada? O que eu uma vez chamei, erroneamente, de “consciência de si”, era flatus voeis. O que há é uma distinção entre o que se repete nas identificações e as identificações que se repetem. O que se repete nas identificações é sempre a inconsciência sob alguma “forma”. As identificações que se repetem são nossas mentiras sistemáticas. Ter um ponto de vista é simplesmente ser ignorante, ignorar o que se é, ignorar os “outros” pontos de vista, ser “alguém”, ter uma identidade?, estar? identificado, estar apavorado com a perspectiva? de deixar de existir?, estar aterrorizado pela morte?: é desejar, e estar por isso condenado a uma frustração irremediável, pois é estar no tempo, ter começo e fim?, e estar localizado no espaço, estar aqui porque não se está ali. Quando respondemos à pergunta? “Quem é você”, apontamos sempre para um objeto. E não nos enganamos: jamais nos passa despercebido que estamos mentindo. Quem é você? O Professor Fulano. A Professora Fulana, o marido, a mulher?, o pai, a mãe, o aluno, a aluna, o Diretor, aquele que faz isso, aquela que faz aquilo, o que sente isso, o que sente aquilo, o que tem tais e tais memórias, o filho ou a filha de Fulano [182] e Sicrano; tudo isso nada mais é do que construção da mente, biológica e social?. Essas construções jamais poderão ser o que alguém é, não porque possa haver alguém ali, onde há uma personalidade?, mas porque o pensamento é a produção do falso em cadeia. Não há “identificações” verdadeiras. Aquilo que, ao ser conhecido, deixa de ser o que é, justamente por ter sido conhecido, é o Falso: trata-se do que jamais se revela tal qual é, mas sempre como não é — símbolo, o que está sempre no lugar de outra coisa. É uma ironia? do que Heráclito   chamou de “destino?”, que expressões como “eu consciente?”, “ego fortalecido”, “bem estruturado” etc., sejam corriqueiras. Uma questão de “caráter”. Por isso a resposta do sábio à pergunta sobre quem ele é só pode ser o silêncio. Ou então a mais longa das respostas: “Sou isto, e aquilo, e aquilo ...”, indefinidamente. Aos nossos resultados, podemos, portanto, acrescentar:

(16) Não há “consciência de si”.

Mas este não é um resultado que um neo-cartesiano, ou um fenomenólogo, aceitem facilmente. Algo me diz que ainda tenho com eles algumas contas a ajustar. Pois ele ainda poderia redarguir: “Embora você diga que as coisas são de fato? assim, elas não parecem ser assim”. Ora, uma boa maneira de encaminhar uma conversa desse tipo? é, por exemplo?, fazê-la girar em torno do que chamarei de “Falácia Descritiva”. Afinal, a Fenomenologia? é descritiva.


Ver online : LÉXICO DE FILOSOFIA - CONSCIÊNCIA


[1GOIS E SILVA, C. 1995: Liberdade e Consciência no Existencialismo de Jean-Paul Sartre. Tese de Mestrado. PUC-Rio, p. 43.

[2Ibid., p. 46.

[3Ibid. p. 51.

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